A GALIZA COMO TAREFA – Emigrantes – Ernesto V. Souza

Castelao.-El-emigrante.-1916

Característica quase definitória da Galiza é a grande densidade de uma população dispersa em núcleos nodais e pequenos núcleos, ainda manifesta na alta concentração de topónimos e micro-topónimos habitados, semi-habitados ou já abandonados.

Companheira desta característica é a emigração. Emigração que durante séculos foi considerada um recurso mais que a Galiza destinava  a exportação e que ainda nos dous últimos séculos serviu, em não poucas ocasiões, na dupla função de sangria de um excedente conflituoso de população e angariação de divisas que se enviavam à família ou de repatriação de capitais na hora não infrequente do retorno.

A conflitualidade social e as mudanças políticas nos países da América durante os séculos XIX e XX, o intervencionismo estrangeiro, normalmente norte-americano e a necessidade da reconstrução europeia nas décadas de 50 e 60 do século anterior marcaram os fluxos. Após uns anos, em realidade apenas duas ou três décadas 1980-2010 em que a emigração remetera, houvera retornos (alguns acidentados a respeito de direitos e a fazenda pública) a emigração galega volve ser um fenómeno “característico”.

É indubitável que a emigração faz parte da nossa identidade nacional, provavelmente mais do que se considera e muito mais do que se quer reconhecer. Tanto na configuração da identidade associativa, como política, como linguística e literária; as tradições, as identificações e a própria percepção dessa identidade, quanto os modelos associativos dos nacionais, têm destacadíssimos exemplos na emigração. Madrid, Havana, Buenos Aires, Montevidéu, Barcelona, Zurique, México, Bilbo, Caracas, são cidades presentes nas conversas familiares e espaços em que têm despertado ou amadurecido muitas das grandes vozes da cultura galega.

O impacto dos galegos na cultura Latino-americana, o impacto dessas culturas efervescentes na Galiza, pensamento, tradição e jeito de fazer crítica, literatura e política nos galegos, dista muito de ter sido bem estudada e analisada, e ainda menos de ser analisada na sua troncalidade estrutural de caminho de idas e voltas, de ativos agentes, receptores privilegiados de formações e novidades; informantes destacados e introdutores delas na Galiza, reforçando essa centralidade no meio do Mundo Atlântico e não como elemento decorativo ou periférico.

A renúncia ao capital cultural da emigração e do exílio galego tem sido também outra das funestas tragicomédias do franquismo e a Transição espanhola. A “Normalização” cultural da cultura galega (a eliminação do conflito político cultural) no Tardo-franquismo e na Transição, paralela à construção do cânone histórico, literário e linguístico passou também por domar, apagar ou confundir o rastro de todos os galegos e das suas instituições, ora na sua centralidade e fidelidade em épocas escuras, ora no facto da sua existência e realidade fora dos limites constrangedores da política e cultura Espanhola.

A emigração, como tantas outras é uma solução individual a um problema coletivo. Porém a magnitude do fenómeno em números absolutos e tanto como elemento, elo e temática identitária, quanto como mensagem de resposta e protesto a uma realidade desacougante e conflituosa, convertem-no numa realidade a considerar.

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