CARTA DE LISBOA – Carta ao Tio Ricardo – por Pedro Godinho

lisboa

 

 

Tio,

Escrevo-lhe a pedido da Mãe que ficou com os achaques pelo desplante da empregada que, quando a Mãe lhe disse Menina, veja o que faz, se atreveu a responder-lhe e logo para dizer que não estava para aturar a Mãe e que se ia mas era embora que já não tínhamos onde cair mortos e era só o que lhe faltava trabalhar para nós sem receber.

A Mãe ficou fora de si com tamanha inconveniência, nunca uma pessoa das de baixo, quanto mais uMa simples empregadora,  ousara responder-lhe, para mais dizendo que não tínhamos posses, logo nós que sempre gastámos sem olhar a meios e a quem nada faltava e tudo era permitido.

A Micas ouviu quando a Mãe se me queixou que já não se encontram empregados como dantes, agradecidos, que agora não têm respeito nenhum e que não podíamos tolerar estas liberdades, se não os outros faziam a mesma coisa e não tarda nada não há quem obedeça, e que devíamos ter feito como o primo Becas e ter trazido umas filipinas para servir.

O que deixou mesmo a Micas assustada foi a ideia de que íamos passar a ter de fazer contas aos gastos e compras e ia ser uma grande vergonha o que as amigas – sobretudo aquelas convencidas e sem berço mas que os maridos terem feito fortuna já pensam que são do meio – iam pensar e, até, dizer pelas costas.

E desatou a chorar e a pedir-me que falasse com o Tio para o Tio garantir que, tal como sempre nos ajudou, não nos vai abandonar agora.  É que ela tem visto televisão, às escondidas da Mãe que diz sempre que isso é para criadas e chauffers.

Ouça, Tio, eu só quero poder tranquilizar a Micas e dizer-lhe que a nossa vida vai continuar na mesma e que nunca seremos pobres. O Tio sabe que eu o acho um génio financeiro, que até lê e percebe o Finantial Times e o Wall Street Journal e sabe tudo sobre banca e dinheiro e como mandar nos políticos e no país e conseguir que o governo faz o que o Tio diz que deve ser feito.

O Tio sabe que eu nunca o incomodei e estou para sempre agradecido pelo emprego que me arranjou lá no banco e em que nem sequer tenho de lá ir, senão de quando em quando para votar naquelas assembleias, e não é agora que vou começar a incomodá-lo mas confesso que até eu começo a ficar um pouco preocupado com o futuro.

Por isso pedia ao Tio só mais um favor, que me confirme que podemos estar descansados e posso dizer à Micas que não há razões para preocupações pois como veio nalguns jornais o Tio teve a inteligência de pôr o dinheiro da família a salvo num desses paraísos (que nome tão bem escolhido) fiscais.

Uma vez mais obrigado, Tio.  E já agora só mais uma pequena pergunta, este verão vamos poder ir como de costume para a Comporta?

Zézé

Resposta do Tio: O menino esteja mas é caladinho que ainda deita tudo a perder.

 

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