CONTOS & CRÓNICAS – IMPRESSÕES DE UMA VIAGEM AOS ESTADOS UNIDOS EM 1986 – 8 – por José Brandão

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Com o sistema Ford, acabavam-se os perigos revolucio­nários e a luta de classes! Até mesmo Al Capone, o inimigo público número um, era anticomunista. E tinha muita razão, pois o seu império estava construído segundo o modelo capitalista.

Durante um certo tempo pôde acreditar-se que o sonho de um país em que cada qual seria rico graças à circulação acelerada do dinheiro ia tornar-se uma realidade eterna. Wall Street conheceu horas de uma agitação febril. O que era bom para a General Motors era bom para a América. Muitos pensavam sinceramente que os banqueiros, graças às suas virtudes, inteligência e clarividência, iam salvar o mundo. Miragem de uma idade de ouro em que sessenta por cento da população ainda não partilhava, pois não pos­suía o mínimo indispensável à sobrevivência. Havia quatro milhões de desempregados, e para muitos dos que trabalha­vam nas fábricas, as maravilhas do sistema Taylor tinham um grande defeito: as candências infernais. As greves do têxtil na Carolina do Norte e em todas as minas de carvão do território; greve dos alfaiates e dos trabalhadores de peles em Nova Iorque, batalhas nas ruas, espancamentos, espionagem, provocações: tais eram os bastidores do Big Business mas só estava a par quem tomava parte.

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E, mais tarde, em Outubro de 1929, deu-se a catástrofe. O país produzia demasiado enquanto demasiadas pessoas tinham pouco com que comprar. As cotações da Bolsa des­ceram vertiginosamente. Faliram 5761 banqueiros; fecha­ram empresas, outras ficaram com o rendimento reduzido a metade. Durante quatro anos havia entre doze e dezassete milhões de desempregados. Foi uma época terrível. Milha­res de crianças morreram de fome. Suicidaram-se milhares de homens. Metade da população caiu numa miséria extra­vagante. Centenas de milhares de famílias foram para a Califórnia em busca de um novo Eldorado: as Vinhas da Ira. Dir-se-ia, por vezes, que, à semelhança de um formi­gueiro destruído, todo o país tinha vindo para as estradas. Foram os negros, cuja situação era mais precária, os mais atingidos. Também mais de um milhão de fazendeiros fo­ram expropriados. Apenas os patrões «mamutes» lucraram com a infelicidade da coletividade: pois apenas eles, ao abrigo da crise, tinham com que comprar a baixo preço as pequenas e médias empresas.

Enquanto se acelerava a concentração do poder, a repres­são, para manter a ordem, tinha de se tornar feroz. Mais provocações durante este período: era tão grande a miséria que todos estavam prontos para todas as loucuras, todas as revoltas: desde os esfaimados, os desabrigados, expulsos das suas casas pelos senhorios, até os antigos combatentes da Grande Guerra, os heróis que foram mandados comba­ter para Champagne pela democracia e que se davam conta agora do logro. Em Março de 1930, houve manifes­tações monstras em Detroit, Chicago, Pittsburgh, Cleveland, Los Angeles, São Francisco, Denver, Seattle, Filadélfia. Em Nova Iorque vinte cinco mil polícias atacaram manifestantes, matando e ferindo homens, mulheres e crianças.

— Os desempregados são todos comunistas! — exclamou o chefe da polícia à maneira de justificação.

Á conta disto, uma boa metade da América se sentia comunista. A situação era explosiva. Alguns pensavam que estava em risco de estalar uma nova guerra civil: e real­mente alguns sinais podiam deixá-lo prever.

Em Dearborn, em 7 de Março de 1932, depois de uma marcha de oitenta e cinco mil empregados despedidos das fábricas Ford, de Detroit, os «guardas privados» do rei do automóvel, mais gangsters do que polícias, debaixo das ordens de Harry Bennett, entregaram-se a um verdadeiro massacre, chegando ao ponto de utilizarem metralhadoras e fazendo uma centena de mortos e feridos.

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É este o grande sindicalismo americano. Ainda hoje não perdeu o jeito de resolver os problemas sem recorrer ao cheiro da pólvora. É aqui que se mata um sindicalista com quem mata um cão.

Pensilvânia, 31 de Dezembro de 1969.

Três homens esperam num Chevrolet. Estão a cinquenta metros duma casa de campo igual a tantas outras.

Jock Yablonski, de 59 anos, a sua mulher Margaret, de 57 anos e a sua filha Charlotte, de 25 anos, dormem tranquilamente.

