Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Eu não sou Charlie
Eu não sou Charlie, dissemo-lo desde partida. Domingo vai haver eleições em França, uma eleição parcial, devido à saída de Moscovici para Comissário Europeu. François Hollande e o seu bando bem tentaram evitar esta eleição mas a Constituição obriga. A saída de Moscovici não permite que este seja substituído pelo candidato suplente. Exige a eleição na sua circunscrição para aquele lugar. Já se deu a primeira volta e ela mostrou uma nova realidade, o novo arco do poder, o sistema UMPS, saído de Eu sou Charlie, uma combinação de UMP, o partido de Sarkozy, e de PS. Juntando as duas siglas, teremos o novo sistema.
Lamentamos que assim seja, mas a verdade aí está à vista, a relembrar a jornada de 11 de Janeiro,a relembrar Eu sou Charlie, agora transposta para o plano político com a eleição legislativa parcial a ser tomada eleitoralmente como “um teste nacional do espírito de 11 de Janeiro.”, ou seja o sistema UMPS! E os candidatos são o do PS e o da Frente Nacional. Com estas eleições, se a FN ganhar o PS perde a maioria absoluta, por troca com um tacho e uma boa reforma, depois, para Pierre Moscovici!.
Só poderemos aqui relembrar a frase de Valls segundo o qual a esquerda vai morrer. Talvez UMPS seja a bandeira que irá envolver agora o seu caixão em França. Até que Povo a ressuscite.
Júlio Marques Mota
Coimbra, 5 de Fevereiro de 2015
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Legislativas parciais em DOUBS
Um sério aviso para a UMP
Hervé Montbard, LÉGISLATIVES PARTIELLES DANS LE DOUBS- Un sérieux avertissement pour l’UMP
Revista Metamag, 2 de Fevereiro de 2015
Os resultados da primeira volta na legislativa parcial da 4.ª circunscrição de Doubs, destinado a escolher o sucessor de Pierre Moscovici, soa como uma advertência para a UMP. É a lição principal desta eleição. Por um lado, o seu candidato é eliminado enquanto que estava convencido que iria ganhar o lugar na segunda volta e, por outro lado, coloca o partido de Nicolas Sarkozy face a uma escolha bem difícil.
O candidato UMP Charles Demouge era incontestavelmente a pior escolha para o seu partido. Ele conseguiu desconsiderar-se por declarações particularmente dolorosas do estilo “é a bela loira que me chateia, não as pessoas da imigração” ou ainda “à segunda volta se for necessário irei apelar para que votem pelo partido socialista contra a Frente Nacional” antes de ser convidado pelas suas instâncias nacionais a moderar as suas afirmações. Obviamente este candidato a deputado estava convencido que estaria na segunda volta e preparava o terreno, e a finalidade seria a de convencer os eleitores procedentes da imigração e de permitir aos socialistas que não hesitassem em votar por ele. Queria ser eleito por um eleitorado que não é o do seu partido, a UMP, considerando que este último por conseguinte não se tenha deslocado. Demouge terminou este 1º de Fevereiro a sua carreira política depois de ter demonstrado que tinha como única ambição a de ser eleito e de que não tinha nenhuma convicção política.
A UMP vai juntar-se ao que os socialistas chamam “a frente republicana”?
Escolha eminentemente suicida que permitiria à Marine Le Pen continuar com razão a falar do sistema UMPS, à maioria dos eleitores de direita e mesmo aos do centro, interrogando-se sobre este conluio dificilmente compreensível com o poder socialista. É então muito provável neste caso que os factos mostrem que os eleitores da UMP não venham a estar dispostos a seguir as directivas do seu partido que perderia, assim, um pouco mais da sua credibilidade. Além do mais, a fractura entre a ala esquerda, especialmente UDI e Nathalie Kosciusko-Morizet e a ala direita que vai de Guaino até Wauquiez, não poderá deixar de se acentuar e poderá culminar nas primárias que deveriam designar o candidato à presidência da República de 2017. Isto pode ser mesmo o prelúdio de uma cisão entre as 2 correntes que se mantêm sob a mesma bandeira por razões puramente eleitoralistas enquanto que muitas ideias e convicções as põem em oposição.
