CONTOS & CRÓNICAS – A chave esquecida – (“rés-vés Campo de Ourique”) – por Joaquim Palminha Silva

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            Pela roupa que trajava e forma como se vestia, nunca deveria ter sido rico. Os sapatos, de excelente manufactura portuguesa (S. João da Madeira?), já tinham levado meias solas. Poderíamos reencontrar na sua aparência a mistura estranha de apuro e negligência que tanto impressiona ver nos dias que correm, sobretudo aos desempregados de meia-idade, com a amargura já fossilizada no rosto e um interior d’alma modesto, típico da “pobreza envergonhada”.

            Embora este aspecto tenha pouca incidência na sequência dos acontecimentos, não quero fugir ao tradicionalismo narrativo, que manda escrever um pouco sobre a meteorologia do momento. Eis, pois, uma resenha sobre o tempo que fazia: o céu excepcionalmente limpo, naquele mês de Novembro, deixava ver a Lua e tudo o mais de estrelas, enquanto uma leve brisa gelada, própria para ornamento de funerais, fustigava os raros transeuntes daquele bairro de Lisboa.

            Nunca percebeu o que o levou até à Rua do Sacramento à Lapa, e não a outra artéria da cidade… Tez pálida e grandes olheiras, não tinha dinheiro e não comera durante todo o dia. Os seus 55 anos arrastavam-se com todos os bafios da vida à flor da pele. Aquela situação já durava há muito meses. Pouco a pouco, desde que fora despedido, sentia que o seu ser se desintegrava, todos os dias um pouco mais. Primeiro, a mulher deixara-o sem dó nem piedade (ou fora ele que lhe pedira para se ir embora?). Não vale a pena recordar os pretextos palavrosos, deixara-o porque não havia dinheiro. Depois, teve de abandonar a casa, vender a mobília ao desbarato, e ir viver para um quarto, num prédio arruinado na Estefânia, cheio de gatos por todos os lados. Aquilo que lhe restava da vida real, tinha um nome: indigência!

            A Rua do Sacramento à Lapa era então uma artéria onde as moradias de gente rica, os “prédios com porteira”, bem como todas as mansões e estabelecimentos comerciais transpiravam uma atmosfera que anulava imediatamente qualquer ideia de miséria e fracasso.

Alfredo espantou-se frente a uma esplendorosa mansão: tinha a chave esquecida na fechadura da porta! Pensou: «Por exemplo!.. Não vais gaguejar agora, pois não?! A chave vinha na minha direcção, não fui eu que vim para a Lapa, “rés-vés Campo de Ourique”, na mira de encontrar uma chave esquecida! A chave desta fechadura é que se atravessou na minha frente!». Não tinha o mínimo desejo de iniciar a comparação, “a ocasião faz o ladrão!”. Tanto mais que não entendia muito bem de que ocasião se poderia vangloriar, no seio da sua calamitosa existência. Disse de si para si: «Eu poderia entrar sem ninguém me ver!» O desespero segredava-lhe coisas ao ouvido… De novo, olhou a chave na fechadura da porta. Tinha um ar amigo, acolhedor. Dir-se-ia que a porta, a chave, a fechadura (sabe-se lá!), tinham alguma coisa de peito humano, sobre o qual poderia esconder a face e, nas suas ombreiras, deixar que lhe rolassem cara abaixo copiosas lágrimas de desamparo. Coisa estranha esta comparação! Toda a capacidade de reflexão e realismo parecia aniquilada pela fome e desespero que, assim, deixavam o seu vazio preencher-se aos poucos pelas alucinações. Alfredo nunca tinha entrado em casa de alguém sem que houvesse sido convidado.

Não se sabe quanto tempo ficou ali, a meditar sobre a chave esquecida na fechadura da porta da mansão. Por fim decidiu-se. Olhou em redor, subiu os dois degraus da entrada, esticou o braço, estendeu a mão, agarrou a cabeça da chave e deu-lhe volta mansamente, sem ruído.

