Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
O desastre Italiano
Perry Anderson, The Italian Disaster*,
London Review of Books, Volume 36, Nº 10, 22 de Maio de 2014
Parte I
A Europa está doente. Qual a profundidade da doença e quais as razões da doença são questões nem sempre fáceis de responder, são perguntas que nem sempre são de fácil resposta. Mas entre os diversos sintomas três deles são conspícuos e inter-relacionados. O primeiro e mais familiar, é a degenerativa deriva da democracia em todo o continente europeu, de que a estrutura da UE é ao mesmo tempo a sua causa e a sua consequência. O elenco oligárquico das suas disposições constitucionais, uma vez concebidas como um patamar provisório para uma soberania popular de escala supranacional a alcançar tem-se, ao longo do tempo, firmemente endurecido. Os referendos não são regularmente autorizados, se eles se cruzam contra a vontade dos governantes. Os eleitores cujas opiniões são desprezadas pelas elites que evitam as assembleias nacionais que nominalmente representam, levam a que os dirigentes em exercício caiam a cada eleição que se faça . Os burocratas que nunca foram eleitos policiam os orçamentos dos parlamentos nacionais sem que mesmo se tenha dado nenhuma transferência de poderes. Mas a União não é uma excrescência dos Estados-Membros o que, de outra maneira, até poderia ser saudável. Isso reflecte, tanto quanto se aprofunda, as tendências de longo prazo que a mesma contém. A nível nacional, praticamente em todos os lugares, os executivos procuram domesticar ou manipular as legislaturas cada vez com mais facilidade; os partidos perdem sucessivamente militantes; os eleitores perdem a crença de que eles contam para alguma coisa, da mesma forma que as opções políticas se reduzem cada vez mais e as promessas de diferenças diminuem ou desaparecem nas assembleias legislativas ou nos gabinetes ministeriais.
Com esta generalizada regressão social e política veio uma corrupção generalizada da classe política, um tópico em que a ciência política, suficiente faladora sobre o que na linguagem da ética se chama défice democrático da União, fica normalmente silenciosa. Para estas formas de corrupção… ainda tem que se encontrar uma sistemática taxonomia. Há uma corrupção pré-eleitoral: o financiamento de pessoas ou de partidos a partir de fontes ilegais – ou legais – contra a promessa, expressa ou tácita, de favores futuros. Há uma corrupção pós-eleitoral: o uso do poder para obter dinheiro por desvio de rendimentos, ou luvas sobre contratos. Há também a compra de pessoas ou de votos nas assembleias. Há o simples roubo do erário público. Há a manipulação sobre credenciais para ganhos políticos. Há enriquecimento por abuso de cargos políticos, mesmo após a saída do cargo , bem como durante ou antes de o ocupar. O panorama desta corrupção a é impressionante. Para se apresentar um fresco do que se acaba de afirmar poderíamos começar com Helmut Kohl[1], líder da Alemanha durante dezasseis anos, que acumulou na altura qualquer coisa como 2 milhões de Marcos em fundos secretos vindos de dadores ilegais cujos nomes, uma vez que o tema foi conhecido, Kohl se recusou a revelar por medo que as benesses que tinha recebido viessem à luz do dia.. Do outro lado do Reno, Jacques Chirac, presidente da República francesa, cargo ocupado durante doze anos, foi condenado por desvio de fundos públicos, abuso de poder e conflitos de interesses, uma vez que a sua imunidade chegou ao fim. Também não sofreu qualquer penalização. Estes foram os dois políticos mais poderosos de seu tempo na Europa. Um olhar sobre a cena desde então é suficiente para dissipar qualquer ilusão de que eles eram, como corruptos, eram uma excepção.
Na Alemanha, o governo de Gerhard garantiu um empréstimo de mil milhões de euros à Gazprom para a construção de um gasoduto no Báltico, a poucas semanas de abandonar o seu cargo de Chanceler e aparecendo depois na folha de pagamento da Gazprom com um salário maior do que aquele que recebia quando governava o país. Desde a saída de Schroeder, Angela Merkel já viu dois presidentes da República em demissão forçada, renunciando ao cargo, sob o seu reinado: Horst Köhler, um antigo Director-geral do FMI, saiu por ter explicado que o contingente da Bundeswehr no Afeganistão estava lá para proteger os interesses comerciais alemães; e Christian Wulff, da democracia-cristã e antigo chefe na Baixa Saxónia, saiu por causa de um empréstimo questionável para a sua casa que lhe concedido por um homem de negócios seu amigo. Dois dos ministros principais, um da Defesa, o outro da Educação, tiveram que abandonar o governo quando lhes foram retirados os seus graus de doutoramento – uma credencial importante para uma carreira política na República Federal – por plágio intelectual. Quando o último, Annette Schavan, uma íntima de Merkel (que expressou nela plena confiança), tentou , ainda, agarrar-se ao poder, o Bild-Zeitun sublinhou que ter como seu ministro da educação alguém que falsificou a sua investigação é equivalente a ter como ter como ministro das finanças alguém com uma conta secreta na Suíça.
