A propósito de uma nova série de textos que tem como título De Bruxelas, onde reina a ignorância e a maldade, à realidade dos países em implosão, uma nota explicativa:
Acabei de ler o texto espantoso de Pacheco Pereira sobre as libélulas. Pacheco Pereira está triste. Tem razão para o estar, está ele e estamos quase todos nós portugueses, como o estarão igualmente quase todos os franceses, como o estarão igualmente quase todos os espanhóis e assim sucessivamente nesta Europa onde reinam em absoluto Frau Merkel e os fundamentalistas do Bundesbank, para quem é necessário punir os países cigarras que estão a pôr em perigo a Alemanha, supostamente um país formiga. Supostamente apenas porque ela vive também à custa dos rendimentos obtidos por querer fazer dos outros países, países cigarras, mas isto é uma outra história.
Pacheco Pereira passou “a semana a ver com tristeza como está o meu muito amado país. Tudo a cair aos bocados na apatia e indiferença geral.” Naturalmente assim diria eu. Uma das características desta crise é o caracter de impotência que as pessoas assumem face a ela: é necessário pagar a dívida, não nos queremos assumir como sendo caloteiros. E tem de ser assim, tem de se pagar como no-lo exigem, pensa-se. A maioria das pessoas não quer ver que exactamente assim é que não consegue pagar coisa nenhuma, a ser assim é que se fica cada vez mais fragilizado, mais pobre, mais endividado ainda por cima, e com menos capacidades de poder pagar, até mesmo num futuro relativamente distante.
Mas na base deste convencimento estão os partidos do arco do poder, desde o PS de Sócrates, de Seguro, de Costa, ao PSD e ao CDS. Do PS que assinou tudo o que Frau Merkel lhe exigia e até assinou o silêncio sobre o PEC IV em que o governo caiu porque este PEC IV era feito nas costas do povo, dos seus eleitos, argumentou-se então. Os partidos à esquerda do PS poderiam argumentar que nada sabiam, que nada do que estava no PEC IV teria no Parlamento sido discutido, quanto mais aprovado. Tinham razão. Mas esta era também a crítica de fundo do PSD, quando Passos Coelho sabia por um telefonema pessoal de Sócrates o que de Portugal se estava a exigir. E o PSD e CDS fizeram depois cair o poder por causa desse conjunto de políticas, que supostamente ignoravam, que passaram depois a serem eles empenhadamente a aplicar. E depois, passaram igualmente a ser os executores dos múltiplos PEC IV que se foram depois seguindo, um após outro, cada um pior que o anterior. E a queda de Sócrates deu-se, naquela época por esta razão.. Mas os partidos da direita, os futuros executores dessa política, nada disso poderiam dizer, não poderiam dizer que não sabiam o que Bruxelas nos estava a exigir. O governo cai então na base de uma mentira, a de que não se sabia nada do PEC IV. Sabiam-no pelo telefone referido mas este foi conveniente silenciado pelos dois dirigentes, por Passos Coelho e por Sócrates. Estranho, muito estranho, o silêncio, a mentira e, neste caso, calar é também mentir. No fundo somos forçados a pensar que Sócrates caiu, porque convinha à Europa, e levou muitos meses a que a mentira calada, por Sócrates e Passos Coelho, a mentira de que não lhe foram apresentada contas do que seria “necessário” fazer, se viesse depois a saber. E assim se passou a responsabilizar Sócrates e não a Europa pela situação de Portugal, quando antes da crise os nossos dados macroeconómicos, excepto o défice na balança corrente, estavam situados na média europeia. Pergunta: Qual seria a compensação para que Sócrates tenha “assumido” essa culpa? A integração como político tal como a direita a operou, a partir de Relvas? A possível abertura do caminho para chegar aos comandos do poder, a partir do que Pacheco Pereira chama os cães de Pavlov? Curiosamente passou-se o mesmo em Itália, passou-se o mesmo na Irlanda e está-se a passar o mesmo em França. Possivelmente ir-se-á passar o mesmo em Espanha, mas aqui tudo indica que poderá ser bem mais difícil, se não mesmo impossível. Mas não são coincidências a mais? Na Europa de Juncker, de Barroso, de Frau Merkel e dos seus boys fundamentalistas, os monetaristas puros e duros não de Chicago mas de Frankfurt, tudo se passa como na Internet, carrega-se na palavra Democracia e dizem-nos que se trata de um erro, que a página está encerrada! Só podem optar nas eleições entre o muito mau e o pior. Não há alternativa, dizem-nos. E é este movimento que Pacheco Pereira está já causticamente a assinalar quando nos fala agressivamente dos cães de Pavlov.
