Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
4. Hollande: a diplomacia do cata-vento
Hollande: a diplomacia do cata-vento
A arena mundial não é um Congresso socialista
Hadrien Desuin, Hollande: la diplomatie de la girouette – L’arène mondiale n’est pas un congrès socialiste
Revista Le Causeur, 8 de Setembro de 2014
Foto: Okano
O que há de muito penoso com o nosso Presidente, é que ele é tão indeciso no plano interno como no plano externo, tão indeciso nas questões internas como nas questões externas. O caso dos BPC de classe Mistral vendidos à Rússia vem lembrar-nos isso muito cruelmente. Apanhado entre o atlantismo de Laurent Fabius e o pragmatismo de Le Drian, Hollande hesita. Uma e outra vez, hesita sempre. Desde o início do ano, é um ballet interminável de notícias contraditórias sobre a venda destes navios de guerra, classe Mistral. Segundo a pressão americana ou russa, o cata-vento no telhado do Eliseu gira ao sabor dos ventos contrários.
Assim, a França suspende até a entrega até Novembro dos barcos de guerra classe Mistral que deveria ter sido feita em … no final de Outubro – início de Novembro. Uma concessão sob a forma de farsa, a tempo da Cimeira da NATO em Newport. Como prova, Hollande foi rápido a esclarecer que a suspensão anunciada era ela mesma suspensa na hipótese de um acordo eminente entre Kiev e Moscou. Acordo de que se sabe que estes são numerosos na Ucrânia, mas raramente seguidos de efeitos. Entretanto, os ensaios navais de Vladivostok continuam em Saint-Nazaire. E os trabalhos de Sebastopol estão a progredir em ritmo acelerado. Suspensão engraçada, esta…
François Hollande tem gerado muitas vezes a admiração (ou a rejeição) dos seus contemporâneos pela sua capacidade em sintetizar as posições opostas. Ele fez maravilhas no PS, à frente das “correntes transversais”, para conciliar todas as capelas da esquerda. E sobre o dossier dos Mistral, Hollande age como num Congresso socialista; inclina-se perante todas as reivindicações , sem nunca romper com ninguém. Ele diz a cada um o que cada um quer ouvir, sem que ninguém se zangue. Mas, à força de se inclinar tantas vezes ninguém já leva as suas declarações a sério. François Hollande não é um secretário-geral da OTAN, da ONU ou da OSCE que actua a contra-relógio, é o Presidente de uma nação de voz tradicionalmente forte. É este o seu problema.
Isso não significa que a posição mediana da diplomacia Hollande seja à priori desinteressante. Enquanto esta seja assumida e com motivações específicas. Porque a França pode desempenhar um papel nesta crise, se ela encontra o seu posicionamento equilibrado entre Moscou e Washington.
Com quarenta anos de antecedência, De Gaulle tinha previsto a queda do muro de Berlim e o futuro da Europa do Atlântico aos Urais. Ele estava consciente de que o papel histórico da França seria o de conciliar a Rússia com a Europa e até mesmo com a América. Uma visão que muitas vezes tem sido consensual em França. Vozes gaulistas são também ouvidas, Henri Guaino e François Fillon, principalmente, para falar contra esta enésima farsa. Nós gostaríamos que à esquerda, as vozes de Chevènement, Védrine e porque não a de Montebourg se exprimissem também.
Porque é assim que funciona o nosso Presidente. Ele vai e vem, cambaleia, recua, como se estivesse suspenso no meio de pressões políticas; se ele não tem nenhum peso gaulo-realista à sua esquerda, é certo então que a balança de Hollande vai inexoravelmente inclinar-se para um confronto com a Rússia. Para grande azar da Europa.