Entrou na penumbra interior do vestíbulo. Avançou a medo, às apalpadelas, pois vinha encandeado pela luz da rua. Abriu a porta da frente e viu que estava na sala de estar. Avistou o corredor e, ao fundo, a denunciar a presença da cozinha, o frigorífico. O barulho insistente da fome, pedia-lhe que fosse, a correr, abrir-lhe a porta. Abriu-o e encontrou um belo pedaço de queijo flamengo. Procurou o pão. Passados poucos minutos já trincava o seu “pão com queijo”, bebendo leite gelado. Depois, comeu uma maçã, sempre atento aos ruídos da casa. Voltou à sala de estar e sentou-se num confortável sofá de couro. De vontade amolecida e dominado pelo cansaço, pensou em ir-se embora, dado que já matara a fome… Porém, adormeceu profundamente…

Quando a luz da manhã já inundava a sala de estar, despertou de muito longe, ao ouvir uma voz fina e acariciadora que lhe perguntava, repleta de tranquilidade:

«– Então já acordaste? Como é o teu nome? Alfredo?».

À sua frente, examinando-o com tranquila gravidade, estava uma menina de grandes olhos azuis, redondos, duas tranças loiras caídas sobre os ombros e um vestido de veludo vermelho, em contraste com os sapatinhos pretos, de verniz. A menina não parecia efectivamente real, pensou surpreendido Alfredo que, já arrependido, imaginava como poderia ter evitado a trapalhada que se anunciava. O pânico deixou-o colado ao sofá! Como sabia a criança o seu nome?

A menina explicou-lhe que nada havia a temer. O pai dissera-lhe que se um dia um estranho entrasse em casa deveria chamar-se Alfredo. Acrescentou: «Todos os estranhos são Alfredo!». A menina, que deveria ter uns 12 ou 13 anos, disse chamar-se Alice. Alfredo olhou em volta e viu uma mesa rolante carregada de pratinhos com doce, pão com manteiga, ovos cozidos e um prato fundo com papas fumegantes cheirando a aveia. Alice apontou-lhe a casa de banho para ir lavar a cara e as mãos e, com o ar de um boneco de banda desenhada, disse-lhe olhando a mesa rolante:

«-É o nosso pequeno-almoço. O meu, o da minha irmã Angélica, da Maria Antónia e do pequeno Zé-Zé.». «-Tanta gente! E já estão acordados?». Perguntou Alfredo que, consciente de que até ali havia sido raramente bem-sucedido, pretendia breve sair daquele absurdo para o meio da rua. Alice sacudiu a cabeça com graça:

«-Tudo a dormir. Eu é que acordo mais cedo e venho logo buscar os pequenos-almoços.».

Precisou de profunda reflexão para compreender, nesse mesmo dia e nos seguintes (nunca saberemos), que a sensibilidade insistente dos seus sentidos despertos, após longa hibernação, era atraída pela chave na fechadura da porta…

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«-Alice, tu vais fazer-me um favor. Não digas a ninguém que eu estive aqui. Nem mesmo ao teu papá nem à tua mamã. Está bem?». Os grandes olhos de Alice consideraram-no melhor. «– Está bem.». Estranhamente emocionado, Alfredo levantou-se do sofá: «-Agora, tenho de partir.».

Alice: «-Para onde vais?». Alfredo: «-Não sei … Para qualquer lado.».

Os olhos de Alice ficaram maiores. Talvez mais circunspectos.

