VAMOS BEBER UM CAFÉ? – 14 –  por José Brandão

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DO BOTEQUIM AO CAFÉ (PEQUENA HISTÓRIA DOS GRANDES CAFÉS DE LISBOA – cont.)

 

Lugares suspeitos.

 

O Nicola foi sempre visto como suspeito pelas autoridades policiais: era frequentado por republicanos e por alguns «profetas» que não hesitavam em emitir as suas opiniões políticas, ainda e sobretudo se fossem contrárias ao regime instalado. Este é o tempo de Bocage, de Câmara Coutinho e de Pato Moniz. E deste tempo o histórico episódio do poeta. Andava Bocage pelas ruas da capital quando, a altas horas da madrugada, é intercetado pela polícia e obrigado a responder às tradicionais perguntas de quem és, de onde vens e para onde vais. O poeta, num rasgo de inspiração, declama: «Eu sou o poeta Bocage/venho do Café Nicola/vou para o outro mundo/se disparas a pistola».

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O Nicola foi, durante muitos anos o único café de Lisboa. Mas, ao mesmo tempo que em 1929 voltava à sua atividade inicial, foi fundada a concorrência. O Marrare de Polimento, situado no Chiado. «Requintado e cosmopolita», dizem os entendidos, o novo café chegou para ficar. Igualmente local de tertúlias, o Chiado era o local onde Alexandre Herculano e Castilho impressionavam com as suas qualidades de maledicência.

Sobre o Marrare de Polimento Júlio Castilho escreveu que «é para Lisboa uma espécie de monumento histórico que ela suporta, porque o hábito lho tornou necessário. E o «rendez-vous» dos janotas, dos jornalistas, dos párias e dos homens de letras e pensadores: é um sítio onde nem todos têm o direito de entrar, apesar de ser público». Esse direito adquire-se. O Marrare de Polimento era um daqueles locais onde só os homens fora do comum podiam entrar. Estes «são os homens de talento, os janotas, os ociosos puros, e todos os excetuados da sociedade constituída, que descobriram modo de gastar dinheiro, ir ao teatro sem comprar bilhete, ter fato sem pagar, andar de sege sem saber a conta».

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Um pouco antes nascera a Brasileira, ou melhor, a Brazileira, na sua versão original. Foi fundada em 1905, a 19 de Novembro. Era uma casa que encarregava, essencialmente da venda de Café do Brasil, torrado e moído em Minas Gerais. Três anos depois, em 1908, a Brasileira começou a vender café à chávena, e com esta inovação aconteceram inúmeras transformações no seu interior. Acabara de nascer um estabelecimento elegante, estilo renascentista, com talhas douradas e longos espelhos distribuídos pelas paredes. Almada Negreiros, Eduardo Viana, José Pacheco, António Soares, Jorge Barradas e Stuart Carvalhais. Esta é a geração de pintores da «nova escola» que em 1925 fixaram poiso na Brasileira.

Depois de muitos anos de glória a Brasileira caiu em desgraça. Nos anos 50 e 60, foram muitos as vezes em que o estabelecimento esteve para fechar. Chegou mesmo a estar em leilão público. E que, nessa altura já não era rentável. Acontece que porém, depois de alguns leilões e de umas tantas tentativas, lá se encontrou a fórmula mágica: «um balcão instalado à direita e várias vezes acrescentado retirou ao café quase metade do espaço por onde estavam distribuídas as mesas. Na cave, foi instalada uma zona de restaurante». Afinal era só uma questão de rentabilizar os espaços.

Mas, infelizmente, muito do que hoje se conta é só história. A lógica da rentabilidade parece ter-se instala do em todas as atividades. Quando um negócio não é rentável, fecha-se. Foi assim que aconteceu com a larga maioria destes estabelecimentos, como se não houvesse um passado a honrar e uma memória para reanimar. Em 1958, no Café Chave d’Ouro decorreu a campanha de Humberto Delgado e, dizem que por isso, o seu encerramento teve uma «mãozinha política». O espaço que foi ocupado por um salão de bilhares, por um salão de chá, um restaurante, uma barbearia e uma tabacaria, e agência de uma instituição bancária.

Depois foi a Brasileira, a do Rossio. Em 1960. De seguida fecharam a Leitaria O Paço, o Portugal e o Gelo. Este último tinha sido palco de incidentes graves em Maio de 1962, e, depois de uma visita da PIDE, os seus gerentes foram convidados a evitar determinados clientes.

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