Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
O Desastre Italiano
Perry Anderson, The Italian Disaster*,
London Review of Books, Volume 36, Nº 10, 22 de Maio de 2014
Parte X
(CONTINUAÇÃO)
…
Tal como a sua vítima, Renzi vem de uma base da democracia-cristã, o seu pai era um vereador DC na sua cidade natal, fora de Florença – mas embora e por razões de idade ele cresceu através do movimento de escuteiros católicos, não como o fez Letta, a organização de juventude da DC. A família tinha um negócio de marketing onde trabalhou até à sua entrada na política a tempo inteiro; entre as suas tarefas está o seu trabalho no jornal local La Nazione. Juntou-se a um dos resíduos da DC depois desta ter sido dissolvida, Renzi seguiu-o para o partido centrista Democrazia è Libertà – La Margherita (abreviatura DL) que oportunamente se fundiu com os remanescentes do comunismo italiano para formar a ala direita do PD e com de 29 anos , foi eleito presidente da província de Florença: o tipo de posto que, mais tarde, iria denunciar como um desperdício de dinheiro e contra o que , mais tarde, procurou conseguir a sua abolição. Na época fez muito disto, para rapidamente construir um aparato de assessores e de funcionários, projectando-se ele-próprio com uma série de eventos dos media orquestrados por uma empresa criada e controlada por ele, como um órgão de propaganda da província, cujas dívidas aumentaram sob a sua responsabilidade e em que as contas poderiam e deveriam ser questionadas pelos auditores do Estado.
Cinco anos depois, Renzi conseguiu a nomeação de PD para prefeito de Florença, um dos bastiões da centro-esquerda na Itália. Com muito sucesso, a sua administração tornou o centro histórico em zona pedonal e poliu a sua imagem turística: os cidadãos poderiam, mais uma vez, ter orgulho na sua cidade. Pouco progresso, no entanto terá havido em termos de poluição. Fora do centro, o transito ficou pior, os autocarros foram privatizados, contra a opinião da oposição unida. Depois de inicialmente ter garantido os aplausos em geral como sendo o melhor prefeito do país, a sua posição caiu depois, em parte porque muitas realizações das quais se gabava provaram-se como falsas. Mas desde o início que Renzi fundamentalmente olhava para fora de Florença. As actividades municipais eram concebidas não tanto como uma expressão das realizações locais mas, sobretudo, como um trampolim para subir a nível nacional. A prioridade era então os shows de alta visibilidade, estrelado por celebridades de todo o país, em eventos multimédia, com uma série de grandes festas político-culturais na convertida estação ferroviária Leopolda, alardeando “Next Stop Italy”’, ‘Big Bang’ e assim por diante: música rock e vídeos em plena profusão enquanto vários empresários e variados actores, filósofos, músicos, escritores, diziam uns soundbites às multidões, com um final empolgante proferido pelo próprio prefeito. O prémio era sempre a sua imagem difundida.
Isto nem sempre funcionou bem. Típico das operações de Renzi foram dois peditórios para obter fundos destinados a apoiar os artistas da cidade. Por debaixo de um dos frescos de Vasari no Palazzo Vecchio, Renzi assegurou ao mundo, ainda leigo sobre a batalha de Anghiari de Leonardo, que com tecnologia moderna este painel iria ser recuperado, se pudessem ser encontrados financiadores dispostos a financiar a investigação necessária, pelo que – numa campanha publicitária , às custas do município – viajou várias vezes para a América.
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Apêndice- Renzi e Leonardo da Vince
Renzi e o mural de Leonardo da Vinci (?)
Um mistério de longa data, um trabalho de Leonardo da Vinci — o destino de uma obra-prima perdida, conhecida como a batalha de Anghiari – continuará por resolver.
O projecto ambicioso de encontrar o trabalho artístico perdido desde há muito tempo foi deixado para um tempo indeterminado e as estruturas maciças que foram criadas para o descobrir começarão a ser desmontadas no final do mês.
As estruturas permaneceram durante 10 meses em frente a um fresco numa parede no Palazzo Vecchio, no imponente hall da Câmara Municipal de Florença no século XIV, em e Florença. Esta era uma sala construída no fim do século XV para aí se fazerem as reuniões de Florentine Council.
A direita, por detrás de uma pintura mural conhecida como a “batalha de Marciano,” encontrar-se-ia a obra-prima de Leonardo da Vinci, de acordo com o perito em diagnóstico sobre arte, Maurizio Seracini, que é director do Center of Interdisciplinary Science for Art, Architecture and Archaeology at the University of California, San Diego.
Criado pelo famoso pintor, arquitecto e escritor do século XV, Giorgio Vasari (1511-1574), o mural tem estado no centro da investigação de Seracini desde os anos de 1970.
Saudado pelos contemporâneos de Leonardo como o seu trabalho mais fino, a “batalha de Anghiari” sobrevive agora em diversos desenhos e esboços preparatórios feitos pelo próprio mestre e num desenho de Rubens que se terá inspirado numa cópia anónima do fresco.
Fim do apêndice.
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(continua)
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*Ver o original em:
http://www.lrb.co.uk/v36/n10/perry-anderson/the-italian-disaster
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Para ler a parte IX deste trabalho de Perry Anderson, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
http://aviagemdosargonautas.net/2014/09/16/sobre-os-leopardos-que-querem-bem-servir-bruxelas-da-italia-falemos-entao-de-um-bom-exemplar-o-desastre-italiano-por-perry-anderson-8/





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