CONTOS & CRÓNICAS – IMPRESSÕES DE UMA VIAGEM AOS ESTADOS UNIDOS EM 1986 – 12 – por José Brandão

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John P. Ângelo, tal como Frank Souza, é um velho residente na América que já conta com muitos anos de trabalho neste país. Ambos amam esta terra sem nunca deixarem de chorar pela outra que não lhes deu o pão e os obrigou a partir.

John Ângelo é um daqueles milhões homens que ainda não esqueceu a puta de vida da aldeia que o viu crescer mas que já perdoou ao País que adora, e que há de morrer como nasceu: Português.

Ângelo está ligado ao Congresso dos Estados Unidos onde desempenha funções de relevo para o distrito que representa.

Comi bom marisco com estes amigos de New Bedford. Soube-me bem e atafulhei o bandulho até ao limite do pré-rebentamento. Nunca me passou pelo estreito tanta variedade (e muito menos quantidade) dos tão apreciáveis “bichos”. Camarão, lagosta, lagostim, caranguejo, etc. foi um verdadeiro manjar de crustáceos e de moluscos colocado ao dispor da nossa gula.

Em suma, não há nada em New Bedford que não me faça ter saudades dos dias que lá passei.

Recordo apenas bons bocados porque maus não houve.

Foi interessante participar no piquete de greve numa fábrica nos arredores da cidade. Nos Estados Unidos os piquetes de greve à porta das empresas estão autorizados mas não podem ser muito numerosos e, sobretudo, não devem impedir de trabalhar os não grevistas. As greves americanas oferecem o espetáculo de ver sindicalistas empunhando cartazes e a andarem às voltas em redor dos portões já que não lhes é permitido parar para o que quer que seja.

*

Ainda em New Bedford, tive oportunidade de testemunhar o extraordinário pragmatismo da sociedade norte-americana.

Aconteceu que uma cadeia local de televisão destinada à comunidade portuguesa entendeu fazer-nos umas pequenas entrevistas que cada um de nós tratou de desenvolver o melhor possível.

Como manda a praxe e a boa educação, os depoimentos iam correndo ao sabor da mais benévola simpatia e no meio dos melhores afetos para com o país anfitrião.

Tal qual um artista de telenovela brasileira quando está de visita a Portugal, eu parecia condenado a ter de dizer que me encontrava radiante por estar pela primeira vez neste grande país e quanto amava este adorável povo, tão hospitaleiro, tão generoso e tão tanta coisa boa e do melhor.

Como era o último a ser entrevistado, tive tempo para pensar bem no que ia dizer á televisão local e pus-me a matutar numa ideia diferente que desse para animar a festa e não fosse uma repetição daquilo que já tinha sido dito pelos meus companheiros de viagem.

Dei então comigo a fazer cometários à política social do Governo americano e a tirar analogias com o que se passava em Portugal na mesma matéria. Situei a crise de emprego dos trabalhadores do país de Ronald Reagan ao mesmo nível da preocupação existente entre os trabalhadores portugueses sob a governação de Cavaco Silva e dei a entender que, entre o presidente americano e o primeiro-ministro português, o Diabo que escolhesse.

Devo dizer que nunca me passou pela cabeça que os americanos se preocupassem em cortar o que quer que fosse ao que eu tinha declarado. Tinha como certo que na América até os maiores disparates cabem no pequeno écran da enorme liberdade deste Povo.

O que eu jamais poderia esperar, era que passado poucas horas de serem transmitidas na televisão local as notícias sobre os visitantes sindicalistas, viesse à minha procura uma cadeia nacional da televisão americana para que eu novamente dissesse aquilo que tinha dito na rede local.

E não só!

O entrevistador dizia ao intérprete para eu ir mais longe na contundência das observações que tinha feito anteriormente.

Chiça!… Que estes Americanos são mesmo masoquistas!

A propósito de masoquismo e de sadismo, passou-se uma cena que me deixou literalmente sem respiração durante alguns infindáveis segundos.

O Dwight Justice, sempre empenhado em que a nossa estadia decorresse da melhor maneira, convidou-me para dar um salto até à cidade de Providence, situada a uma distância que a autoestrada 140 reduz a menos de uma hora e que fica a uns 400 quilómetros da fronteira com o Canadá.

Fui com o Dwight conhecer mais esta cidade da América e visitar uma família que marcou a formação política deste jovem sindicalista da AFL-CIO.

Quando vínhamos de regresso a New Bedford, o Dwight lembrou-se de parar num bar tipicamente americano situado á beira duma estrada de aldeia e convidar-me a beber qualquer coisa fresca que bem falta estava a fazer.

O bar era a América pura com homens e mulheres dançando country music e vestindo á maneira do cinema.

Foi então que paguei caro o atrevimento de ter saído de New Bedford sem ser acompanhado do intérprete John Alves.

Cerveja sei bem que é beer… Agora a especialidade regional que o Dwight me convidou a comer?! Sabia lá como é que se pronunciava em inglês e o que estava ele a tentar dizer-me quando eu alegremente despejava o frasco do picante na especialidade!

Só sei que à primeira dentada fiquei com a boca arder como um dragão chinês e que os meus ouvidos zuniam mais que um cortiço carregado de abelhas.

Foi uma aflição que ainda hoje quando estou mal com alguém só me dá vontade de a pôr a comer a inesquecível especialidade do Dwight Justice.

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