CONTOS & CRÓNICAS – UMA SESSÃO DE AUTÓGRAFOS – por Carlos Loures

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A primeira vez que vi Sebastião Lopes-de-Souza foi durante a sessão de autógrafos que Érico Veríssimo deu na Livraria Portugal na Rua do Carmo. Foi num fim de tarde do Inverno de 1959, em Fevereiro, creio. Havia muita gente com livros, alguns acabados de comprar, e numa fila ordeira, esperávamos a nossa vez. Ao lado do escritor, além de Henrique Pinto, o dono da livraria, estava um senhor que fumava cachimbo – que vim a saber tratar-se de Souza-Pinto, editor de Veríssimo em Portugal – e que, se alguém conhecido chegava em frente da mesa, segredava o nome a Érico. O que aconteceu quando a esposa de um conhecido oposicionista preso, um sindicalista, pediu uma dedicatória para o marido.

Érico ficou muito emocionado e escreveu uma dedicatória que ocupou o anterrosto e o rosto da Saga. Quando acabou de escrever, ergueu-se e ao entregar o livro disse-lhe em voz baixa palavras de encorajamento. A senhora, ainda nova, bem vestida, apesar de modesta, saiu limpando lágrimas. Pela grande sala da livraria perpassou um murmúrio de contida emoção. Tínhamos sido avisados de que havia agentes da polícia política e, após haver sido exteriorizada aquela emoção subversiva olhávamo-nos todos com suspeição.

Eu era um rapazote estudante com barba a despontar e mil e uma teorias brotando no interior da cabeça e a disfarçar uma timidez que me fazia corar por tudo e por nada. Marx, Sartre, Rimbaud e muitos outros acotovelavam-se, dando ao meu panorama cultural o aspecto de uma zona de desastre. Trazia um exemplar da Saga, que lera e relera e um outro, acabado de comprar, de Olhai os Lírios do Campo. Ia oferecê-lo a um tio, irmão de minha mãe, que fazia anos no princípio de Março e era um grande admirador do escritor. Fora ele, que me dava explicações de latim, quem me chamara a atenção para aquele romancista brasileiro. Já lera o romance e tinha um volume que envelhecera de tanto ser lido e emprestado, mas um exemplar dedicado pelo autor era outra coisa.

Estava quase a chegar a minha vez e o meu nervosismo aumentava à medida que me aproximava da mesa. À minha frente estava um velho de plastrão, que tinha um tique nervoso, de tempos a tempos – movia a cabeça para um lado e para outro. Disse o nome ao escritor e o senhor do cachimbo que tinha cumprimentado o velhote, segredou a Érico. Devia ser um escritor ou alguém do mundo da edição, porque o escritor brasileiro tratou o homem por «caro colega». O senhor que girava o pescoço saiu e avancei. Veríssimo apercebeu-se do meu nervoso. Abriu um largo sorriso:

– Temos então aqui um futuro escritor? – Embaraçado não soube o que responder. As pessoas riram-se e ele continuou – Você tem cara de escritor – Devo ter corado, pois as pessoas mais próximas, o senhor Henrique Pinto, o cavalheiro do cachimbo, uma senhora jovem que viera do andar de cima com um papel na mão para entregar ao dono da livraria, todos sorriam e me olhavam. Eram simpáticos, mas eu não gostava de tanta gente a olhar para mim. Tendo pena do meu embaraço, Érico compôs um ar sério. Tirou os óculos num gesto que depois soube ser nele habitual, mordeu uma das hastes e acrescentou:

– Sabe, dizem que sou bom fisionomista. Você tem o ar de quem observa, grava na memória… – olhou em redor o círculo de rostos – mas não para escrever um relatório, espero bem… – houve uma risada geral, pois ele estava obviamente a referir-se aos agentes da polícia – e acrescentou – mas se quer que eu autografe tem de me dar os livros. – Com aquele diálogo inesperado e embaraçoso esquecera-me do meu objectivo e apertava os dois livros contra o peito. Tinha metido na primeira página de cada um o meu nome e o do meu tio. Entreguei-os. Érico abriu o primeiro livro, leu o nome e ia começar a escrever quando um homem com uma capa de fazenda azul escura um chapéu à diplomata, transportando uma pasta de cabedal preto e com uma bengala de castão em prata com um elegante golfinho, entrou e em passadas rápidas contornando a bicha de admiradores, chegou junto da mesa. Veríssimo suspendeu a dedicatória que fazia para mim. O editor, tirando o cachimbo da boca disse:

– O senhor desculpe, mas tem de ir para a bicha – à época não era crime dizer «bicha». Em todo o caso Érico riu-se e repetiu: «Bicha…»

O homem disse olhando os circunstantes a começar por mim:

– Meu queridos amigos, a poucos metros daqui, no Hospital da Ordem Terceira de São Francisco, a minha pobre mãe está moribunda. É uma grande admiradora deste genial escritor – Abriu a pasta onde tinha abundante papelada e retirou de uma bolsa interior um envelope. Com gestos calmos abriu-o tirou uma carta com timbre e depositou-a na mesa – Nesta carta, o Professor Doutor Melo e Paiva (grande médico!) testemunha que o desenlace se pode dar a todo o momento – limpou uma lágrima com a mão enluvada – fitou-me nos olhos:

– Meu jovem amigo, importa-se de me ceder a vez? – Olhou os outros e repetiu a pergunta – houve um murmúrio feito de pressurosas aquiescências – Queria dar-lhe esta última alegria – um soluço atravessara-lhe a voz profunda – novo murmúrio de aceitação. Pôs-me uma mão no ombro:

– Deus vos proteja e abençoe a todos.

O escritor, após ter perguntado o nome da senhora, escreveu uma bela dedicatória feita com palavras de esperança. Entregou-a ao homem e soerguendo-se apertou-lhe a mão e desejou as melhoras de senhora sua mãe. Atravessou o espaço que o separava da rua, agradecendo a murmurante simpatia e compaixão que a pequena multidão lhe manifestava.

E saiu. De costas para a porta, ouvi alguém comentar:

– Então ele em vez de subir, vai para o Rossio? – na realidade, o Hospital de São Francisco situava-se perto do Largo Camões, no topo de uma das colinas de Lisboa. Se a mãe estava moribunda, por que não se apressava a chegar junto dela?

Acabava de conhecer Sebastião Lopes-de-Souza. O Doutor Sebastião Lopes-de-Souza.

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