ENTRE A FORÇA ASSASSINA DE UM GOLIAS (A ALEMANHA) E A RECTIDÃO MORAL DE UM DAVID (A GRÉCIA DE SYRIZA)… – SYRIZA E A INDEMNIZAÇÃO DA GUERRA DA FRANÇA COM A PRÚSSIA em 1871-73, por MICHAEL PETTIS – VI

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Entre a força assassina de um golias (a Alemanha) e a rectidão moral de um david (a Grécia do Syriza)…

Syriza e a indemnização de guerra da França com a Prússia em   1871-73

Michael Pettis, Syriza and the French indemnity of 1871-73

Blogue m.pettis, 4 de Fevereiro de 2015

(conclusão)

VIª Parte  Quem está a lutar  contra quem?

Não estou a  rejeitar  a afirmação  de que “a Espanha” agiu de forma irresponsável, ou, por  outras palavras, não estou a colocar a culpa apenas  na  irresponsabilidade “alemã”. Mas é também absolutamente errada a posição assumida por  Volker Kauder, líder inter-parlamentar  do Partido Democrata Cristão da chanceler alemã, Angela Merkel, ao dizer, de acordo com um artigo publicado na Bloomberg da semana passada, que “a Alemanha não tem qualquer responsabilidade pelo que aconteceu na Grécia. O novo primeiro-ministro tem de reconhecer isso.” Houve de facto uma abundância de comportamentos irresponsáveis de ambos os lados, a riqueza  foi transferida dos trabalhadores de ambos os países para criar o boom,  e para absorver o fracasso subsequente, e a  riqueza será transferida, de novo, das famílias  da classe média  de ambos os países para limpar o desastre total que é o montante da dívida daí resultante.

Dito de outro modo, não há virtude ou vício nacional aqui, e não há nenhuma razão para que a crise europeia faça cair o sistema nas mãos da  extrema-direita  ou dos extremismos nacionalistas.  A crise financeira na Europa, como todas as crises financeiras, é em última análise, uma luta para decidir sobre quem vão recair os custos do ajustamento, quer sobre os trabalhadores e aforradores da classe média ou sobre os banqueiros, donos dos  activos reais e financeiros e a elite empresarial. Porque os grandes partidos se recusaram a reconhecer a natureza deste processo de distribuição dos custos de ajustamento e transformaram a situação  numa  luta  entre o credor, a  Alemanha, por um lado, e os  países europeus periféricos endividados por outro lado, eu era capaz de fazer em 2010-11 uma das previsões mais fáceis que já fiz na minha carreira – quaisquer que sejam os partidos extremistas, sejam de direita ou de esquerda, quem  pela primeira vez tomar  a ofensiva contra a Alemanha, contra  os banqueiros e os burocratas monetaristas, foi o que então afirmei, apareceria com  popularidade eleitoral e acabaria por reformular o debate.

É por isso que a questão do perdão da dívida deve ser primeiramente reformulada pelos partidos centristas. Duas premissas são fundamentais para o argumento de que a Espanha (ou a Grécia, ou qualquer outro país) tem a obrigação moral de reembolsar integralmente a sua dívida para com a Alemanha. A primeira pressupõe que é  “a Espanha” que pediu o dinheiro  emprestado à “Alemanha”, e que há uma obrigação colectiva por parte da Espanha em  reembolsar  colectivamente a Alemanha. A segunda premissa  é a de que a Espanha teve uma possibilidade de escolha no que poderia fazer com o dinheiro alemão  que entrou no país  e  que,  por isso,  deve ser considerada  responsável pelo facto de que os dinheiros tão duramente aforrados pelos alemães foram mal utilizados pelos espanhóis.

A primeira hipótese é, penso eu, facilmente eliminável.  A  Alemanha exportou capital, porque reprimiu  o crescimento dos salários, Berlim garantiu os lucros elevados e o baixo consumo, o  que forçou  as suas taxas de poupança nacional. Em vez de utilizar estas poupanças para investir no aumento da produtividade dos trabalhadores alemães (na verdade, o investimento doméstico diminuiu), este foi oferecido seja  para financiar o consumo alemão a  altas taxas de juros reais (e não foram poucos os tomadores de empréstimos),  ou para,   através dos  bancos alemães e espanhóis, este  mesmo  capital ser  oferecido a outras famílias europeias para o seu consumo ou a outras empresas europeias para poderem  investir .  As ofertas foram retomadas de maneiras diferentes por diferentes países. Nos países onde as taxas de juros reais oferecidas eram muito baixas   ou mesmo  negativas, os empréstimos foram mais amplamente concedidos  do que em países onde as taxas de juros reais eram muito mais elevadas. Agora, atribuir essa diferença às preferências culturais, em vez de  a  atribuir à  dinâmica do mercado, não faz muito sentido.

