SOBRE OS LEOPARDOS QUE QUEREM BEM SERVIR BRUXELAS – DA FRANÇA, FALEMOS ENTÃO DA POLÍTICA DE HOLLANDE. – NÃO À EUROPA ALEMÃ, ATÉ QUANDO ACEITAREMOS NÓS ESTAR A TRABALHAR PARA O REI DA PRÚSSIA – por RÉGIS DE CASTELNAU

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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 14. Não à Europa alemã, até quando aceitaremos nós estar a trabalhar para o rei da Prússia

Régis de Castelnau, Non à l’Europe allemande! Jusqu’à quand accepterons-nous de travailler pour le roi de Prusse?

Revista Le Causeur, 11 de Setembro de 2014

Leopardo - XXIX

“Não há necessidade de espadas, as mocas chegam para dar cabo destes cães franceses”. No Outono de 1806, Frederick William III da Prússia não tem nenhuma dúvida. Aliada à Rússia, à Suécia, à Saxónia e ao Reino Unido, ele não pode deixar de admitir que estes reinos não possam cortar a garganta ao usurpador Corso, que ele desafia. Mas este, “provocado por uma audácia que exige vingança” entra na Prússia. A 14 de Outubro, em Jena, a França aniquilou o exército prussiano. Esta Prússia de que se dizia que não era um estado que tinha um exército, mas um exército que tinha um estado, está de joelhos. Pensadores como Fichte, Hegel e Clausewitz entendem que isto é o fim do mundo. Um nacionalismo alemão reformador e francófobo surgirá a partir dessa derrota, em que alcança a sua primeira vitória em Leipzig em 16 de Outubro de 1813, a “batalha das Nações”, batalha esta em que deixam de ser os governantes a afrontarem-se mas sim os povos . Os europeus aprenderam bem a lição da Revolução francesa. Napoleão, sem fôlego, nunca se irá recuperar desta derrota, é forçado a abdicar no ano seguinte. Haverá mais tarde uma outra derrota francesa em 1871 numa guerra desejada por Bismarck, mesmo se esta foi desencadeada por um imperador fraco e doente, influenciado pela sua esposa. A 18 de Janeiro de 1871, o Chanceler de ferro faz proclamar o Reich como Estado-Nação territorial na galeria dos vidros de Versalhes. Jena é pois vingada. Uma posição geográfica na Europa Central e o complexo da unificação tardia relativamente à França e à Inglaterra vai alimentar a vontade de poder alemão.

Realizaram-se debates intermináveis sobre as responsabilidades na eclosão da primeira guerra mundial. Se é difícil contestar que a França não fez grande coisa para a evitar, o certo é que foi a Alemanha quem a desencadeou . Basta para isso reportarmos-nos aos objectivos de guerra formulados pelo mundo alemão dos negócios, apoiado pelos militares. Sabemos a sequência: o erro estratégico de Clemenceau e Foch recusando-se a invadir a Alemanha e o Tratado de Versalhes, humilhante para uma nação que não tinha o sentimento de ter perdido a guerra. O nazismo que beneficiou, após a chegada de Hitler ao poder, de forte apoio popular até ao fim porque ele assumia por sua conta todos os delírios do imperialismo e do nacionalismo alemão. Os americanos que não desejavam uma grande potencia alemã imperialista no coração da Europa tinham-no tão bem compreendido que o Secretário de Estado, Morgenthau, havia sido encarregado por Roosevelt em 1942 para desenvolver um plano para a Alemanha do pós-guerra, em que se previa pura e simplesmente uma desindustrialização total e um retorno à vida agrícola e pastoral… A Alemanha escapou dessa situação devido à guerra fria. Os Estados Unidos precisavam de um aliado confiável nesta parte do mundo.

A queda do muro de Berlim refaz as cartas, Helmut Kohl ultrapassa rapidamente toda a gente e desencadeia a reunificação. A dinâmica da situação mostrou que havia razões para a relutância de Margaret Thatcher e de François Mitterrand. Este último conhecia a história e as qualidades deste país e deste povo. Mitterrand queria proteger a Europa de uma Alemanha com um poder muito forte. O Presidente francês considerou como defesa propor a criação da moeda única, o que a Alemanha não podia recusar. A Alemanha não se recusou, mas impôs condições que fizeram com que esta não fossem outra coisa que não seja o marco rebaptizado. Sabemos o resto da história, o enorme esforço do custo da reunificação alemã, as reformas de Schroeder, o alargamento da UE, os tratados de Nice e de Lisboa, a crise de 2008 e as suas consequências desastrosas. A Alemanha é hoje a potência que governa a Europa. E já nem o pretende esconder. Chamadas à ordem humilhantes para a França considerada de mau aluno. Braços de resistência com os ingleses por cauda da nomeação de Juncker. Uma atitude hipócrita a nomeação do ectoplasma Moscovici, Comissário para a economia da UE. Os nossos amigos alemães ficam rapidamente contrariados e irritados se não lhes obedecem.