«-Tu és um homem falhado, como diz o papá?». Alfredo sorriu, como já não o fazia há muito tempo. Respondeu-lhe atrofiado, com um nó na garganta:

«-Não, Alice! Não é bem isso. O que eu penso é que as pessoas não me querem conhecer. Não têm vagar para mim. Descobriram que não sou interessante na Repartição e que nunca mais terei dinheiro! Nunca poderei esperar nada desta gente nesta terra, dado o estado de ruína de tudo e de todos. Por isso, estou desgostoso. Desempregado e desgostoso.». Alice: «-Não és casado nem nada?». Alfredo: «-Não. Deixei de o ser…». Alice: «- Mas não és muito velho…». Alfredo: «-Não. Tenho 55 anos. Podia ser teu avô.». Alice: «-Podia… Mas não és! … Eu acho que tu devias arranjar uma mulher!». Bastante perturbado, Alfredo sorriu e acariciou muito levemente a cabeça de Alice. A menina olhou-o nos olhos: «-Porque é que vieste aqui?». Alfredo: «-Porque estava cansado, tinha fome e não sabia onde dormir. A propósito, tu sabias que a chave estava esquecida na fechadura da porta?».

Alice: «-Claro que sabia. O pai deixa-a lá sempre. Assim, escusamos de ter muitas chaves e andar sempre a esquecê-las. Depois, o papá diz que não temos nada a perder, na casa só há livros além dos móveis. Portanto, não há que ter medo de ladrões.». Alfredo ia a falar com mais sentimento, mas mudou de ideias. Sorriu e declarou: «-O teu papá tem razão… Gostas muito dele, não gostas?». Alice: «-Oh, sim! Gosto muito do papá e da mamã. Mas são tão preguiçosos! Não querem levantar-se cedo para o pequeno-almoço. Por isso deixam a mesa posta na véspera e nós arranjamo-nos sozinhos.». E continuou a falar, comentando os defeitos dos adultos preguiçosos e do trabalho que dão às crianças.

Alfredo saiu sem fazer ruído. Olhou para trás e viu, colado à janela, o rosto gracioso de Alice, com as suas tranças doiradas. Alfredo acenou-lhe um terno adeus. Sentiu-se mais animado, apesar de nada se ter modificado na sua vida.

Sem saber como, cerca de meia-noite encontrou-se outra vez na Rua do Sacramento à Lapa, frente à mansão onde vivia Alice. Durante o dia as coisas melhoraram. Arranjou trabalho como revisor de livros numa editora sediada na Avenida Infante Santo. Podia perfeitamente ter ido para casa. Mas não. Ei-lo a subir os dois degraus, a dar volta à chave, depois outra vez no vestíbulo e na sala de estar. Afundou-se no sofá e adormeceu.

«-Olá! Está um lindo dia!». Era Alice. «-Sabia que tu vinhas…». Alfredo: «-Sim?». Alice: «-Sabia porque tu olhaste para trás quando saíste. As pessoas fazem quase sempre assim quando tencionam voltar.». Alfredo: «-És uma filósofa, sabes? Os teus irmãos são como tu?». Alice: «-Nem penses! O pior de todo é o Zé-Zé, ainda é quase bebé.». Alfredo: «-Qual é a profissão do teu pai.». Alice: «-O meu pai é escritor. Escreve livros a contar as vidas das pessoas. O meu pai diz que a única coisa interessante no mundo são as pessoas e a Natureza. Tu achas que sim?». Alfredo: «-Não sei, Alice. Conheço poucas pessoas…». Os olhos de Alice cresceram. Os olhos de Alice cresciam sempre, de cada vez que era surpreendida por palavras ou acções.

«-Mas tu tens 55 anos! Deves ter encontrado já muitas pessoas.». Alfredo: «-Sabes, Alice, devo ter encontrado, sim, mas não as conheci de verdade! Não me deixaram entrar nas suas vidas… Deve ser por isso que as coisas não me têm corrido bem. Nunca conheci ninguém mesmo a sério, e também nunca pessoa alguma me deixou que a conhecesse de verdade!». A pequena aproximou-se mais de Alfredo.

«-Mas o que é que tens? Estás a chorar, Alfredo! Porque andas triste? Não gostas de mim?». Alfredo: «-Oh! Não! Gosto de ti. Gosto muito de ti!». Num gesto automático beijou as mãos de Alice!

