Coimbra, 7 de Dezembro de 2014
Exmo. Senhor Primeiro-Ministro
Ouço as suas declarações na televisão, leio o jornal Diário de Notícias e reproduzo:
“O primeiro-ministro defendeu hoje que a disciplina orçamental é essencial para o crescimento e rejeitou a dicotomia esquerda/direita, contrapondo que nesta matéria o que há são bons e maus governos, em Portugal e no resto da Europa.
“A história recente do nosso país demonstra que contas equilibradas são condição de crescimento. Se precisássemos de provas, bastaria apenas apontar os sucessivos anos da última década no caminho para o colapso de 2011 e para o resgate externo. Aqui e na Europa, como estamos agora a ver em França e na Itália, no que toca à disciplina orçamental e às reformas estruturais, não há esquerda nem direita: há bom governo e mau governo”, afirmou Pedro Passos Coelho.
Evidente o senhor primeiro-ministro terá razão. Na Europa de hoje submetida à ditadura da Troika não há direita nem esquerda, nem há, diria eu independência nacional[1]. Terá razão mas deixe-me dizer-lhe que sem completar a sua afirmação, explicando porque é que é assim, porque é estamos perante esta identidade, sem nos dizer o resto, portanto, o senhor está a fazer declarações que são falsas. E a explicação é muito simples: direita e esquerda oficial confundem-se quando ambas as linhas políticas abdicam de defender os interesses nacionais e se submetem religiosamente às ordens da Troika. Neste caso, e tem razão, a direita e a esquerda ao aceitarem o mesmo modelo, o da Troika, diferem apenas nos ritmos para se fazer a mesma coisa, a de desrespeitar em absoluto, os direitos das pessoas a que se passou a chamar na linguagem de Bruxelas, de privilégios e, enquanto tal, a terem que ser atacados. Por isso o senhor primeiro-ministro tem razão! E isso vê-se em Itália, vê-se em Espanha, vê-se em França, vê-se em Portugal, vê-se na Grécia, vê-se por todos os países que directa ou indirectamente estão muito dependentes das políticas determinadas por Bruxelas e aceites pelos governos nacionais, como é o seu caso, e que se traduzem no ataque aos cidadãos indefesos, à sua dignidade de viver hoje, ao seu presente, e mais do que isso, ao seu futuro, à sua dignidade de vida amanhã incluindo a dos seus descendentes.
O ataque aos direitos, ditos agora de privilégios, é geral. A menos que estes privilégios tenham a ver com a classe dominante ou com quem os serve, e muito servilmente. Aí é então diferente. Um exemplo disso mesmo se passou agora em Portugal. Veja-se o espectáculo dramático quando os eleitos do PS e do PSD quiseram restaurar os privilégios dos políticos, as pensões vitalícias. Dizem-nos que o PS retomou as suas feições, as suas devidas posturas de partido da oposição, de partido de esquerda. Não vimos nada disso até agora, pelo menos na Assembleia, mas desejamos ver muito disto mesmo, sejamos sinceros. Pelas gentes que temos na nossa Assembleia, sabemos que o senhor primeiro-ministro tem razão: PS e PSD foram iguais, no desrespeito por um país em que muita gente passa fome e de quase tudo menos da dignidade de ser gente de respeito ( reformular), o que de resto lhe falta a si senhor primeiro-ministro, é bem ilustrado pelo facto de se querer restaurar o que nunca deveria ter sido criado: pensões vitalícias para os políticos, quando se continua a pressionar quem vai para o desemprego, quem vai para a reforma, quando se vive num pais em que a maioria da população vive na precariedade absoluta.