Entretanto, com a queda do PS, a coligação PSD/CDS alcança o poder. Cria-se a partir daqui uma máquina ao serviço de Bruxelas, ao serviço da dívida que é necessário pagar, mesmo que não se possa, mesmo que não se disponha de meios para imediatamente o poder fazer. E levam-nos os anéis e levam-nos os dedos igualmente. E o governo português faz exactamente o mesmo aos seus cidadãos, com a Autoridade Tributária a ser um verdadeiro ladrão, a roubar sem autorização dos proprietários, os cidadãos indefesos, ou ainda a forçar a obter o que não pode mesmo de imediato vir a ter. Veja-se o caso recente de alguém a quem se dá o nome de Maria, com seis filhos, que ficaria sem nada, nada de todo, porque não abateu nas instituições fiscais os dois carros velhos de família que foram para a sucata. Ter‑lhe‑á valido a solidariedade nacional! Mas não vi nunca este comportamento oficial discutido na Assembleia nem de forma séria nos nossos jornais ou televisões.
Tudo o que seria conhecimento sobre as razões desta crise foi evaporado com o fogo da voragem da dívida, na voragem e na subserviência de que é preciso pagar esta dívida. E o espectáculo é este que se pode adivinhar no caso agora citado, que se pode rever no texto magistral de Pacheco Pereira. Mas acrescento mais três pequenos exemplos do meu dia-a-dia ao que escreve Pacheco Pereira: fui ao Continente, encontro um conhecido de longa data. Conversa longa sobre a crise. Pergunta-me se não arranjo alguém que lhe compre a aparelhagem de som: um ampli e um pré, ambas as peças Quad, umas colunas da marca B& W. Em casa já ninguém ouve música, é o que me diz. Ouvi, calei. Tentei arranjar-lhe comprador e ainda arranjei. Mais tarde, no café encontro alguém que é mãe de uma colega da filha de uma pessoa amiga minha, uma mãe de uma menina de 14 anos. À sua frente, uma caneca de cerveja, um olhar perdido sobre a mesma, sobre quem passava na rua, sobre quem passava e que ainda não estava despojado de tudo como ela agora estava. Perdeu o emprego, calcorreou sítios e sítios a oferecer a sua capacidade de trabalho. Desceu ao nível da empregada de limpeza de restaurante. Elegante de mais para essa função e para o resto não era precisa. Separa-se, perde a filha, deambula na cidade, mão amiga cede-lhe um quarto. O que se segue? Isso se verá. Como terceiro exemplo, fui ao Norte, para lá das terras do Demo, onde encontrei uma situação que nem o Demo seria capaz de conceber. Um casal de camponeses, gente simples e muito dada, na casa dos 70, com três filhos, em que um deles sofre de esquizofrenia desde pequeno e de fortes consumos de droga pesada desde adolescente. Escusado será dizer que a vida naquela casa foi desde há muitos anos um verdadeiro inferno. Mas dos nossos nunca se diz mal, escondem-se as maleitas, é como fazem os pais, vivendo a “vergonha” de um filho assim. Os outros filhos para terem direito à vida, ao futuro, tiveram que o ir procurar longe daquele inferno. Até que um dia, por razões que aqui seria longo explicar, o esquizofrénico na casa dos 50 e depois de uma cena de violência é levado pela polícia a um hospital da cidade da região. A psiquiatria, em tempos de austeridade só funciona de dia e, naquele caso, era de noite. Levam-no então para o Porto. Do Porto telefonam para a família, para que esta lhe desse uma razão para que o “doente” ali estivesse, pois tinha um discurso coerente e a médica de serviço não via nenhuma razão para o ter ali. Deveria saber tanto daquilo como eu. Apenas tinha um aspecto muito andrajoso, queixou-se. Em tempo de crise, este aspecto desvaloriza-se, pois claro, e o doente é enviado para o hospital da cidade mais próxima. Dão-lhe uma injecção, mas esquecem-se de lhe dar uma segunda para anular os efeitos colaterais graves da primeira. O doente entra em situação grave quase que de coma. Nunca mais uma injecção, seja do que for, ele irá tomar. Duas semanas depois mandam-no para casa. Os pais, gente simples, de difícil percepção até do que são as letras, dizem ao médico que, extremamente cansados, não aguentam a vida assim. Ah, aguentam, aguentam, que remédio, respondem-lhes! E esta história não inventada faz-me lembrar a posição de um banqueiro, numa situação em que falava sobre o nosso país e a crise. E dizia exactamente o mesmo. No caso em presença, o doente passou a ser tratado por medicamentos dados sub-repticiamente, dissolvidos na sopa, até que este um dia o venha a descobrir. E aí a violência, fortemente destruidora de gentes e bens, voltará a instalar-se. Como a crise em Portugal, cada vez que um dado estrutural a vem aprofundar, até que… Aguenta, aguenta, disse o banqueiro. E é o que se está a ver com o BES. Posição diferente assume Willem Buiter, antigo economista chefe no BCE que nos diz estar “ admirado de não ver o sangue correr nas ruas da Europa”.
