CONTRA A AUSTERIDADE, AO ESTILO FRANCÊS, por JOHN CASSIDY

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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Contra a austeridade, ao estilo francês

JOHN CASSIDY, Objecting to Austerity, French Style,

New Yorker, 26 de Agosto de 2014

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Francois Hollande, right, and Arnaud Montebourg, left, in Paris last month.
CREDITPHOTOGRAPH BY BERTRAND GUAY / AFP / GETTY

 

Agindo no princípio de que  bater  com a cabeça contra uma parede de tijolos não é uma coisa verdadeiramente produtiva, desde há algum  tempo que deixei de escrever sobre a profunda austeridade na Europa. Mas agora que o governo socialista da França está a implodir, com o Ministro da economia de partida a avisar que a União Europeia está a “descer aos infernos “, talvez seja tempo para mais alguns comentários.

Arnaud Montebourg, o Ministro da economia francês,  sem quaisquer  rodeios  pediu a demissão na terça-feira e foi acompanhado à saída da porta por dois dos seus colegas: Benoît Hamon (educação) e Aurélie Filippetti (cultura). De acordo com os relatos na imprensa francesa, o primeiro-ministro Manuel Valls forçou os três a sair porque estes se opuseram às políticas que Valls tem vindo a seguir desde que o presidente François Hollande o nomeou, em Março. Hollande imediatamente solicitou a Valls que formasse um novo governo, um governo “consistente com a direcção” que ele estabeleceu para o país.

Este é apenas a mais recente debacle política para Hollande, que, desde que foi eleito, em maio de 2012, se tornou o Inspector Clouseau da política francesa. No início deste ano, a sua taxa de popularidade caiu para os pouco mais de uma dezena de pontos e o seu partido socialista sofreu grandes perdas nas eleições municipais. Depois deste revés, Hollande incumbiu Valls de fazer com que a economia de França se tornasse mais  competitiva e mais apetecível para os criadores de empregos como , por exemplo, tornando mais fácil os cortes salários e os despedimentos durante a recessão.

De longe, seria muito fácil retratar a demissão forçada na terça-feira como uma purga  de um grupo de esquerdistas que tinha resistido à aplicação das reformas, esta sim em atraso, purga do governo esta  que já deveria ser sido  aplicada muito tempo antes.  Entre os economistas, há um acordo geral que as leis restritivas do trabalho em França, foram feitas para proteger os trabalhadores, mas que acabaram por desincentivar a contratação e o investimento. A taxa de desemprego na França é de mais de dez por cento; entre os trabalhadores jovens, é de  mais de vinte por cento. Tais dados tornam difícil ignorar a comparação com a Grã-Bretanha, onde a contratação e o despedimento são muito mais fáceis e crescimento do emprego tem sido relativamente forte .

Mas aquilo a que Montebourg e os seus colegas se opuseram não era contra a reforma do mercado de trabalho. Se eles não estão exactamente contentes com elas, o certo é que eles não alteraram o seu comportamento para as tentar bloquear. Na verdade, foi sim a austeridade como política da França e, mais especialmente, a sua variedade alemã, o que os dissidentes do governo francês se recusaram a aceitar.

O défice da França é de cerca de quatro por cento do PIB: Numa economia com muita folga isso não é um valor alarmante, mas é maior do que o valor permitido pelas regras da União Europeia, e provocou a ira dos falcões do orçamento da Alemanha. A fim de reduzir o défice, Hollande comprometeu-se a apresentar uma série de cortes no orçamento nos próximos três anos. Estes cortes, que são de cerca de 50 mil milhões de euros, não são em si muito consequentes para uma economia de cerca de 2 milhões de milhões de euros de dívida pública. Mas no contexto de uma austeridade que percorre todo o continente, imposta pela Alemanha, estas medidas modestas bem poderiam levar a economia francesa a vários anos de estagnação. Desde 2008, a economia francesa praticamente não cresceu. Nos primeiros seis meses deste ano, o PIB estava ao nível de igual período anterior, ou seja, de crescimento zero. . O FMI reconhece que o crescimento subirá para 1,4 por cento em 2015, mas isso pode ser apenas um agradável desejo. Mesmo se não assim for, 1,4 por cento é uma taxa muito lamentável como taxa de crescimento.

O infeliz Hollande provavelmente não discorda desta caracterização. Nas últimas semanas, tem estado silenciosamente a pressionar o governo alemão para que este  mude  de rumo e  permita  uma flexibilização das políticas de austeridade em toda a zona Euro. Uma tal mudança, se efectiva, daria uma muito necessária impulsão à economia francesa e à União Europeia em geral, que continua deprimida. (Na União Europeia como um todo teve-se uma  taxa zero em crescimento do PIB no mais recente trimestre, até mesmo a poderosa economia alemã se contraiu ligeiramente). Neste fim-de-semana, o Presidente francês recebeu algum apoio influente quando Mario Draghi, o Presidente do Banco Central Europeu, numa sua intervenção numa conferência do FED em Jackson Hole apelava aos países da UE, incluindo a Alemanha, para interpretarem as suas regras orçamentais de forma mais  flexível.

Em suma, o crime de Montebourg nem era sequer o de ter criticado as políticas de austeridade aparentemente sem fim, o que lhe custou o posto de ministro foi o facto  de que ele se manifestou publicamente, embaraçando os seus chefes. Numa entrevista ao Le Monde, Montebourg disse, “cada um tem que levantar a sua voz. A Alemanha está prisioneira  de uma política de austeridade que impôs a toda a Europa.” Ele acrescentou que a França tem de deixar de estar a ser  “empurrada” pelos falcões do défice em Berlim e Frankfurt.

Hollande e Valls, viram a sua autoridade questionada, evidentemente sentiram que tinham de agir. Mas Montebourg poderia ter-lhes feito (e a todos os europeus) um favor. Na câmara de eco da Alemanha, é o que representa a formulação das políticas da UE, teria sempre que haver alguns dissidentes. Muitos países europeus, incluindo a França e a Itália, precisam de reformar algumas das suas instituições económicas para aumentar a produtividade e estimular o crescimento do emprego. Mas sujeitando todo o continente a uma década ou mais de austeridade, o equivalente económico de lixiviação, é uma forma cara e derrotista de querer tornar a Europa mais competitiva.

Na Espanha, em Portugal e noutros países na periferia da zona euro, a austeridade não só gerou recessões mas sim destruidoras depressões , que só recentemente se tem considerado que chegaram ao fim, mas com o retorno a um crescimento modesto. Nalguns países mais próximos do núcleo, incluindo a França, a austeridade gerou a estagnação económica e deu um grande impulso aos extremistas da direita. Ainda aqui, Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças alemão e os seus companheiros ordoliberais, para quem o défice é veneno, recusam-se à mudança. Porem, em qualquer altura, porém, algo tem que mudar.

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Ver o original em:

http://www.newyorker.com/news/john-cassidy/french-austerity

 

 

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