Hoje escrevo-lhe um tanto preocupado com o que se passa comigo. Conhece-me já há algum tempo. Embora não tenhamos falado muitas vezes cara a cara, as cartas que lhe tenho enviado, e a que faz o favor de responder, já lhe devem ter dado matéria mais do que suficiente para ter uma opinião fundada a meu respeito. Sabe que sou um homem com os pés assentes na terra (embora haja muita gente, aqui na vizinhança, e na faculdade, que me ache um sonhador, uns, completamente aéreo, outros), e não acredito em fantasias, bruxas, almas do outro mundo, ou outros disparates do género. Contudo, ontem fiquei com algumas dúvidas. Permita que lhe conte.
Ontem acordei bastante cedo, antes do habitual, a pensar em como é que havia de me arranjar para comprar uma prenda à Maria da Luz. Seriam aí umas sete e meia. Tenho pouco dinheiro, e para ela a prenda tem de ser jeitosa, como calcula. Deixei-me ficar na cama a pensar no assunto, e devo ter adormecido outra vez. Não sei exactamente quanto tempo depois, senti que me acordavam. Era a minha mãe, claro.
– Maurício, então, não te levantas? Já passa das dez…
– Vou já, mãe. Vou já.
– Anda comer. Tens tudo frio.
Levantei-me rapidamente e fui tomar o pequeno almoço à cozinha. A Heloísa olhava para mim com um ar sério.
– Vais hoje à faculdade? – Tinha um ar preocupado, a fazer a pergunta.
– Não. É sexta-feira, não tenho aula, e a Maria da Luz vai logo a seguir ao almoço para a Covilhã. Fico em casa a estudar, e a passar apontamentos a limpo.
– Podias aproveitar para ires comprar uma prenda para ela.
– Pois, é boa ideia. Mas que lhe hei de comprar?
– Talvez um perfume. Já vi que ela gosta.
– Sim… – ia-me descaindo a dizer que a minha amiga adora perfumes, e que os usa nas mais variadas situações, mas contive-me a tempo.
– Podias ir à Baixa, e ver de um assim bonzinho.
– Há muito tempo que tempo que não entro numa perfumaria. E quanto custará um assim bonzinho?
A Heloísa olhou para mim, com um ar ainda mais sério. Pareceu-me estar a medir qualquer coisa.
– Era bom que fosses tu a fazer a compra. De maneira a seres agradável para com ela, percebes?
Devo ter parecido atrapalhado. Então retomou o fio da conversa:
– Calculo que não tenhas dinheiro. Eu trato disso. – Foi à mala, que tinha pousada numa cadeira, puxou da carteira, e tirou duzentos euros.
– Toma. Isto dá e sobra. Tens é de escolher um de que ela goste.
Fiquei basbaque. Não consegui conter-me:
– Oh mãe! Tanto dinheiro! Será preciso?
– Não faças perguntas e vê bem o que fazes. Não deixes que te enganem. Agora vou às compras, que à tarde combinei com a Gertrudes e a Henriqueta encontrar-nos no café.
Os encontros no café são sacrossantos, só há direito a faltar por motivo de doença grave, de modo que nem me atrevi a murmurar. Fiquei ainda sentado mais um bocado, a acabar as torradas. Depois levantei-me e fui á varanda. Estava frio e ameaçava chuva, de modo que voltei para dentro, a pensar em mais este sarilho. Agora, eu, com uma data de dinheiro no bolso, a ter de ir à Baixa comprar perfumes! Como é que isto irá acabar?…era a minha grande dúvida. Fui para o meu quarto vestir-me, e a pensar em mais esta aventura. Pensei em ir-me sentar na sala a ler um tratado espesso, que trouxe da biblioteca, de que a Maria da Luz tirou uma data de apontamentos e me pediu para continuar. Ainda não tinha lido três linhas, quando a campainha tocou. Fui ver. E quem havia de entrar que parecia um tufão. Já adivinhou com certeza. A Maria Antónia!
– Bom dia, Mauricinho. Anda fugido. Não o vejohá que tempos. Já percebi que a serigaita é ciumenta. Deixe entrar. Está-se mesmo a ver. Quer marmelada até com a porta aberta, na escada, com a vizinhança a ver.
Deu-me uma palmada na mão com que eu segurava a porta, e que a impedia de entrar. Vinha realmente alguém a subir a escada, de modo que recuei, e ela entrou como um tufão, e só parou no meio da sala.
– Vi a mãezinha descer para ir à praça, com o saco. De modo que resolvi vir saber notícias suas, já que não liga aos pobres. Sobretudo a uma pobre como eu.
– Maria Antónia, tenho andado muito ocupado a preparar os exames. Tenho que acabar o curso este ano. Vou muitas vezes à faculdade e por isso é que tenho aparecido menos.
– A estudar anatomia com a namoradinha? Que rico menino que ele é!
– Está muito enganada.
Entretanto, começaram umas manobras que não lhe descreverei de maneira nenhuma. Para não estar calado, fui-lhe dizendo que de tarde tinha de ir á Baixa. Ela disse-me que ia à Generosa ver o que se passava, que a Henriqueta lhe tinha pedido, pois não sabiam nada dela havia mais de uma semana. Pelo telefone, não conseguiam manter uma conversa prolongada, por causa do movimento da pensão, e por receio de que o Álvaro, o irmão da Josefa, estivesse por perto, a dar fé do que se ia passando.
Meu caro, aposto que já adivinhou com quem fui à Baixa, e me escolheu os perfumes. Até lhe comprei um frasco pequenino. Por seu lado, ela fartou-se de dizer gracinhas sobre o perfume para a Maria da Luz, e as situações em que seria mais adequado usá-lo. À volta, passámos na pensão da Generosa, onde encontrámos a azáfama do costume, mas não vimos sombra do Álvaro. A Generosa pediu à Maria Antónia que informasse a irmã de que estava tudo bem com ela, e que estava a contar hoje, sábado, vir aqui à Rua do Ambrósio, fazer uma visita à irmã e ver as pessoas amigas.
Cheguei a casa ainda antes da Heloísa. O mais curioso foi que, à noite, quando contei as minhas actividades (todas não!) à Heloísa, ela achou tudo bem. Incluindo o frasquinho de perfume que ofereci à Maria Antónia. Não acha estranho? As coisas acontecerem assim…