O que começou inicialmente de modo lento, rapidamente se acelerou e,  mais uma vez, por razões de dinâmica do mercado. Como o enorme afluxo de capitais a  Espanha estimulou o mercado de acções e o do imobiliário, algumas famílias espanholas, sentiram-se  mais ricas, com mais património, e passaram a não ter problemas em contrair empréstimos  para aumentar o seu consumo, e muitas famílias e empresas espanholas contraíram empréstimos  para aquisição de bens de raiz. No delírio  consumista subsequente, os padrões de concessão de crédito entraram em colapso, com os  bancos espanhóis e alemães a lutarem para ganhar quotas de mercado, e com o optimismo a aumentar fortemente, o consumo cresceu fortemente e atingiu   níveis insustentáveis até que, finalmente, a Espanha foi tão para além dos limites que  entrou em colapso. A mesma história pode ser contada noutros lugares. Na verdade, isto foi igualmente o que aconteceu na Alemanha após a indemnização francesa.

Quanto  à segunda hipótese, a de que a  Espanha tinha outras escolhas,  esta hipótese deve ser rapidamente rejeitada. Claramente, os agregados familiares espanhóis e os empresários espanhóis, em geral e globalmente,   comportaram-se, retrospectivamente,  com uma falta de cuidado e de prudência fortemente surpreendente. Mas poderiam ter feito de outra maneira — tiveram alguma hipótese de escolha? Muito seguramente não tiveram outra escolha. A Alemanha também não a teve quando recebeu a indemnização francesa, e eu não penso que haja muitos, se é que os há,  exemplos de países que tenham conseguido absorver de um modo produtivo entradas tão maciças de meios de financiamento.  Em todos os casos de que me lembro as entradas maciças de fundos foram sempre acompanhadas por  bolhas especulativas e por crises financeiras. .Mesmo os EUA no século XIX – precisaram  urgentemente de capital estrangeiro para financiar uma enorme quantidade de investimentos produtivos que não poderiam ser financiados com poupança interna, tornando-se este pais no melhor candidato possível para receber enormes entradas de capitais estrangeiros — não foram capazes de absorver tão enormes entradas rápidas de capitais estrangeiros  sem ver a criação de bolhas, assim como a existência de investimento e as consequentes  as crises financeiras.

É razoável insistir em que o fracasso da Espanha para escolher um caminho diferente  que nenhum outro país na história parece já ter escolhido indica uma maior irresponsabilidade por parte dos mutuários do que dos credores? Tendo em conta  que há sobre esta questão um leque muito diversificado de pontos de vista entre os indivíduos e as empresas espanholas  sobre as perspectivas para o futuro, um mix de optimistas e pessimistas, diferentes níveis de sofisticação financeira diferentes, pessoalmente penso  que seria historicamente sem precedentes, se pelo menos algumas entidades espanholas não tivessem reagido de forma tão estúpida como o fizeram às ofertas agressivas de crédito extremamente barato, especialmente, porque este crédito barato tinha sido colocado no  boom imobiliário.

Em resumo, penso existirem vários pontos que aqueles que,  como  nós, querem  que a “Europa”  sobreviva  devem ter presentes:

  1. A crise do euro é a crise da Europa, e não dos países europeus. Não é um conflito entre a Alemanha e Espanha (e eu uso esses dois países para representar todos os países europeus, os que estão de um lado e do outro do boom) nem sobre quem deve ser considerado irresponsável ou não, e assim não deve haver  um conflito sobre quem deve absorver os enormes custos de quase uma década de má gestão. Havia uma tal abundância de comportamentos irresponsáveis em todos os países e é tão absurdo pensar que, se os bancos alemães e espanhóis estavam a aplicar quantidades quase ilimitadas de dinheiro nos países com taxas de juros reais extremamente baixas ou negativas, especialmente quando estas entradas iniciais tinham ultrapassado, e de longe,  todos os limites nos mercados bolsistas e de bens de raiz, criando-se e dinamizando verdadeiros booms na bolsa e  no imobiliário, não havia  nenhuma  possibilidade de que esses países não pudessem responder de forma diferente da dos outros países na história, incluindo a Alemanha na década de 1870 e na década de 1920, que respondeu de forma semelhante a condições também elas semelhantes.

  2. Os verdadeiros “perdedores” neste sistema até agora têm sido os trabalhadores alemães e espanhóis e, no futuro, serão os aforradores  da classes média alemãs e espanhola e os contribuintes, claro está,   se os bancos europeus forem directa ou indirectamente resgatados. Os vencedores foram os bancos, os proprietários de activos e os grandes empresários, principalmente na Alemanha, cujos lucros foram  muito mais elevados durante a última década do que seriam se as coisas tivessem corrido de outra maneira.

