Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
ELEIÇÕES DEPARTAMENTAIS 2015 – Quem será apanhado na armadilha?
Hervé Montbard, ÉLECTIONS DÉPARTEMENTALES 2015
Revista Métamag, 5 de Fevereiro de 2015
As sondagens continuam e são semelhantes independentemente do Instituto que as publica. De CSA para o IFOP, de IPSOS a Odoxa, de BVA a Harris interactiva ou Opinion Way os resultados são semelhantes para as próximas eleições departamentais de 22 e 29 de Março: a Frente Nacional-RBM está à frente na primeira volta ficando entre 28 e 33% dos votos expressos, com a abstenção a ser importante, perto de 50%, o PS, chegará em terceiro lugar com 20% das intenções de voto, a UMP e os centristas estrão próximos da Frente Nacional. Estas eleições terão o valor de teste nacional pois que, elemento novo, os 2054 cantões serão postos em disputa no mesmo dia.
Um escrutínio para que Assembleia?
Muitos eleitores socialistas, que estão particularmente desiludidos com o mau desempenho dos seus dirigentes não irão votar, e alem do mais as departamentais mudaram de nome, mudaram de rosto com os diferentes cantões sem candidato a ser posto o seu lugar à eleição, e mudou o rosto com binómios mistos associando à esquerda candidatos saídos muitos deles de diferentes partidos que não anunciam claramente as suas cores, o que incentiva à participação nas eleições .
Não se sabe ainda se os departamentos vão viver muito tempo, quais serão as suas habilidades: fala-se sobre a gestão do RSA, dos colégios, da Acção social, da APA, da pequena infância mas a Lei NOTRE está actualmente em discussão como primeira leitura na Assembleia Nacional e não será adoptada definitivamente que após as eleições das Assembleias departamentais. O debate não está nada acabado uam vez que há mais de 2.000 propostas de alterações que foram apresentadas. E as discussões às vezes conduzem a compromissos curiosos. Por exemplo, inicialmente esperava-se que a gestão dos colégios seria confiada às regiões e aos departamentos como é actualmente o caso, mas, finalmente, os departamentos irão manter esta função. Ao mesmo tempo, o transporte escolar, que era gerido pelos departamentos irá ser gerido agora pelas Regiões. É difícil encontrar coerência em tudo isso.
Alterações aprovadas no Palais Bourbon não irão simplificar as coisas, permitindo aos departamentos uma competência sobre o desenvolvimento económico – particularmente no campo do turismo – até pelo menos 2017. Enquanto que, inicialmente, eram as regiões que deveriam pilotar toda a política económica e que são eles que gerem em grande parte o turismo. Pode haver, portanto, nos mesmos locais, representações do turismo regional e departamental, ou seja duplicações custosas cuja eficácia não se adiciona! Mas aqui também, a defesa dos interesses especiais tem prevalecido.
Um novo equilíbrio político
Se pegarmos nas últimas 5 sondagens, a força da esquerda (PS-PRG-EELV – Front de Gauche extrema esquerda) reúnem na primeira volta cerca de 32% das intenções de voto, a FN 30% e o centro e direita 33%, com os 3% restantes a abranger candidatos não rotuláveis. Esta divisão on entre três forças de igual importância muda completamente o cenário político a que nos habituámos desde o advento da v República. A significativa abstenção terá como consequência na maioria dos casos, a eliminação do candidato que chegou na terceira posição, que não atingiu o limite de 12,5% dos eleitores registados (será necessário para isso conseguir mais de 25% dos votos na primeira volta) e tudo indica que será á em mais de 40% dos casos o candidato de esquerda que será eliminado, e 25% para a direita ou centro e também para a FN.
O número de triangulares será limitado: provavelmente haverá uma centena. Esta regra de um limiar a alcançar para se manter na corrida foi introduzido pela primeira vez para facilitar a bipolarização em 1966 em detrimento dos centristas e, em seguida, foi reforçada em 19176 com a finalidade para a UDF marginalizar o RPR em 1976. Abandonada em 1985 com a introdução da representação proporcional departamental, foi restabelecida em 1988 para eliminar a Frente Nacional. Hoje esta regra se volta contra os seus criadores: a justiça não está sempre imanente.