Mas e ainda por cima querer restaurá-los num período de vacas muito magras é do domínio do inacreditável, para quem tenha o mínimo de vergonha. Que terão pensado aqueles que começam a contar os cêntimos logo no início do mês? Que dirão, sabe-me dizer? Consegue perceber o que pensam? Basta andar pelas ruas, pelos autocarros públicos, pelos sítios onde pululam os sem abrigo ou as gentes arrasadas pela situação de precariedade em que vivem. Deixe-me contar um pequeno encontro casual exactamente num autocarro dos serviços de transportes de Coimbra, bem elucidativo do que acabo de afirmar, relato este já publicado:
“Dou um exemplo simples, de ontem mesmo, 21 de Novembro. Vou de autocarro ter com a minha neta à saída de aulas de formação em piano e canto. Olho à minha frente, vejo uma antiga funcionária de serviços públicos que bem conheço. Levanta-se vem ter comigo, onde havia lugar ao meu lado. Ia buscar o neto à escola, para o levar à piscina. E conta-me a existência de alguém que vive neste país como sendo um verdadeiro goulag. Ela própria, reformada, não vai ao jantar de Natal da Instituição onde se reformou porque lhe faltam os euros, Não recebe e-mail’s porque o seu computador se avariou e dinheiro para a reparação nem vê-lo. O seu filho? ‘Bom, o meu filho faliu’. Ficaram-lhe com a carrinha. Arranjou emprego por seis meses a 500 euros por mês, sem mais nada, nem subsídio de alimentação. Paga de dívidas mensalmente 200 euros! Corre o risco de lhe cortarem a água. Porquê? Porque rebentou um cano, a água correu, correu, a factura subiu, subiu, quase 300 euros. Não tem dinheiro para pagar a conta da água. E a sua nora. A minha nora teve sorte, foi substituir uma professora grávida que teve o azar de estar perante uma gravidez de alto risco. Por isso tem emprego até ao final do ano. É professora de ciências, precisa de um computador, o dela avariou. Não tem dinheiro para o reparar nem para comprar um tablet. Dá aulas numa cidade muito para lá de onde desagua o Tejo. Alugou quarto numa casa em que já está uma médica do Serviço Nacional de Saúde, uma enfermeira do mesmo serviço e uma analista de análises clínicas. Vem à sexta para estar com a família e vai no domingo a seguir ao almoço. O meu netinho chora muitas vezes de noite, a dizer que tem muitas saudades da mamã. Entretanto, o autocarro chegou à paragem do seu destino. Despeço-me, não sou capaz de pegar no jornal. Bolas para tudo isto, para esta precariedade infernal. É a da avó, reformada, que perdeu fortemente a já fraca qualidade de vida de que podia dispor, é o filho que de empresário passa quase a escravo, é a professora que teve a “sorte” da colega ter azar com a gravidez, é a médica que terá ido para Medicina a sonhar com qualidade de vida e que reparte algures no interior parte de uma casa alugada para poder suportar os custos. E o mesmo com as outras duas. E pergunto-me, o que serão os serões daquelas quatro mulheres? Um pouco como o degredo dos operários da Fiat e da siderurgia de Tarento. Um pouco diferente porque têm televisão! “
Casos como este passam-se muitos, aos milhares, por este país. Mas sabe, a dor não se grita, cala-se, sobretudo se é já a da pobreza, cala-se, não se ouve em S. Bento. Mas ouvem-se cá fora os silêncios do líder parlamentar do PS, Ferro Rodrigues, garanto-lhe que esses se ouvem, sobretudo por quem dele esperava uma outra coisa.
Poderíamos fazer aqui um longo texto sobre o que lhe faltou para explicar a identidade por si encontrada entre direita e esquerda. Mas não o faremos, poupar-lhe-emos o esforço de nos ler muito longamente sobre essa explicação do que lhe falta. Para isso deixo-lhe o texto de Bill Mitchell referente a uma sua participação num colóquio em Florença, ao lado do vice-governador do BCE Vítor Constâncio.
Ainda a propósito de Vítor Constâncio, o senhor primeiro-ministro no texto acima afirma: “A história recente do nosso país demonstra que contas equilibradas são condição de crescimento”. Vítor Constâncio em Florença afirmou, conforme relatado por Bill Mitchell: “Constâncio também alegou que uma das vantagens de flexibilização quantitativa (QE) era que esta iria empurrar a taxa de inflação e com um crescimento muito moderado dos salários nominais (leia-se estagnados), isto levaria à queda dos salários reais, o que poderia estimular o crescimento.”