E agora, o activismo sem vergonha de Angela Merkel na crise ucraniana. De momento, vale mais, de resto, tendo em conta o amadorismo americano, a c vacuidade da política externa francesa e a ausência de uma diplomacia europeia. Então, é necessário levantar a seguinte questão, a Alemanha adquiriu ela pela sua economia o poder que ela não conseguiu obter pelas armas?

Olhe-se para um mapa. Nele se vê a Alemanha colocada no centro da Europa cercada de Estados fracos ao oeste. A começar pela França, que foi no entanto durante muito tempo o único contrapeso à potência alemã e o único factor capaz de a impedir de ceder aos seus apetites. Os países do Sul estão à deriva sobre o plano económico. Estes estão em situação de extrema dificuldade e atingidos por  um desemprego de massa em especial na juventude. O que permite recuperar uma mão-de-obra altamente qualificada que é forçada ir tentar a sua possibilidade no meio do império. A leste, há ainda países ainda pobres mas com uma população que beneficiou de um elevado nível de educação, o grande sucesso do sistema, aliás. A Alemanha teria uma demografia demasiado fraca? E então? É doravante um país de rentiers que se aproveita da juventude dos outros. E não tem nenhum esforço militar a fazer para garantir a sua prosperidade. Os Americanos ocupam-se disso. Os indicadores económicos desta zona controlada pela Alemanha fazem uma verdadeira potência

Compreenda-se bem , não se trata de acusar os Alemães de estarem a defender os seus interesses. De desejarem serem prósperos e influentes sobre o plano político. Sobretudo quando são os outros, e em especial a França, que se deixou instalar nesta situação de segundo. O problema é que com eles, já se deu para isso. E é certo que a actualidade recente pode conduzir-nos a que nos interroguemos.

Em primeiro lugar, os povos dos países que sofrem vão aceitar por muito tempo estarem a trabalhar para o rei de Prússia? A crise social não é ela um grande perigo ? Esta Europa alemã de que os povos europeus não querem é ela assim tão sólida?

A crise ucraniana também. Ter querido aproveitar-se de um movimento popular contra a corrupção, tê-lo pervertido, ter fomentado um golpe de Estado militar com forças perfeitamente suspeitas, ter-se entregue à provocações no que diz respeito a uma potência convalescente e particularmente nervosa dado que se trata da sua segurança é mesmo muito estranho. Parecendo esquecer que a Rússia, certamente potência económica de segunda ordem de 145 milhões de habitantes (menos que o Japão), possui mesmo assim um arsenal nuclear. Quem é manipulou quem? O que é que os Americanos andam a fazer nesta galera assumindo o risco de uma escalada enquanto que eles são confrontados no Pacífico, na América Latina no Médio Oriente, a outras preocupações. A OTAN? E que papel desempenhou a Alemanha? Porque Berlim foi activa no processo e tem-no sido sempre. A França não faz nada, a não ser fazer parte na escalada simbólica e na retransmissão de uma propaganda que é uma vergonha . É mesmo assim inquietante, que esta crise desencadeada pelo reconhecimento do golpe de Estado militar pela UE, se desenrole sobre o que Timothy Snyder chamou “ as terras de sangue” no seu livro publicado há dois anos. Terras onde se desenrolaram os grandes massacres entre 1930 e 1945. Terras onde, desde sempre, Alemães e Russos se derontaram. De resto, talvez vão terminar por fazer como o sabem, partilhar a Ucrânia. Hoje, seria provavelmente a menos má das soluções.

Há, por fim, a questão dos Estados Unidos. Como diz Gil Mihaely a organização do mundo não é uma democracia igualitária. É um sistema medieval. Pertencemos a uma zona em que o seu suserano é a América. Este aumento de poder na Alemanha, que Washington recusa desde há um século, não pode satisfazer os Estados Unidos.

República imperial em declínio, os seus interesses entram já em contradição com os da Alemanha. Pessoalmente, preferiria que o meu país não tenha de  jurar fidelidade a nenhum suserano, mas se devesse mesmo assim escolher um, então preferia a América à Alemanha.

Em 1944, de Gaulle fez uma visita à União Soviética. Foi levado ao campo de batalha de Estalinegrado. Em frente dos seus interlocutores fez esta reflexão em voz alta: “Que grande povo! ”. Molotov pensando que de Gaulle estava a falar dos soviéticos ficou radiante, cheio de orgulho. A que de Gaulle reagiu “Não, não, os Alemães de terem conseguido chegar até aqui”.

De facto, que povo.

Régis de Castelnau , Revista Le Causeur, Non à l’Europe allemande! Jusqu’à quand accepterons-nous de travailler pour le roi de Prusse?

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Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/non-a-leurope-allemande-29148.html

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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