Tanto assim quanto a segunda volta será decisiva. Poder-se-á esperar muitas vitórias da UMP e dos centristas que serão os principais beneficiados destas eleições. Os socialistas e a esquerda que dirigem actualmente cerca de 60 departamentos perderá vários: as previsões optimistas falam numa dúzia de departamentos que passariam para a direita, os mais pessimistas no PS encaram a hipótese de perder mais de 25 entre os quais alguns emblemáticos como Corrèze, Nièvre ou du Gard. Nós iremos assistir a um reequilíbrio a favor da direita e do centro.
A FN à frente
A questão é também a de saber se a FN está em condições de dirigir um departamento o FN: os observadores citam o Var, Aisne, Oise, o Pas de Calais ou Vaucluse que podem cair nos bolsos da FN. . Certamente estes são departamentos que maioritariamente darão oseus votos ao partido “patriota”, mas o desafio parece ainda assim difícil de antecipar a saída. Ganhar muitos lugares é provável, mas obter uma maioria dos vereadores numa Assembléia Departamental parece ser um objectivo longe do alcance de Marine Le Pen. Na noite da 3ª volta, quando os presidentes forem conhecidos, se um deles é um membro da Frente Nacional, este anúncio será uma verdadeira tempestade no céu político e um ponto de viragem na sua história como o foram as últimas eleições para as europeias e para o Senado.
No entanto, em várias assembleias departamentais, a FN será capaz de jogar a posição de árbitro entre a esquerda e a direita. Estes últimos são susceptíveis de passar entre eles, o que poderia ser chamado de um “acordo de cavalheiros”, isto é a permitir ao que terá ultrapassado o outro, ou seja, de modo a permitir àquele que terá mais eleitos em cada Conselho de beneficiar do apoio do outro para que isso não dependa da votação dos representantes eleitos da Frente Nacional. Esta será a repetição do que se passou em 1997 nas Regionais. Mas não é adquirido que um tal acordo entre o PS e a UMP seja respeitado no terreno. Esta é a história de uma cisma anunciado que aparece no horizonte. Porque não são raros aqueles que na UMP têm alguma simpatia pelos lados da FN.
No total, o próximo escrutínio eleitoral promete à Frente Nacional uma bela disputa eleitoral e durante algumas semanas os comentários políticos vão continuar a serem feitos à volta de tudo isto. Note-se também que o clã governamental e a UMP e os centristas brilham pela sua ausência de projecto e que toda a sua argumentação actual é sobre a sua inquietação sobre o perigo da Frente Nacional, cada um deles, de Bayrou a Juppé, de Sarkozy a Hollande, de Manuel Vals a Thierry Mandon a explicarem as suas soluções para reduzir os votos da Frente Nacional. Mas este refrão ouvido desde há já muitos tempos passados torna-se entediante à medida que o partido liderado por Marine Le Pen aparece como incontornável. E estes não são os mantras e os encantamentos que mudarão os eleitores nas suas opiniões. Porque o que se diz quando se estuda o eleitorado é que se a FN capta eleitores entre os antigos eleitores de direita e de esquerda, há muitos antigos abstencionistas que estão a aumentar as s fileiras dos seus eleitores, abstencionistas que finalmente encontram uma razão para votar e não têm nenhuma razão para ir para os dois partidos que têm dominado a política francesa desde há décadas.
Se as sondagens de Março se confirmarem nas urnas, anunciarão igualmente nas próximas eleições regionais, onde o modo de votar lhes é mais favorável, sucessos mais importantes para a Frente Nacional e para os seus aliados, que então poderão governar as Regiões.
________
Ver o original em:
http://metamag.fr/metamag-2723-ELECTIONS-D%C3%89PARTEMENTALES-2015.html