Não há nenhuma diferença entre o discurso do senhor primeiro-ministro e o de Vítor Constâncio em Florença e, ambos comungam da mesma mentira, a de que a austeridade pode ser expansiva. Comungam pois do discurso da Troika. Mas os números são o que são e mesmo que maquilhados falam uma verdade que não se compadece com o discurso dos homens de Bruxelas ou dos seus fiéis servidores, o discurso de que a austeridade é expansiva. Trata-se de uma enorme mentira, criminosa mesmo direi, dados os devastadores efeitos que têm tido nos países onde estão a ser aplicadas. Por isso mesmo e neste contexto, não será nenhuma quantitative easing que nos dará a resposta da saída da crise, uma resposta que teimosamente se quer obter dentro do modelo que a gerou. Esta é uma das razões pelas quais direita e esquerda se confundem, isto é, partilham o mesmo erro, o mesmo modelo de política económica para não responderem à crise[2]. Por isso o senhor primeiro-ministro tem toda a razão, direita e esquerda oficial são equivalentes. Para tentarem responder às necessidades do eleitorado, colocam-se ambas, direita e esquerda, perante a mesma impossibilidade lógica, impossibilidade real, como de resto, a realidade no-lo mostra bem, para sair da crise, ao subordinarem-se às leis da Troika, da potência ocupante. Diferindo apenas nos timing’s da sua aplicação. Deixem-nos utilizar as estatísticas, diz-nos John Weeks. Façamo-lo então:
Como um exemplo do custo imediato da crise e apenas deste, olhemos para os efeitos das políticas de austeridade, e onde estas políticas foram até menos intensas, menos evidentes, os Estados Unidos. Diz-nos então John Weeks:
“ De 2000 a 2008 o PIB nos Estados Unidos cresceu, em média, de 2,3%, três anos depois do desencadear da crise, em 2008, temos em 2011 um valor do PIB inferior ao valor de pico de meados de 2008!
Gráfico I – Evolução do PIB Norte-americano (2000 – 2013)
Se a economia americana tivesse “gozado” de um crescimento nulo nestes três anos, ou seja, com o PIB ao nível de meados de 2008, o ganho em termos de rendimento acumulado teria sido de $ 800 mil milhões, ou seja, cerca de 2.000 dólares de rendimento perdido por habitante!
Se o PIB tivesse continuado a crescer aos 2,3 % pré – crise, taxa de crescimento inferior à que decorreu entre 1946 e 1999, o que teria acontecido? A resposta é dada no gráfico acima. Em ordenada temos o PIB em milhões de milhões de dólares, em abcissa, os anos a que nos estamos a referir. O rendimento seria então dado pela linha a ponteado e em 2013 atingiria 16 milhões de milhões de dólares, contra o verificado que foi de 14,9 milhões de milhões nesse mesmo ano. A diferença entre os dois valores daria o rendimento que nesse ano não se teria ganho com o rendimento a “não crescer” à taxa de 2,3%. Se somássemos os rendimentos não ganhos de todos estes anos, perdidos, isto daria qualquer coisa como 6,5 milhões de milhões de dólares!”
E não falamos dos custos a prazo por efeitos das destruições de capital humano reais ou futuras criadas pela crise ou pela incapacidade de lhe dar resposta. E estamos perante um país que não fez uma política de austeridade equivalente à da Europa, que fez quantitative easing e que deixou desvalorizar fortemente o dólar. Nenhumas destas políticas aconteceram na Europa. Estas são as estatísticas americanas, necessariamente bem melhores que as europeias, e está tudo dito quanto à austeridade expansiva, quanto à verdade oficial produzida por Bruxelas e difundida pelos seus servidores oficiais a nível de cada país.
(continua)
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