O partido de que Nicolas Sarkozy é o presidente irá ele apelar à abstenção de terem que escolher entre “a peste e a cólera”, ou seja escolher votar branco ou nulo, ou seja absterem-se? Atitude pouco responsável que desagradará às duas grandes correntes que se opõem no partido. É esta perspectiva – dita de Nem-Nem, (Ni-Ni em francês) que é a mais provável que a direcção política do Partido poderá ratificar na Terça-feira 3 de Fevereiro.
Última hipótese que seria a mais hábil no plano estratégico, a UMP poderia deixar os seus eleitores e militantes livres da sua escolha, argumentando nomeadamente que não é proprietário dos votos dos que votaram pelo seu candidato e que cabe a cada um deles determinar onde irá votar. Porque efectivamente se entende que não é nenhum problema para a UMP apelar para que se faça uma barragem aos socialistas… A UMP e os seus aliados devem doravante escolher o seu campo: aceitar as disposições do sistema UMPS ou encarar entenderem-se caso a caso com a Frente Nacional. No estado actual da opinião pública qualquer outra escolha poderia ser-lhes fatal.
O segundo ensinamento tem a ver com o PS que grita vitória
É um pouco fácil para um partido que perdeu quase 10.000 votos relativamente à primeira volta de 2012 onde ele tinha chegado em primeiro lugar e que agora chega em segundo lugar, atrás da Frente Nacional. O PS ainda não ganhou, mas é a UMP que perdeu toda a credibilidade neste escrutínio por culpa do seu candidato. Muitos dizem que é a primeira eleição parcial desde 2012, onde o candidato da maioria presidencial não é eliminado desde a primeira volta, mas em primeiro lugar, esta afirmação é falsa porque quando se deu a legislativa parcial de Saint-Pierre e Miquelon, é Stéphane Claireauxle candidata da esquerda Radical que ganhou em Junho de 2014, e aqui é, de certa forma, o candidato Frédéric Barbier (o candidato Frédéric Barbier ocupava já o Palais Bourbon como suplente de Pierre Moscovici) que se disputa, o que não foi o caso em outras eleições onde o PS foi eliminado na primeira volta. O mesmo resultado inesperado para os socialistas não é, portanto, o de uma vitória como eles anunciam.
Mas quase que nos esquecíamos de que a FN é o partido que na primeira volta ficou em primeiro lugar. É o partido que perdeu menos votos em relação às eleições anteriores: menos de 1.600 votos, apesar de uma abstenção recorde
Este resultado indica duas coisas :
– Os eleitores da FN estão muito ligados aos seus votos, portanto, confirmando que o seu empenhamento representa um voto de adesão e de fidelidade, o que contradiz claramente as análises dos pseudo – politólogos que explicam, diariamente, que o voto tomado como sendo de extrema-direita é uma atitude de sanção da classe política. A Frente Nacional é bem, neste momento, o primeiro partido da França nas intenções de voto e nos sufrágios expressos.
– Então a estratégia socialista, que foi a de excluir a FN no chamado dia da União Nacional de 11 de Janeiro e de tentar explicar que Marine Le Pen tinha recusado em participar nela foi um fracasso retumbante. Se esta forma de agir tivesse sido eficaz, FN teria tido uma percentagem mais baixa de eleitores e a UMP e o PS teriam tido a sua oportunidade.
O resultado da segunda volta irá permitir que se tirem novas lições e em que estas não devem ser subestimadas. Obviamente uma legislativa parcial não é um teste nacional. Uma vitória socialista seria lógica mas se Sophie Montel se tornar a terceira deputada «patriota» isso iria corrigir uma anomalia democrática que vê um partido capaz de reunir vários milhões de eleitores estar sub-representado nos órgãos parlamentares.
Hervé Montbard, Revista Metamag, LÉGISLATIVES PARTIELLES DANS LE DOUBS- Un sérieux avertissement pour l’UMP.
