EDITORIAL- CABO VERDE – A Língua e a literatura, alicerces da identidade nacional.

Imagem3Passa hoje mais um aniversário da independência de Cabo Verde. No mosaico colonial português, o arquipélago cabo-verdiano surgia como uma excepção – as gentes, os hábitos, as tradições, transformavam o território quase num prolongamento de Portugal. Porém, paradoxalmente, a cultura e a identidade nacionais revelaram-se muito consistentes. Cabo Verde, pese embora a sua reduzida dimensão demográfica e territorial, é uma nação coesa e culturalmente sólida. Nação em cuja proto~história avultam os nomes de escritores e de outros trabalhadores da cultura. Facto invulgar este o de serem intelectuais os próceres de uma nova pátria.

Durante o período colonial, só no século XX a literatura cabo-verdiana surgiu com a expressão de uma identidade própria, em ruptura explícita com os modelos europeus até então seguidos, nomeadamente os de matriz portuguesa. Foi sobretudo com a obra e com a acção de Eugénio Tavares que as temáticas, quer as da poesia, quer as da novelística, passaram a relacionar-se com a vivência cabo-verdiana – a insularidade, a seca, a fome e a consequente emigração, para a metrópole ou para outros países. Eugénio Tavares, foi, na realidade, o grande impulsionador da cultura autóctone – a publicação de jornais e revistas por sua iniciativa ou com colaboração sua, foram decisivos na criação de uma consciência cultural cabo-verdiana. Desde o Alvorada, editado nos Estados Unidos entre 1900 e 1917 até ao A Voz de Cabo Verde, publicado na Praia entre 1911 e 1916, houve mais de uma dezena de publicações que editou ou em que colaborou assiduamente. O papel das revistas e jornis no despertar da consciência cultural do País, foi enorme. Foi o caso de Claridade (1936-1960) e de Certeza (1944). Mas  Claridade destaca-se das demais. Os principais autores revelados nesta revista foram, entre outros: Jorge Barbosa, António Pedro, Osvaldo Alcântara (Baltasar Lopes da Silva), Manuel Lopes. O cariz neo-realista da Certeza – Guilherme Rocheteau, Tomaz Martins, Nuno Miranda, Arnaldo França, António Nunes, Aguinaldo Fonseca. O papel desempenhado por Claridade no despertar da cultura nacional, transcende em muito as fronteiras da literatura. Pode dizer-se que há um «antes» e um «depois» da Claridade.O Suplemento Cultural também acrescenta ao acordar da consciência de uma identidade cultural, algo de muito importante – o conceito de nação substituindo o de região ou província ultramarina – Gabriel Mariano, Onésimo Silveira, Ovídio Martins, Terêncio Anahory, Yolanda Morazzo. E não pode ser ignorado o papel da Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa, como ponto de encontro de muitos dos futuros intelectuais (e dirigentes políticos) dos PALOPs e, consequentemente, como motor de criação de movimentos independentistas e crisol do despertar de correntes literárias autónomas e libertas da matriz cultural portuguesa. Foram muitos e importantes os intelectuais cabo-verdianos que passaram pela Casa dos Estudantes do Império.

Na construção da identidade nacional, pode dizer-se que a cultura, nomeadamente na sua expressão literária e musical, foi o grande alicerce da independência.

 

 

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  1. Na construção da identidade nacional, pode dizer-se que a cultura, nomeadamente na sua expressão literária e musical, foi o grande alicerce da independência.”

    Maria ​

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