HOLLANDE, UM REI SEM DIVERTIMENTOS. QUINTA CARTA À MINHA PRIMA DA PROVÍNCIA – por PATRICK MANDON

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

mapa_franca

 

Se fosse um “jovem” na casa dos 40 gostaria eu de ter uma prima destas de que aqui se fala e no contexto de que aqui se fala?  Possivelmente, mas…pensando bem acho que não, pois isso significaria que estaria a desejar a destruição do meu país sob a égide da Troika, seja directamente como em Portugal, Grécia, Chipre, Irlanda, seja indirectamente como acontece com a Itália, a Espanha, a França e muitos outros países igualmente.

Um texto em que se analise a situação da  França de uma forma humorística.

Júlio Marques Mota

***

Hollande um rei sem divertimentos. Quinta carta à minha prima da província.

François Hollande - III

Patrick Mandon, Hollande, un roi sans divertissement. Cinquième lettre à ma cousine de province.

Le Causeur, 10 de Setembro de 2014

 Parte I

Ah, minha querida prima, mas que história! Regresso a casa depois da visita de oito dias que vos fiz, fatigado mas não cansado dos prazeres que conheci nos vossos braços, e quero neste momento falar-vos de uma situação que diz respeito, mais uma vez, ao nosso rei: tem a ver com questões de saias e com a tragédia de Estado.

Lembra-se da ruptura de Gouda 1 com a marquesa de Koajélère, de que vos vou agora falar mais desenvolvidamente? Entrada como favorita no Eliseu ela pretendia aí permanecer e na qualidade de “Primeira Dama”, de acordo com a fórmula idiota das donas de casa e dos jornalistas que trabalham nas revistas a estas destinadas. Saiu pela escada de serviço. Eu bem dizia da marquesa : “Sofreu, chorou, não levará o luto do amor […] só quererá vingar a afronta pública que lhe foi feita […] Poderemos nós congratularmo-nos em breve com uma m indiscrição suavemente murmurada?”

Pois bem, minha querida prima, aí está o que já está feito! A Koajélère assina este dia um libelo assassino, uma história absolutamente arrasadora da sua relação apaixonada com Gouda 1. Sob forma de livro, é o mais mortífero dos engenhos explosivos que terá sido feito, para atingir Sua Majestade. A escarnecida só pensava em fazer-se pagar e muito caro da afronta sofrida, da afronta, que Gouda 1 lhe tinha infligido. A sua vingança espalha-se actualmente pelas montras de todas as livrarias, e disputam-se os seus livros.

Certamente, toda a corja de partilha do poder oficial – os ministros, os obrigados, e outras aves de baixo voo formaram imediatamente o muro do desprezo. Nesta parada, as mais sinceras e comedidas personagens foram Ibtissam Soufi-Belgazel, que detém doravante o governo das escolas, e Alémanc de Bol, bretão de grande estatura, ministro da agricultura. A Shéhérazade do presente reina, bonita criatura de olhos de veludo e de língua de chumbo e apela à dignidade da função, exigindo ainda que se pare onde começa a vida privada. O duque de BOl, que a Koajélère questiona fortemente numa formulação de uma desagradável ambiguidade, mantém com elegância uma irritação contida à flor da pele.

Senhora de Dessus, deputada por Corrèze, à qual o antigo soberano, Jacques Ier, o príncipe dos Monédières, já atingido por fortes perturbações mentais que definitivamente o mantêm afastado do mundo, teria feito uma corte publicamente na presença da rainha, organiza visitas ao quarto que ocupava Gouda, quando era apenas presidente da câmara municipal da boa cidade de Tule. Apresenta-o como monacal, mas dir-se-ia o antro de um rico que queria que se acreditasse que o seu nível de vida era bem modesto. Aí, a Dessus mostra um zelo tão desajeitadamente para nos convencer da austeridade de costumes do homenzinho, que se passa a duvidar da veracidade das suas afirmações. É necessário dizer que o lugar é de uma fealdade no seu mobiliário assim como nos seus ornamentos, que quase desqualificariam o seu locatário!

Os livreiros, que se pretendem guardiães dos nossos costumes e do nosso civismo, anunciam que não venderão o livro. São seguidos, ou precedidos mesmo, por uma grande parte da classe intelectual e das redacções das revistas de massa, todos mais hipócritas que nunca. O filósofo Bernard Hardi-Lalibye, pensador-bombardeiro, acreditou ser seu dever usar da palavra para a mandar para as urtigas “esta mulher cujas angústias sentimentais não nos deveriam interessar”. O que sabe ele? Os excessos dos grandes apaixonam-nos depois que o duque Saint-Simon levantou o véu sobre as excelências do reino, na corte do Rei-Sol. Hardi-Lalibye, com as suas prevenções de cobradora dos bilhetes conhece apenas esta passagem das Memórias do duque, relativa ao Maintenon: “A rainha suportava com muita dificuldade e sofrimento com esta, bem diferente das cautelas e das dicas continuas da duquesa do Vallière de que sempre gostou, em vez desta sobre quem lhe escapava frequentemente a seguinte frase: “Essa puta há-de me matar . ” “[22. Mémoires de Saint-Simon, volume 24, p. 158 de l’édition Delloy, 1840]. São palavras que Éloïse de Bravitude,teria podido pronunciar sobre um estrado, sobretudo que se viu subir a uma barricada, para defender Gouda 1. Isto repete-se nas alcovas e enquanto espera um regresso de carinho ela não deixa sucessivamente de lhe mostrar de mil e uma maneiras a sua dedicação. Não evoca, com exclusão de toda e qualquer reverência guardada, a esposa de Luís XIV, que assistia, impotente, ao incessante desfile das favoritas?

(continua)

______

Ver o original em:

http://www.causeur.fr/hollande-un-roi-sans-divertissement-29182.html

1 Comment

Leave a Reply