UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (75)

CARTA DO PORTO

O CARNAVAL JÁ LÁ VAI, CHEGOU A QUARESMA

A propósito deste Carnaval de 2015 e da pobreza de festas que se viveu na minha cidade, lembrei-me do Carnaval de Outros Tempos.
No Porto, vivia-se o Carnaval com alegria e em força.

Bruegel - A luta entre o Carnaval e a Quaresma
Bruegel – A luta entre o Carnaval e a Quaresma

Na festa do “Adeus à Carne”, concentravam-se os festejos populares, de acordo com os costumes de cada um. Nos três dias de festarola, os dias “gordos”, com especial incidência no último, a terça-feira gorda, fazia-se de tudo o que era permitido, e o que não o era, como compensação do período que estava a chegar, a Quaresma, onde tudo, em especial a carne, é proibido. A quarta-feira de cinzas marca o seu início.
O Carnaval (terça-feira gorda) ocorre 47 dias antes do dia de Páscoa, e este no primeiro Domingo após a primeira lua cheia que se verificar a partir do equinócio da Primavera (no hemisfério norte).
O Carnaval teve a sua origem nas festas Saturnálias, na antiga Roma, onde tudo era, mesmo, permitido. Com o aparecimento e expansão do Cristianismo, surgiram as primeiras censuras a esse tipo de festejos, passando, a festa, a ser marcada pela ideia de que a “carne” nada valia.
O Carnaval moderno, feito de fantasias e de desfiles, começou em Paris e depressa se vulgarizou em Veneza e em outras cidades espalhadas pelo mundo, sendo que estas duas cidades foram os grandes modelos exportadores da festa carnavalesca.
Actualmente o Carnaval do Rio de Janeiro, assim como o de Veneza, são os mais importantes a nível mundial.
O de Veneza, o mais importante e famoso de toda a Europa, remonta, parece, ao ano de 1162, como celebração da vitória sobre Ulrico, quando este invadiu a cidade. As celebrações efectuavam-se na Praça de S. Marcos, na Sexta-feira Gorda, numa grande festa que incluía banquetes, danças, espetáculos de acrobacias, truques de magia e marionetas, entre outros. Esta festa continuou por muitos séculos até que no século XVII foi enriquecida em termos de música, cultura e vestuário rico e exótico. As belíssimas máscaras estiveram, durante centenas de anos, associadas à tradição e à fantasia do Carnaval e muitas delas tornaram-se famosas fazendo mesmo parte da “Commedia dell’Arte”.

O do Rio de Janeiro, o maior do mundo, e provavelmente o mais prestigiado, exporta os seus desfiles populares por tudo quanto é lugar. O Carnaval brasileiro é uma das grandes referências da cultura do País.

Em Portugal, nos últimos anos, vários empresários trouxeram o modelo brasileiro para as nossas terras, esquecendo as nossas origens, fazendo perder as características improvisadas e subversivas que as definiam, e obrigando muitos dos que desfilam a estarem quase despidos/as, tiritando de frio no nosso Inverno, felizmente ameno.
Os nossos desfiles mais famosos são os da Mealhada, de Torres Vedras, de Loulé, de Ovar e do Funchal. A sátira social e política continua a ser o instrumento privilegiado dos foliões portugueses.

Mas ainda há quem brinque ao Carnaval segundo as suas origens e cultura. Refiro-me aos Caretos transmontanos, que terão raízes Celtas, de um período pré-romano.
Para quem não sabe, ou se esqueceu, os caretos são homens disfarçados, que andam pelas ruas das povoações com uma máscara, fazendo-se de diabos à solta ou de criaturas do outro mundo que fazem muito barulho e perseguem as raparigas solteiras, com o intuito de lhes meter medo. Aparecem no Carnaval, mas também podem aparecer no Natal. Andam em grandes grupos e as máscaras são feitas de madeira, de latão ou de couro e muito feias. Vestem velhas colchas de lã transformadas em fatos de cores fortes como o verde, azul, preto, vermelho e amarelo (tudo às riscas). Para chamar a atenção e fazer todo o barulho que lhes é característico, usam grandes chocalhos pendurados na cintura e guizos nos tornozelos. Diz a tradição que nos dias em que os Caretos saem à rua, as meninas solteiras ficam em casa, resguardadas, a vê-los através das vidraças das janelas. Por isso, eles, valentes e destemidos, trepam pelas varandas acima, para irem ter com elas. Também os donos das adegas são alvo dos Caretos, que os obrigam a abrir os pipos e a fornecerem bebidas a todos eles.