Texto disponível em :
http://metamag.fr/metamag-2635–L%C3%89GISLATIVES-PARTIELLES-DANS-LE-DOUBS.html
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ELEIÇÕES DE DOUBS : DA UNIÃO NACIONAL À UNIÃO POLÍTICA
A classe política novamente a cair para o lado que mais lhe agrada
Raoul Fougax, ELECTION DU DOUBS : DE L’UNION NATIONALE A L’UNION POLITICIENNE. La classe politique à nouveau tombée du coté où elle penche
Revista Metamag, 2 de Fevereiro de 2015
De carro, na noite de domingo por obrigação profissional, encontrei-me a ouvir France Info. Incómodo, para não dizer entristecedor.
Num primeiro tempo, apesar do jogo de Handebol Qatar-França, esta eleição legislativa parcial foi apresentada como “um teste nacional do espírito de 11 de Janeiro.” Foi perfeitamente esclarecedor, sobre a interpretação dos media sobre o espírito de 11 de Janeiro. Para todos aqueles que ainda não o tinham compreendido, a unidade nacional depois dos assassinatos de jornalistas esquerdistas, de polícias, de guardas de segurança e de consumidores judeus por terroristas islâmicos, foi dirigido contra a Frente Nacional. Seria a Frente Nacional que ameaçaria o “viver juntos”, mais ainda, finalmente, do que aqueles que nos querem impor a burca e a Sharia. Ficou bem entendido, mas era evidente nos comentários de especialistas escolhidos pela cadeia contínua de informações partidárias.
Vai-se ver o que se ia ver. O povo de esquerda mais motivado e orgulhoso do seu governo iria redefinir o relógio eleitoral antes da próxima eleição departamental. E depois nada, ou quase… um silêncio envergonhado mais apelos dos enviados especiais condenados ao desemprego de cidadania por causa destes resultados não-conformes com as expectativas.
E então nós ficamos a saber que estarão na segunda volta o candidato da FN e do PS. Antes de saber a percentagem do candidato da FN, largamente `à frente do candidato PS , tem que se ter paciência. E então face à realidade, a uma abstenção muito forte e a uma forte percentagem da FN, é necessário decidirem-se a reconhecer que o espírito confiscado politicamente do dia 11 de Janeiro já foi à viola, já se esfumou , já desapareceu. E esta é a confissão.
A União Nacional volta a ser o que ela sempre foi, finalmente: uma frente de políticos UMPS rebaptizada novamente de Frente Republicana. A mediocridade retomou todos os seus direitos e o espírito de ‘ Charlie ‘ é chamado de volta para o resgate e assim evitar que a FN ganhe um terceiro deputado. “Que desafio! O espírito de Charlie é invocado para obrigar moralmente a UMP de Sarkozy, que conhece o seu primeiro contundente fracasso, a apoiar o candidato do PS, para assim se voltar à casa zero na política. Nicolas Sarkozy tem um encontro marcado com “o espírito de 11 de Janeiro”. O resultado da primeira volta na legislativa do Doubs acaba de lhe oferecer uma segunda possibilidade , uma oportunidade para estar de acordo com a mensagem escrita sem nenhuma vergonha pelo OBS que insiste em se mostrar a ser fiel à mensagem da “marcha republicana” . O antigo chefe de Estado deve apelar aos seus eleitores de Doubs a baterem a extrema-direita. Assim, nem mais nem menos!
Diante deste beco sem saída eleitoral do assim chamado de “sobressalto republicano”, uma espécie de Primavera árabe que durou três dias, os terroristas emboscados e a prepararem o seu próximo massacre em nome de seu obscurantismo religioso devem bem estarem-se a rir – bem, eles não têm uma pitada de humor – mas eles devem estar a gozar com esta mobilização massiva que leva a uma eleição legislativa parcial em Doubs.
Na verdade, a disputa de um lugar à FN está à altura do desafio islâmico, não?
Raoul Fougax, Revista Metamag, L’UNION NATIONALE A L’UNION POLITICIENNE-La classe politique à nouveau tombée du coté où elle penche, 2 de Fevereiro de 2015.
Texto disponível em:


