CARTA DE ÉVORA – 6 – por Joaquim Palminha Silva

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in illo tempore

            Completaram-se os 400 anos (1614) da impressão e publicação (póstuma) da obra Peregrinação, da autoria de Fernão Mendes Pinto. Considerado um dos mais fascinantes escritores do século XVI, a sua obra, para além do intrínseco exotismo que encerra, pode ser considerada como um verdadeiro relatório sobre o Japão, escrita com a vivacidade de quem sofreu as aventuras narradas, conheceu os itinerários que descreve, as relações comerciais, culturais e religiosas que praticou ou viu praticar.

            A Peregrinação, que foi obra rapidamente traduzida nas principais línguas europeias nos séculos XVII e XVIII, com edições que logo se esgotavam, passou o seu 4º centenário quase despercebida no pobre e institucional panorama cultural português.

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Quando sobe o pano no palco da História contemporânea, descobrimos que a existência multifacetada da globalização tecnológica, científica, comercial, bem como a difusão das línguas, das religiões e da ética social, encontrou os portugueses dos séculos XV, XVI e parte do XVII protagonizando, com engenho e arte, o papel central de intrépidos pioneiros da mundialização materializada hoje, sobretudo, ao nível da economia, da tecnologia, da ciência e da procura planetária de mão-de-obra “barata”.

         Todavia, a mais promissora de todas as iniciativas começadas no século de quinhentos foi, sem sombra de dúvida, o aparecimento de um novo tipo de comunidade humana de raiz lusíada, a comunidade da diáspora. Comunidade constituída por aventureiros, comerciantes, religiosos, humanistas, soldados, marinheiros e, também, funcionários administrativos. Comunidade da diáspora que, sabemos hoje, tinha todas as condições para se tornar a comunidade do futuro!

         Como qualquer comunidade regional ou local, a comunidade da diáspora é um fragmento do estado de desenvolvimento (multifacetado) a que chegou um determinado povo (suas elites) e sua cultura. Esta comunidade da diáspora caracterizou-se por não ocupar um exclusivo lugar na superfície da Terra, mas por se repartir pelo mundo no decurso de um longo período de tempo.

         Esta foi, pois, a comunidade da diáspora que, inaugurada pelos portugueses de quinhentos, chegou à «grande ilha de Cipango», como diziam os europeus antes de os lusíadas terem desembarcado no país do «Sol Nascente», isto é, no Japão. Mais exactamente, na ilha de Tanegashima, em Setembro de 1543.

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O Japão numa carta datada de 1595, da autoria de Luís Teixeira, impressa no Theatro d’orbe de la tierra, de Abraão Ortelio, edição de Antuérpia, 1612.

         Como se sabe, uma comunidade da diáspora é minoritária, esteja onde estiver, assentando as raízes da sua expansão na busca de trabalho (qualificado ou não) remunerado a contento, no comércio, na religião, nos intercâmbios tecnológicos e, mais vezes do que gostaríamos, na guerra ou na indústria bélica.

Felizmente, a nossa comunidade da diáspora, no que respeita ao Japão, fundamentou-se mais na difusão da religião, na cultura de matriz lusíada, no conhecimento científico e no intercâmbio comercial.

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Japonês cristianizado (é visível a cruz ao peito), numa pintura sobre madeira, 1621 (Museu do Caramulo).

A importância da comunidade da diáspora portuguesa no Japão (na vertente cultural, comercial e tecnológica) e do cristianismo, graças à missionação dos padres da Companhia de Jesus, foi tal para a História deste País que muitos autores nipónicos designam o período, que vai de 1543 a 1640, por «século cristão».Do conjunto de conhecimentos transmitidos pelos portugueses à sociedade nipónica (Astronomia, Náutica, Cartografia), destacamos o conhecimento das armas de fogo, em particular a espingarda, na sua versão da época. Arma logo fabricada em série pelo japoneses que, se é verdade que contribuiu para aumentar o número de mortos nos campos de batalha, paradoxalmente também contribuiu de forma decisiva para a unificação do Japão, pondo assim termo às guerras feudais entre clãs.

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«TSUBA» com a cruz de Avis, em ferro forjado damasquinado em metal amarelo, séc. XVI/XVII, período Monoyama-Edo (a «TSUBA» é a guarda das espadas dos samurais. Na sua decoração figuram os símbolos das forças militares que entre si disputavam o Poder. O facto de aí se gravar a cruz de Avis fica a dever-se ao grande prestígio alcançado pelos conhecimentos e tecnologia militar dos portugueses.

