FINANCEIRIZAÇÃO NO BRASIL: “UM TIGRE DE PAPEL, COM DENTES ATÓMICOS”? – por PIERRE SALAMA

01

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Commons Wikipedia

Financeirização no Brasil: «um tigre de papel, com dentes atómicos»?

Pierre Salama, Attac, 23 de Maio de 2014

Financiarisation au Brésil : « un tigre en papier, avec des dents atomiques » ?

Parte III

(CONTINUAÇÃO)

Assim como nós já o sublinhámos, a produção nacional não pode responder convenientemente ao crescimento da procura das famílias e ao da induzida dos produtos intermédios e dos bens de equipamento, por falta de investimentos suficientes – estes situam-se entre 16 % do PIB em 2004 e 18,4 % em 2013, ver o gráfico abaixo – e duma fraca plasticidade do tecido industrial. Para tanto, as capacidades de produção instaladas são utilizadas plenamente [9] em 2013, como se pode vê-lo no quadro abaixo (fonte Carta IEDI).

financeirização - V

As empresas exportadoras de produtos industriais são desfavorecidas pela apreciação da taxa de câmbio (ver gráfico abaixo) mas também pela insuficiência de bens de investimentos anteriores e pela fraqueza das suas despesas de investigação (dificilmente chegam aos 1 % do PIB, concentrados sobre apenas algumas empresas).

financeirização - VI Source OCDE (2013): Estudos económicos da OCDE, Brasil ( le coût unitaire du travail dans l’industrie de transformation)

O tecido industrial prova-se cada vez mais inadaptado para responder à evolução da procura mundial de produtos industriais. As exportações sofrem uma regressão relativamente mais ou menos fortemente de acordo com o seu nível tecnológico. O saldo da balança comercial de produtos industriais é cada vez mais negativo. Mais precisamente, as exportações de produtos manufacturados (indústria de transformação) sofrem uma regressão em termos relativos no Brasil, passando de 53 % do valor das suas exportações em 2005 para 35 % em 2012, e com vantagem para as exportações de matérias-primas agrícolas e mineiras. O saldo da balança comercial de produtos da indústria de transformação torna-se negativo desde 2008. Este défice cresce de 2008 à 2013, por causa especialmente dos produtos de alta, média-alta e média-baixa tecnologia. Só os produtos de baixa tecnologia conservam um saldo positivo da sua balança comercial, como se pode ver nos dois gráficos abaixo (fonte Carta IEDI).

financeirização - VII

Contudo, desde 2001, graças à exportação crescente de matérias-primas, o saldo da balança comercial torna-se positivo e atinge, de acordo com o Bradesco, +46,5 mil milhões de dólares em 2006. Depois, este saldo diminui, e em 2013 é de apenas de +2,5 mil milhões de dólares, ou seja quase vinte vezes menos importante que em 2006 (ver gráfico abaixo, fonte Carta IEDI).

financeirização - VIII

O excedente da balança comercial é por conseguinte cada vez mais modesto e não é suficiente para compensar os défices dos serviços [10]. O défice da balança das contas – correntes é consequentemente crescente. Os défices externos e internos (balança das contas – correntes e orçamento), mais a atracção eventual das outras praças financeiras, vêm reforçar a volatilidade dos investimentos em carteira e, sendo assim, temos as dificuldades clássicas “para equilibrar” a balança de pagamentos. O constrangimento externo reaparece então e, com ele, o risco de um crescimento dito pendular, com todas as consequências negativas sobre o volume do emprego e o nível dos salários reais.

(continua)

________

[9]  A insuficiência de investimento e as capacidades de produção plenamente utilizadas são fontes de inflação. São por conseguinte as condições da oferta mais do que as da procura  que explicariam as tensões inflacionistas.

[10] A balança comercial compreende o conjunto dos bens trocados (importações e exportações de bens), a dos serviços refere-se principalmente aos serviços ligados aos transportes, às viagens, à construção, às comunicações, seguros, serviços financeiros, serviços informáticos, royalties; “os novos sectores dinâmicos”: os serviços ligados à construção, a informática, aos serviços pessoais e aos culturais, royalties, etc. O saldo da balança das contas correntes compreendem o saldo da balança comercial dos bens e serviços, ao qual se acrescenta  o saldo  dos serviços “factores”, ou seja, ligados ao capital e ao trabalho (dividendos, juros, transferências dos trabalhadores no estrangeiro).

________

Para ler a Parte II deste trabalho de Pierre Salama, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

FINANCEIRIZAÇÃO NO BRASIL: “UM TIGRE DE PAPEL, COM DENTES ATÓMICOS”? – por PIERRE SALAMA

________

Para aceder ao original vá a:

https://france.attac.org/nos-publications/les-possibles/numero-3-printemps-2014/debats/article/financiarisation-au-bresil-un

1 Comment

Leave a Reply