Já passa da meia-noite. É dia de Ano Novo. Os três homens entram em casa e abrem fogo. É o massacre. Pai, mãe e filha são assassinados. Porquê?

Yablonsky era sindicalista e uns dias antes tinha anunciado a sua candidatura a presidência do Sindicato dos Mineiros contra o intocável Tony Boyle. Ele atrevera-se a apontar irregularidades no processo eleitoral e acusava o então presidente sindical.

Boyle acaba encerrado atrás das grades duma penitenciária americana condenado a prisão perpétua pelo assassínio do seu opositor sindical.

Jock Yablonski, a mulher e a filha, acabam enterradas no cemitério de Clarksville condenados à vida eterna pela mão criminosa do presidente sindicalista “Tough Tony” Boyle.

Não se trata dum romance de “série negra” e muito menos de um caso isolado da vida sindical americana, á uma realidade do sindicalismo dos Estados Unidos e o pão nosso de cada dia sempre que um grande dirigente sente o lugar ameaçado pela concorrência.

A América é assim. E o sindicalismo é americano puro.

O sistema recorre a tudo para impedir a possibilidade de qualquer mudança. Os dirigentes agarram-se com unhas e dentes aos lugares que ocupam e tratam de “arrumar” o mais pequeno esboço de contestação interna. Colocar em minoria uma qualquer direção sindical é um drama pavoroso para os dirigentes que ficam nessa situação e um retrocesso que arrepia só de pensar nele. Voltar às lides fatigantes da produção capitalista depois de vários anos de trabalho burocrático sindical melhor vivido e melhor compensado, não é desfecho que agrade a um dirigente sindical em qualquer parte do Mundo.

Regressar aos barulhos das fábricas, voltar a aturar os chefes, suportar os horários dos turnos, esperar pelo fim do mês, etc., etc., custa muito, depois de se saborear o sindicalismo de cúpula e de contrair as doenças da pequena burguesia habituada ao fresquinho dos ares condicionados e á quentura das fofas alcatifas peludas.

Voltar a suar a testa e a sujar as mãos!… Que é lá isso?!

A riqueza dos sindicatos americanos faz a sua força mas muitas vezes também a sua fraqueza. Movimenta tantos milhões e possibilita tal ascensão aos seus dirigentes que ninguém quer sair e muitos gostariam de entrar. As eleições sindicais raramente significam qualquer mudança. Os candidatos da oposição, uma vez que não têm o controlo do aparelho, não dispõem dos meios para fazer ouvir os seus argumentos e muito menos dos recursos financeiros para fazer campanha.

A AFL-CIO tem sido dirigida por presidentes que se mantêm á frente da central durante quarenta anos e mais. As direções sindicais são passadas frequentemente de pais para filhos e de filhos para netos.

É tudo tão extravagante no sindicalismo americano que o cérebro da política exterior da AFL- CIO, uma política raivosamente anticomunista, foi um ex-secretário-geral do Partido Comunista Americano e membro da Internacional Comunista em Moscovo.

Nome original Jakob Liebstein, Jay Lovestone nasceu na Lituânia, emigrou para os Estados Unidos com 9 anos. Aos 17 anos era militante socialista. Em 1927 foi eleito Secretário do Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA) do qual foi um dos fundadores. Foi expulso do Partido em 1929. Após a Segunda Guerra Mundial, tornou-se conselheiro de assuntos estrangeiros do presidente da AFL-CIO e colaborador da CIA.

Nomeado secretário da comissão para o sindicalismo livre em 1944, Jay Lovestone é o grande obreiro da política externa adotada pela AFL-CIO. Foi um homem misterioso que soube aproveitar para o sindicalismo americano aquilo que aprendeu com o comunismo russo.

Passados três anos sobre a nomeação de Lovestone é aprovada a legislação laboral, conhecida pelo nome de lei Taft-Hartely, que prevê que os dirigentes sindicais assinem uma declaração em que atestam que não são membros do Partido Comunista nem ligados a esse partido.

O sindicalismo americano nunca parou de surpreender o mundo operário. É uma verdadeira revolução sem revolucionários assumidos. Fez o 1º de Maio; comemora o Dia do Trabalhador na primeira semana de Setembro. Proibiu o direito à greve no funcionalismo público; tem os bombeiros de Nova Iorque ou os polícias de São Francisco paralisados durante semanas. Não aceita a ideia da greve geral; dispensa apoio a greves e a boicotes que chegam durar meses.

É isto o sindicalismo na América, á isto a maior central sindical do Mundo.

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