        As frequentes conversões ao cristianismo de nobres e gente do povo, a atitude inicial de franco optimismo no relacionamento humano, a ausência de qualquer tipo de agressividade por parte dos portugueses, mas também por parte das autoridades japonesas, pelo menos até cerca de 1640, criaram um espaço de tempo propício ao relacionamento humano, de tal forma único, bem-sucedido e proveitoso para ambas as partes que, ainda hoje, a memória histórica dos dois povos o regista com particular destaque, igualando os japoneses este relacionamento (naturalmente sem a carga bélica catastrófica) com o que teve início com os Estados Unidos da América no século XX.

         A importância para o Japão dos conhecimentos científicos e técnicos ostentados pelos missionários jesuítas, bem como o enorme prestígio alcançado pelo ensino ministrado pela Companhia de Jesus, influenciaram alguns membros da aristocracia japonesa, incentivados por um padre jesuíta de origem italiana (Pe. Valignano), a enviar uma “embaixada” ao Rei de Portugal e ao Papa. Foram selecionados para participarem nesta viagem alguns jovens da nobreza nipónica que, acompanhados de padres jesuítas, partiram do porto de Nagasaki a 20 de Fevereiro de 1582.

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Portugueses, pormenores de biombo japonês, dito “Arte Namban”, 1590-1614, período Momoyama (Museu Nacional de Arte Antiga). A designação de «Arte Namban», deriva do seguinte acontecimento: surpreendidos com o desembarque dos portugueses na ilha Tanegachima, em 1543, os japoneses passaram a alcunhar os lusitanos de «Namban-jin» (bárbaros vindos do sul). «Arte Namban» passou a referir toda a expressão plástica japonesa relacionada com a remota estadia dos portugueses no Japão, presença que, de forma continuada e proveitosa para ambas partes, durou praticamente um século.

Enquanto durou a viagem da “embaixada” japonesa (cerca de dois anos) Portugal perdeu a sua independência e, portanto, encontrava-se sob a tutela de Filipe II de Espanha. Assim, o itinerário traçado pelos padres jesuítas, guias oficiais dos jovens nipónicos, obrigatoriamente sofreu algumas alterações.

No entanto, para o que nos importa, nada se alterou, antes pelo contrário, em relação à cidade alentejana. Chegaram os jovens japoneses ao porto de Lisboa a 10 de Agosto de 1584, mas pouco se demoraram na capital do Reino, pois receberam um especial convite do Arcebispo de Évora, D. Teotónio de Bragança.

Partiu a comitiva japonesa acompanhada dos seus guias jesuítas de Lisboa, praticamente a “mata-cavalos” como então se dizia, para aceder com prontidão ao convite do prelado eborense.

É então, de forma inesperada, que efectivamente se dá o feliz encontro entre duas culturas e duas sociedades. Largamente obsequiados e agasalhados pelo Arcebispo de Évora, os padres levaram os japoneses a apreciarem o Colégio do Espírito Santo (Universidade), cuja direcção e corpo docente era composto por membros da Companhia de Jesus.

Da narrativa da sua estadia na cidade, fica a saber-se que o «irmão» jesuíta japonês de nome cristianizado «Jorge de Loyola» foi solenemente ordenado sacerdote na Sé de Évora: – Facto inédito, pois este japonês foi o primeiro oriental a abraçar, de sua livre vontade, a vida eclesiástica do Ocidente Católico Apostólico e Romano!

Pelas informações lavradas na altura, ficamos a saber que dois dos jovens japoneses tocaram alguns trechos de música sacra (lusitana) no órgão do Coro da Sé de Évora, o que muito espantou os contemporâneos.

Assistiram os jovens japoneses à festa da «Exaltação da Cruz» na Sé, especialmente ornamentada em sua homenagem. Os registos da época dizem-nos que a multidão assistente chorava comovida, ao testemunhar como tinha ido tão longe a obra espiritual dos missionários jesuítas.

Naturalmente a estadia dos enviados japoneses em Évora está recheada de outras peripécias não menos interessantes.

Devemos concluir…

Conhecemos a Europa de quinhentos, torneámos a África, fomos até aos fundos da Ásia e deitámos ferro no Japão.

Travamos relacionamento com populações, estabulamos relações de vário tipo, diversificamos o comércio. Os nipónicos encontraram que eramos “interessantes” enquanto “bárbaros” do sul e, nessa ordem de ideias, enviaram até nós (Évora) uma muito especial missão, constituída por jovens instruídos da sua aristocracia.

De tal relacionamento, guardamos uma imensa e diversificada memória com o Japão… E um largo convívio com o mundo.

Acreditamos que o contacto com os documentos que nos restam desta memória, são um dos possíveis caminhos para o conhecimento geral da importância desta cidade, como urbe pioneira de um mundo que já então se globalizava

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