Saímos de Washington num voo interno para Nova Iorque. A viagem não chega a demorar uma hora. No aeroporto nova-iorquino de La Guardia espera-nos um pequeno e velho avião da companhia Boston AirIine. Vamos voar até à cidade de New Bedford, no estado de Massachusetts. A aeronave é um vetusto Martin 404 da Segunda Guerra Mundial. Tem já em cima da carlinga mais de quarenta anos de serviço mas está com bom aspeto. Não são “passarões” para cair ao primeiro abanão de vento. Claro que de vez em quando lá aparece um que já não tem asas para se aguentar naquelas alturas e que acaba num estado que não dá para exposição nos museus onde se encontram a maior parte destas velhas aeronaves.
Mas, com mais susto menos susto, em menos de duas horas estamos a aterrar no aeroporto de New Bedford na costa leste dos Estados Unidos.
Encontramo-nos na Nova Inglaterra região histórica do NE dos EUA berço da grande nação americana.
Foi aqui onde começou a Revolução que conduziu á independência da América em 1776.
Foi também aqui que desembarcaram no dia 21 de Dezembro de 1620 os mais famosos colonizadores da América, os Pilgrim Fathers do navio “Mayflower”.
Os pilgrins, (peregrinos) eram puritanos fanáticos e mesmo obcecados. Tinham fugido da opressão da igreja de Inglaterra mas vinham para estabelecer a sua própria tirania religiosa sobre a terra virgem de que tomavam posse.
A alegria fazia-lhes mal. O facto de rir ao domingo era um delito punido com prisão.
Com os Índios, os pilgrins foram atrozes. Os escalpes vermelhos eram postos a prémio de acordo com uma escala que estabelecia um valor de 100 dólares por uma cabeleira de guerreiro e de 10 dólares pela cabeleira de uma criança com menos de 10 anos.
Estávamos, pois, no coração histórico da América.
Metidos em dois táxis Dwight encaminha-nos para o motel onde ficaremos hospedados. O Whaler Motor Inn fica junto a uma das saídas da cidade e num desvio da autoestrada 140 que conduz a Fall River e Providence. Nestas duas cidades americanas vivem grandes comunidades de imigrantes portugueses à semelhança do que acontece em New Bedford, transformada numa autêntica cidade de vida e hábitos lusíadas.
New Bedford é tão lusitana que consigo encontrar numa livraria portuguesa um exemplar do meu livro sobre Sidónio Pais, escrito e publicado em 1983.
Desde que chegara à América tinha tido muitas surpresas e não falhava dia que não houvesse novidade. Mas a última coisa que esperava encontrar neste imenso País era um dos meus livros em exposição numa loja.
O dono da livraria, um imigrante madeirense, ao saber pelo falador John Alves que eu era o autor do livro, retirou-o logo da banca expositora e foi gentil ao ponto de me pedir uma dedicatória em seu nome.
Nesta pequena cidade americana sentimo-nos como em casa. Nas ruas quase só se ouve falar português. As placas toponímicas estão escritas na nossa língua e com nomes da nossa História. As fábricas que visitamos estão cheias de operários portugueses. A maioria são operárias têxteis que conversam animadamente com a Georgina Marques, também ela operária da mesma indústria.
Conhecemos boa gente nesta terra do Leste americano a cheirar a Portugal e com sabor a Açores e a Madeira.
De entre muitos e bons, vale a pena referir Frank Souza e John P. Ângelo. O primeiro, velho dirigente do Sindicato dos Maquinistas Norte-Americanos, para além de ser um homem de incomparável e espantosa amizade é quase pai da UGT portuguesa que lhe deve alguma da mais sincera solidariedade sindical que tem encontrado no exterior. Frank Souza é um homem da Califórnia onde trabalha há muitos anos e tem casa em New Bedford, que põe sempre â disposição de quem vem da UGT como sucedeu connosco. Não há ninguém vindo de Portugal em nome da UGT que o Frank não goste de receber numa das suas casas e que não saia delas com mais uma amizade.