Camões recitado e cantado (II) – 8 – por Álvaro José Ferreira

O Céu, a terra, o vento sossegado

Poema (soneto) de Luís de Camões (in “Rimas”, edição de 1616)
Recitado por Ary dos Santos* (in LP “Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos”, Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; “Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz”, CNM, 2011)

O Céu, a terra, o vento sossegado…
As ondas, que se estendem pela areia…
Os peixes, que no mar o sono enfreia…
O nocturno silêncio repousado…

O pescador Aónio, que, deitado
onde co vento a água se meneia,
chorando, o nome amado em vão nomeia,
que não pode ser mais que nomeado:

«Ondas – dezia – antes que Amor me mate,
tornai-me a minha Ninfa, que tão cedo
me fizestes à morte estar sujeita.»

Ninguém lhe fala; o mar de longe bate;
move-se brandamente o arvoredo;
leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita.

Notas:
Aónio (antropónimo masculino formado a partir de Aónia, anagrama de Joana): este falso nome designa o próprio poeta
Enfreia – modera
Se meneia – se move

* Direcção literária – Alberto Ferreira;  Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, por Heliodoro Pires: Montagem – Moreno Pinto

Dura Memória

Poema (soneto): Luís de Camões (in “Rimas”, edição de 1861)
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (in LP “Amália 1963”, Columbia/Pathé Marconi (França), 1963; EP “Amália canta Luís de Camões”, Columbia/VC, 1965; 2LP “O Melhor de Amália: Volume II – Tudo Isto é Fado”, EMI-VC, 1985, reed. EMI-VC, 2000; Livro/4CD “O Melhor de Amália”: CD 3, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)

Memória de meu bem cortado em flores
por ordem de meus tristes e maus fados,
deixai-me descansar co meus cuidados,
nesta inquietação dos meus amores.

Basta-me o mal presente e os temores
dos sucessos, que espero, infortunados,
sem que venham, de novo, bens passados
afrontar meu repouso com suas dores.

Perdi numa hora quanto em termos
tão vagarosos e largos alcancei;
deixai-me, pois, lembranças desta glória.

Cumpre se acabe a vida nestes ermos,
que neles com meu mal acabarei
mil vidas, não uma só, dura memória!

* José Nunes – guitarra portuguesa; Castro Mota – viola;    Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa;  Técnico de som – Hugo Ribeiro

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