  3. De facto, a actual crise europeia é aborrecidamente semelhante à de quase todas as crises dos mercados cambiais (divisas) e das  dívidas públicas na história moderna, na medida em que colocam os interesses dos trabalhadores e dos pequenos produtores contra os interesses dos banqueiros. Os primeiros desejam salários mais elevados e um rápido crescimento económico. Os banqueiros  pretendem proteger o valor da moeda e salvaguardar o aspecto diríamos religioso da dívida  soberana.

  4. Eu não sei o suficiente para dizer com segurança qual dos lados está certo. Houve casos na história em que os banqueiros provavelmente estavam certos e houve  casos em que os trabalhadores  estavam provavelmente cheios de razão. Posso dizer, no entanto, que os precedentes históricos sugerem duas coisas muito óbvias. Em primeiro lugar, tanto quanto  a Espanha evidentemente sofre com  o peso actual  da sua dívida, não importa quão inteligentemente e com que  força são aplicadas as reformas económicas. A Espanha não será capaz de crescer no quadro desta dívida e terá que escolher  entre dois caminhos. Um dos caminho envolve muitos, muitos mais anos de inferno económico, como as famílias normais a serem  lentamente forçadas  a absorver os custos da dívida – às vezes de forma explícita, mas geralmente de forma implícita sob a forma de repressão financeira, de desemprego e de monetarização da dívida. O outro caminho é  o de uma resolução rápida da dívida, através da sua reestruturação  acompanhada de um perdão  parcial através de um processo disruptivo,  mas curto, após o qual o crescimento voltará e quase certamente com grande vigor.

  5. Em segundo lugar, é da responsabilidade dos principais partidos do centro do espectro político reconhecer explicitamente as opções a tomar. Se o não fizerem, serão os partidos extremistas, de direita ou de esquerda, que assumirão o controle do debate, e converterão o que é um conflito entre sectores económicos diferentes ou num conflito entre nações ou num  conflito de classes. Se estes  vencerem, eles irão determinar e declarar o fim da Grande experiência que é o projecto da União Económica e Monetária.

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Deixo os  meus leitores com três perguntas e  espero que as possamos  discutir na secção dos  comentários:

  1. Se uma grande quantidade de capital, igual digamos a um valor entre 10 e 30% do PIB anual de um país, é forçosamente distribuída por um enorme grupo de entidades dentro do país, num  curto período  de tempo, e se a única maneira através da  qual este capital é distribuído  é pela via  de  uma grande variedade de bancos, com enviesamentos  de tal forma,  que quanto  mais optimista   e irresponsável for o  banco , mais elevados serão os lucros e quanto mais  optimistas e irresponsáveis forem os  mutuários, mais estes  recebem como empréstimos, tem sentido referirmo-nos a um e a outro lado  como agentes que tiveram um  comportamento  “irresponsável”, e, se assim for, a qual lado? Isto parece uma  questão muito carregada, muito  densa? Se assim for, como  pode ela ser reformulada de forma menos carregada?

  2. Tem havido muitos casos de grande reciclagem de capital na história – apenas nos últimos 100 anos, eu posso pensar na reciclagem do excedente comercial dos EUA para a Alemanha e noutros países na década de 1920, na reciclagem de petrodólares para a América Latina na década de 1970, e na reciclagem para os EUA do excedente comercial japonês na década de 1980 e depois do excedente comercial da China na década de 2000. Todas elas foram acompanhadas no país beneficiário por bolhas nos mercados de acções, de obrigações e também no do  imobiliário, assim como foram acompanhadas  de sobre-consumo e de sobre-investimento, digamos, de investimento  objectivamente desperdiçado. Terá havido casos de  grande reciclagem de capital que não  tenham   terminado em lágrimas para os paraísos de destino? Se os  houve , em que é que estes países  eram diferentes?

  3. Que diriam sobre o outro lado da reciclagem? Na maioria dos casos o país que faz a reciclagem ficou igualmente sujeito à realidade das bolhas e da dívida em alta . Houve casos que igualmente não acabaram em situação de lágrimas e, em caso afirmativo, em que é que eles eram diferentes?

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Ver o original em:

http://blog.mpettis.com/2015/02/syriza-and-the-french-indemnity-of-1871-73/

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Para ler a parte V deste trabalho de Michael Pettis, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

ENTRE A FORÇA ASSASSINA DE UM GOLIAS (A ALEMANHA) E A RECTIDÃO MORAL DE UM DAVID (A GRÉCIA DE SYRIZA)… – SYRIZA E A INDEMNIZAÇÃO DA GUERRA DA FRANÇA COM A PRÚSSIA em 1871-73, por MICHAEL PETTIS – V

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