No Porto, também já tivemos desfiles. O dos Fenianos era famoso, ombreando em beleza e diversidade com o da Queima das Fitas.

Ainda hoje há muita gente que não esqueceu o cortejo carnavalesco dos Fenianos. Milhares de pessoas nas ruas, festa de arromba, em grande parte custeada pelos comerciantes da cidade. Durante as décadas de 50 e 60, os cortejos, que tinham começado nos anos 30, alegraram tudo e todos. Foram os anos dourados do Carnaval da cidade. Depois, e durante cerca de vinte anos não se realizaram, até que, nos anos 80, voltaram, já sem a glória antiga.

Nesta última Terça-feira fui dar uma vista de olhos pela cidade.
Percorri o centro duas vezes, uma por volta do meio dia e outra cerca das cinco da tarde.
Era o último dia de Carnaval, mas nem parecia. Na primeira passagem, meia dúzia de criancinhas passeavam mascaradas, e na segunda vez, eram já perto de quarenta, espalhadas pela Avenida dos Aliados e no meio de algumas centenas de pessoas.
Adultos mascarados, vi três, um Mosqueteiro, uma Mulher Polícia e uma Bêbeda.
Mas o que mais me chocou, não foi o reduzido número de máscaras, nem tão pouco a repetição de princesas (Sofia e Elsa), de piratas, de palhaços e de diabos que se traduziam numa reduzidíssima imaginação (vá lá, vi um Crocodilo, e um Rei, o que me fez sorrir). O que mais me incomodou foi ver, com a excepção de dois dos três adultos mascarados, a cara de tristeza e de fastio que, tanto as criancinhas como os adultos que as acompanhavam, traziam estampados no rosto. Estavam a fazer um frete do tamanho do mundo. Foi de tal modo deprimente que resolvi não tirar fotografias.

Hoje, no Porto, passamos a época carnavalesca quase sem dar-mos por isso. O Carnaval das genuínas tradições culturais já só acontece longe das cidades, nas aldeias do país real.

Para nós a Quaresma chegou mais cedo, o que é pena!

 

 

 

11 Comments

  1. Para festejar o Entrudo, é ir por essas aldeias fora, até aos anos 50 e 60, que eu vivi. Aí, foliava-se, pois não havia televisão, corsos e outras importações tão típicas de deslumbrar um povo permeável à novidade espertalhona ( o Halloween também foi importado, os martelinhos de S João também destronaram o alho porro e a cidreira). Mas há mais entrudo por aí fora…OREMOS

  2. Interessante abordagem “carnavalesca”.Mas,depois dos Fenianos…e com a política da troika…secaram-nos
    tudo,até o prazer da diversão e da critica social e política.A maioria dos adultos utiliza uma ou várias máscaras
    durante todo o ano,ié: “vivem ou sobrevivem no carnaval da vida permanentemente”…

    1. É verdade que muitos adultos se mascaram durante todo o ano, até no Carnaval. Não o disse na crónica, mas vi muita gente mascarada de gente séria, outros de honestidade, outros de bondade e ainda outros de solidariedade, mas isso, se calhar, só os meus olhos viram.
      Grande abraço

  3. Uma verdadeira história do Carnaval confirmando o que disse um filósofo barbudo : só existe uma ciência, a ciência da História! E quando é contada com arte roça o absoluto.
    Obrigada, José Magalhães por essa iluminação inteligente do Carnaval, que é muito mais do que o nosso pobre luxo (pago por dinheiro escuso) ,samba e rebolado.
    Obrigada, sua aula muito me enriqueceu.
    abraço da
    Rachel Gutiérrez

  4. Fabuloso percurso sobre o Carnaval -uma narrativa pormenorizada sobre um evento ,outrora ,de grande relevo .
    Obrigada pela referência ao Carnaval que ainda vibra em terras nortenhas .Obrigada ainda pela lição -Maria

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