Também eu estou cansado de tantos casos como estes que acabo de relatar, estou igualmente cansado de assistir ao que Pacheco Pereira com razão nos relata criticamente. É este o nosso país, o meu, o de Pacheco Pereira, o de tanta gente que não é responsável de nada do que aconteceu. Mas não podemos desistir de continuar a resistir.
Diz-nos Pacheco Pereira:
“passei a semana a ouvir o ministro da Economia a elogiar uma subida de Portugal num ranking em que afinal desceu; passei a semana a ouvir mentiras sobre o Orçamento do Estado, a ouvir mentiras sobre o BES, a ouvir mentiras sobre as previsões económicas, tão ficcionais como a fada dos dentinhos; passei a semana a ouvir o primeiro-ministro a ler um discurso escrito que negou logo a seguir quando passou à oralidade, como se fosse a coisa mais natural do mundo dizer coisas diferentes com intervalo de minutos, ainda por cima sobre o bolso de centenas de milhares de pessoas (quem é que liga a isso?); passei a semana a ver um enorme vazio onde devia estar a oposição, com António Costa a comportar-se como primeiro-ministro putativo, em vez de assumir o papel de líder da oposição que é o dele até ganhar eleições; passei a semana a assistir àquela cena patética, de verdadeiros “amarelos”, na UGT, a dar legitimidade ao Governo que mais combateu o mundo do trabalho, com Passos Coelho a fustigar os trabalhadores num cenário “sindical”; passei a semana a ver imagens de Nuno Crato passeado pela UGT a bater palmas como se o masoquismo na moda fosse engolir alegremente uma manifesta provocação; passei a semana a ler jornalistas preguiçosos a repetirem os argumentos do poder sobre como foi bom o negócio do Novo Banco, passando do tudo ao nada no BESA, de como não é importante o chumbo do BCP nos testes de stress, como está sempre tudo bem quando os interlocutores são os que importam, os do clã, os que estão no “lugar certo” de Portugal, empresas, bancos, gestores, povo da economia “empreendedora”; passei a semana a ver sempre proteger os que mandam, Passos, Maria Luís, Carlos Costa, Stock da Cunha, e a considerar que tudo o que eles fazem é o “menos mau”, o “que podia ser feito”, uma “boa solução num contexto difícil”, etc., etc.; passei a semana a ver comparar realidades más com previsões boas, como se fossem a mesma coisa; passei a semana a ouvir silêncios, sobre as últimas estatísticas da pobreza, das penhoras, das dificuldades económicas, aquilo que não interessa ao “Portugal positivo”; (…); passei a semana ver imagens de cãezinhos de Pavlov a abrir os dentes ao som de “Sócrates”, como se o homem ainda estivesse no poder, para esquecer que de 2011 a 2014 foram outros que aprofundaram as desgraças que ele deixou, numa indigência política assustadora do que vai ser o ano de 2015; passei uma semana a ouvir tudo o que era gente séria a contar como está a ser cheio o Estado, as fundações ligadas ao Governo, as empresas, tudo quanto é lugar seguro e bem pago e com poder, de “amigos do ajustamento”, da turma da “justiça geracional”, sem parangonas, sem publicidade, agora cada vez mais depressa, porque se aproximam tempos difíceis e o PS vai querer o seu quinhão; passei a semana a ler histórias muito silenciadas sobre milhares de euros que foram para empresas de comunicação, quase sempre as mesmas, as que trabalham para o Governo, para as empresas do PSI-20, para as autarquias cujos presidentes eram ou são os principais controladores dos aparelhos partidários, do PSD em particular”.