Se mais cedo fosse dito, mais cedo seria visto! Em França, o ministro socialista para o orçamento, o cirurgião plástico Jérôme Cahuzac, cujo processo era o de confirmar a sua honestidade em termos de impostos e em termos de capitais próprios, descobriu-se ter algures entre 600.000 € e € 15 milhões em depósitos ocultos na Suíça e em Singapura. Enquanto isso, Nicolas Sarkozy, é acusado por convergentes testemunhas de receber uns US $ 20 milhões de Kaddafi para a sua campanha eleitoral, a que o levou à Presidência. Christine Lagarde, que foi, sob a presidência Sarkozy, a responsável pela pasta das Finanças e que agora dirige o FMI, está sob interrogatório pelo seu papel no prémio de € 420 milhões em ‘compensação’ para Bernard Tapie, um bem conhecido bandido com um registo de prisão, ultimamente um amigo de Sarkozy. A situação de desagradável proximidade face ao crime é pois bi-partidária. François Hollande, actual presidente da República, escondeu-se , para encontros com a sua amante no apartamento de uma “amiga” de um gangster Corso, morto durante um tiroteio na ilha no ano passado.
Na Grã-Bretanha, e quase que ao mesmo tempo, o ex-primeiro ministro Blair foi conselheiro de Rebekah Brooks, que corre risco de prisão por cinco acusações de conspiração criminosa (‘Keep strong and definitely sleeping pills. It will pass. Tough up’) e instando-a a ‘publicar um relatório ao estilo de Hutton’, como ele próprio tinha feito para limpar qualquer ideia de responsabilidade da sua administração na morte de um forte crítico da guerra no Iraque: uma invasão da qual se quis depois limpar – naturalmente, para a sua Faith Foundation – com um conjunto de astúcias e negócios à volta do mundo e nestes é de sublinhar o dinheiro pago por uma companhia petrolífera da Coreia do Sul, dirigida por um criminoso já condenado e com interesses no Iraque e na dinastia feudal do Kweith .
Que recompensa ele poderá ter ganho ainda mais a leste pelos profusos conselhos à ditadura Nasarbajev está ainda por se saber (‘Kazakhstan’s achievements are wonderful. However, Mr President, you outlined new heights in your message to the nation.’ Ad litteram). Em casa, por uma troca de favores, sobre o que ele mentiu sem escrúpulos no Parlamento, as suas mãos foram untadas com £ 1 milhão para os cofres do partido, vindos do dono da F1, o magnata Bernie Ecclestone, actualmente sob acusação na Baviera por subornos no montante de € 33 milhões. Na cultura do New Labour, as figuras proeminentes no círculo de Blair, ministros de um dia – Byers, Hoon, Hewitt – podem eles próprios estar disponíveis para venda no próximo governo. Nestes mesmos anos, com ambos os partidos indiscriminadamente, a Câmara dos Comuns foi exposta como sendo um antro em que se verificaram muitos desvios de dinheiro dos contribuintes
Na Irlanda, enquanto isso, o líder do Fianna Fáil, Bertie Ahern, tendo canalizado mais de 400.000 € em inexplicáveis pagamentos antes de se tornar o chefe do governo, taioseach, votou para ele próprio o salário mais alto de qualquer primeiro- ministro na Europa – €310.000, mesmo mais que o Presidente dos Estados Unidos – um ano antes de ter que abandonar o cargo por descrédito por toda esta sua desonestidade[2].
Em Espanha, o primeiro-ministro, Mariano Rajoy, dirigindo um governo de direita, foi apanhado em flagrante no recebimento de luvas da construção e de outros negócios totalizando 250 mil euros em mais de uma década, que lhe foram passados por Luis Bárcenas. Tesoureiro do seu partido desde há vinte anos, Bárcenas está agora preso por acumular um tesouro de € 48 milhões em contas não declaradas na Suíça. Os livros de contabilidade manuscritos, detalhavam as suas transferências a Rajoy e a outros notáveis do Partido Popular – incluindo Rodrigo Rato, outro antigo-director geral do FMI – tem apresentado em fac-símile abundantes dados na imprensa espanhola. Uma vez que o escândalo se tornou conhecido, Rajoy mandou a Bárcenas uma mensagem em termos praticamente idênticos aos da que Blair enviou a Brooks: “Luis, eu entendo. Mantenha-se firme. Eu telefono-te amanhã. Um abraço.” Com uma insolente audácia face a este escândalo em que 85 por cento do público espanhol acredita que ele está a mentir, Rajoy está firmemente sentado no Palácio da Moncloa.
(continua)
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[1] Nota de tradução. Não sei se já se tornou público o filme Le Système Octogon, de Jean-Michel Meurisse, sobre a corrupção no reino do chanceler Khol. Um filme, segundo as conversas que tive com Jean-Milchel Meurisse, que é um verdadeiro espanto. Como nota e à margem agora do filme, acrescente-se: « Le marchand d’armes germano-canadien Karlheinz Schreiber était accusé d’avoir fait des dons non déclarés de 511 000 euros à la CDU et de 51 000 euros à Wolfgang Schaüble, alors président du parti. » Jornal La Croix, com o título Helmut Kohl, une image ternie après l’affaire des «caisses noires». Curiosamente, Wolfgang Schaüble, um nome que os pobres europeus conhecem bem !
[2] Nota de Tradução. Cai em Abril de 2008, em plena situação de crise.
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*Ver o original em:
http://www.lrb.co.uk/v36/n10/perry-anderson/the-italian-disaster



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