O Atlas iluminado, de Carlos Loures – Navegar com mapas de palavras – por Vincenzo Russo*

* Professor da Universidade de Milão

Há uma sabedoria antiga e preciosa – renascentista dir-se-ia, mas de um renascimento inquieto –, uma irreverência erudita para com a tradição nacional eImagem1 ocidental (O’Neill, Borges, os amados italianos in primis Dante) que perpassa o léxico e as formas da poemonáutica que Carlos Loures codifica no seu manual. De resto, manual de poemonáutica – tal como reza o subtítulo da última recolha poética O atlas iluminado (Colibri, 2014), parece-me, por um lado, sugerir a sistematização da matéria que cada manual implica e, por outro, jogar com a invenção semática de uma disciplina – a poemonáutica – que todavia é menos de uma disciplina, é um vistoso programa de poética («O poema é uma barca de palavras feita» ou «A tripulação é embalada pela voz vibrante e pura. /O poeta junta ao poema um adjectivo que faltava ainda»). O acto de navegar e de poemar são equiparados porque «barco e poema viviam antes de nascer» e o poeta não se arrisca a sulcar os mares da poesia sem lhes conhecer as regras e os perigos, tal como o debuxante não se torna navegante sem ter desenhado um mapa de sonhos e léguas, seja qual for o rumo, e ainda que a viagem empreendida conduza apenas à «ilha da utopia». Um léxico requintado e inactual da marinharia que o próprio autor – na Nota prévia e única – revela ter ido buscar à Terminologia Naval Portuguesa anterior a 1460: debuxante, carraca, gurupés, e ainda os mais tardios zarpar, zurrapa.

Afinal, o mar erudito e conceitual de Carlos Loures é o mesmo que se vê e se pode sonhar no Atlas iluminado que como todo o mapa sempre despertou o fascínio da imaginação literária: se quisermos, poderíamos considerar esta recolha de poemas como mais um exercício de geopóetica (a habilidade poética de construir e produzir um mundo, uma espécie de inteligência territorial): tal como escreveu o escritor e pintor italiano Alberto Savinio: «Não conheço imagens mais poéticas, mais fascinantes, mais inspiradoras que as dos mapas geográficos».

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