Daqui infiro que Pacheco Pereira passou a perceber que o que o espera, a ele e a todos nós, é mais do mesmo e até mesmo com os cães de Pavlov de que muito agressivamente nos fala. Necessariamente assim, se o modelo é o mesmo, se as coordenadas económicas são as mesmas, se a imposição do que se deve fazer é igualmente a repetição de mais do mesmo. Será necessariamente assim, a menos que um cataclismo social varra esta Europa que prefere mais a morte lenta do que a revolta à procura da vida. Mas estes tempos de calmaria ao serviço de Frau Merkel terão os dias contados. A França aí está quase que a rebentar, em risco mesmo de se ter o PS a perder a maioria absoluta, em risco de fazer a mesma coisa que a Itália, juntar UMP e PS com o argumento que é para proteger a França da extrema-direita, ou seja de Marine Le Pen, a Espanha aí está igualmente na fila de espera para tentar fazer o mesmo, o que me parece já impossível. Talvez de Espanha possa vir agora bom vento, bom casamento, com Rajoy a caír nas próximas eleições e o sistema político espanhol actual a saltar em cacos. Quanto à Itália, país onde a Democracia foi temporariamente arquivada pelo par Berlusconni-Matteo Renzi, tudo depende da capacidade de diversão do verdadeiro clown que domina a Itália e que dá pelo nome de Matteo Renzi, não confundir com o outro clown bem mais sério que o primeiro e que é Beppe Grillo, e do tempo em que ele consegue manter essa diversão do povo italiano sobre o que realmente se está a passar.
No entanto, precise-se um detalhe importante ao texto de Pacheco Pereira. Sócrates não é responsável pela crise e é-o muito pouco pelo que fez depois dela rebentar. Aí, quando rebentou, fez o que todos fizeram e por ordem de Bruxelas: abrir os cordões à bolsa! É no entanto um dos responsáveis, porque um defensor acérrimo do sistema que a crise gerou, pelo endurecimento do próprio modelo europeu praticado desde há 30 anos, e que teve um enorme reforço no sentido da liberalização total dos mercados com a Presidência Barroso. E contra esta liberalização nunca viram nada durante o governo de Sócrates, antes pelo contrário, assistiram a um crescendo de liberalização. Foi este modelo que deixou a Europa desprotegida face à crise que rebentou nos Estados Unidos, mas, SUBLINHE-SE, esta não é uma crise financeira, é uma crise da economia global, de que os mercados financeiros são uma componente e foram a componente a partir da qual os diques rebentaram. Nesse sentido, relembre-se toda a política neoliberal de Sócrates, da mais pura e mais dura, e quando ainda não se falava sequer de crise. Relembre-se a sua política de ensino, relembre-se a sua política dos mercados de trabalho, relembre-se a sua política de saúde com as mulheres portuguesas a darem à luz em Espanha e não em Elvas, cuja maternidade ele fechava, relembrem-se as suas parcerias publico-privadas, a sua política de fundações a esmo, a sua procura de liberalizar ainda mais os mercados de capitais, a destruição do que é bem público. Com a agravante que fazia tudo isto a coberto do socialismo, mas que de socialismo nada tinha. Desse ponto de vista, Valls terá razão!
(continua)
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Para ler o texto de Pacheco Pereira, As Libélulas e o Estado da Nação, saído no Público no dia 1 de Novembro, vá a:
http://www.publico.pt/politica/noticia/as-libelulas-e-o-estado-da-nacao-1674801


As queixas feitas pelo Senhor Professor J. Marques Mota, tal como aquelas produzidas pelo Senhor Pacheco Pereira são as mesmas que milhares de portugueses estão a fazer faltando-lhes, apenas, a erudição daqueles bem falantes que, na senda dum comportamento já secular, sabem criticar com muito vigor – arrasam tudo – porém, deles nunca é ouvida uma proposta de solução. Mau grado o meu saber muito limitado, apesar disso – e sem quaisquer receios de errar – no rosto da “Viagem dos Argonautas” já deixei escrito, como sei e com a contundência bastante, o comentário mais desfavorável ao regime politico que, infelizmente, nos rege mas, note-se, não me fiquei por esse exercício de indignação, direi mesmo de rancor. Quis e quero que alguma coisa suceda para destruir a burla legislativa, governamental e presidencial que a tudo e a todos, com completa imunidade, está a corroer. Como no horizonte político nacional não há nenhum partido político que indicie querer fazer outra coisa mais que não seja legitimar a ausência real de Democracia, sem qualquer hesitação, dirijo às Forças Armadas o meu pedido de socorro e aconselho todos os meus compatriotas que tenham a coragem de fazê-lo.. Na História portuguesa nunca houve qualquer alteração política com significado – bom ou mau – que não tivesse origem nas Forças Armadas. Para que seja bom – melhor, ainda, que o inesquecível 25 de Abril – vai ser preciso – é do senso comum – que seja a População a dirigir-lhes o seu pedido. CLV