Era tempo de partir. De novo deveria deixar a casa. Não devia voltar. O diálogo com Alice, nos tempos negros que corriam, podia causar-lhe embaraços. Como poderia explicar o caso da chave abandonada de propósito na fechadura da porta? Não sabia explicar aquela atracção. Talvez a chave? Na Rua do Sacramento à Lapa, ninguém manifestava a menor ponta de curiosidade. Quando o olhavam era com olhos piedosos de comiseração, como quem diz “Coitadinho!”. O mais difícil não seria contar esta história. O mais difícil seria acreditar que havia entrado e saído uma dúzia de vezes sem ser visto.

Numa daquelas noites, perguntou-lhe: «-Diz-me, Alice, sempre deixaram a chave na fechadura?». Alice: «– Sim! Desde que eu nasci!».

Alfredo apercebeu-se que Alice era diferente das outras raparigas da sua idade. Emanava dela uma franqueza absoluta, uma bondade tão intensa que a sua força fazia-o sentir-se confiante. Na presença da garota era incapaz de mentir e de ter um mau pensamento. Foi assim que pouco a pouco a vida se modificou, encontrando mesmo uma habitação condigna. Foi assim, também, que chegou ao fim a aventura. Naquele dia, pela manhã, quando Alice o acordou, sentiu uma grande tristeza: «-Vou-me embora, querida Alice!». Não podia mais voltar, explicou-lhe. Alice: «-Então porque é que vieste aqui todo este tempo?» Alfredo: «-Vim aqui porque tinha fome e pensava roubar alguma comida. Afinal não passo de um ladrão vulgar.» Alice: «-Não. Não acredito, os ladrões vulgares não voltam ao lugar do crime, e não são faladores com meninas como eu!». E com maior profundidade: «-Alfredo, é uma pena que não possa tomar conta de ti!».

Eram horas de partir para sempre. Desceu os degraus, alcançou a rua. Olhou para trás. Alice estava de cara colada ao vidro da janela, com os olhos rasos de água, parecia um quadro renascentista. A menina tinha um ar grave e cheio de compreensiva ternura, mas era magoado o seu olhar. Alfredo sentiu os olhos marejados de lágrimas. Pela última vez, agitou a mão num adeus.

…Passaram dez anos. Alfredo tinha 65 anos de idade e estava definitivamente reformado. Até ao presente, ninguém conhecia a sua história da Rua do Sacramento à Lapa. A sua vida era toda previsível, ordeira. Que haverá de mais aterrador, destruidor que a ordem para o espírito curioso, para a alma sempre em busca de laços?

Alfredo voltou à Rua do Sacramento à Lapa. A mansão da chave na fechadura lá estava! Lá estava, velha de muitas décadas, abandonada! Alfredo iniciou um inquérito junto da vizinhança… Não! Ninguém conheceu a família que Alfredo mencionava. As informações tornaram-se mais exactas: na época em que Alfredo visitava Alice, já a casa estava abandonada! Parece que a mansão fora objecto de roubo seguido de incêndio, provocando a morte das crianças e seus pais, apagando as impressões digitais dos criminosos. Dias depois, Alfredo esteve com um comerciante local de uma loja de vinhos, licores regionais e latas de conservas de todas as marcas nacionais. Fora este o único a fornecer-lhe indicações preciosas e insólitas. Mas ao preço de enorme amargura!

            Na altura em que supostamente frequentou a casa, esta já era uma ruína e todos os seus habitantes estavam mortos. Alfredo pode afirmar, se assim o entender, que as suas visitas não tiveram qualquer resultado senão o de lhe retirar o fracasso em que vivia, através de uma emboscada para a possível felicidade terrena… Lendo os jornais da época, aparvalhado, descobriu que a criança mais velha da família, uma menina de 13 anos, se chamava Alice!

 

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