FRANÇA – ELEIÇÕES DEPARTAMENTAIS: MANUEL VALLS TEM MEDO… MAIS GRAVE QUE O VOTO FN É O DESAPARECIMENTO DO PS? – por JÉRÔME LEROY

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Departamentais: Manuel Valls tem medo …

Mais grave que o voto FN é o desaparecimento do PS?

Jérôme Leroy,  Départementales: Manuel Valls a peur…Plus grave que le vote FN, la disparition du PS ?

Revista Causeur, 10 de Março de 2015

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 Jérôme Leroy é escritor e redactor em chefe da secção cultural da Revista Causeur

Manuel Valls - II

Se não se trata de pânico, parece. Manuel Valls decidiu disparar todos os tiros possíveis contra a Frente Nacional. Pode-se compreendê-lo. As sondagens para as eleições departamentais sucedem-se e todas elas vão na mesma direcção e esta desespera: a FN vai largamente à frente nas sondagens quer da UMP quer do PS. A manutenção muito stendhaliana de Manuel Valls – como não pensar em Stendhal e no papel de Julien Sorel para uma nova visualização de O Vermelho e o Preto – tem sido desde há muito tempo uma ilusão, mas a armadura começa a desfazer-se. Logicamente, é certo  que vai manter o seu lugar de Primeiro-ministro depois da derrota anunciada,  mas sabe também que o será por ausência de quem o queira substituir. Vê-se com muita dificuldade quem estaria disposto a aceitar, no PS, o seu lugar. Não será necessariamente muito exaltante, reencontrar-se, depois de 22 e 29 de Março, à frente de um governo que conheça uma derrota eleitoral. Como diria o outro: não é fácil, é difícil.

Manuel Valls é, no seu tipo, um político astuto. Não teve ele sucesso, quando representava pouco mais de 5% na época das primárias do PS, a impor a sua linha política? A de uma esquerda que teria quebrado com os seus velhos demónios antiliberais e escolheria, como parceiro privilegiado para relançar a máquina, um patronato ao qual não deixou de dar presentes sem contrapartidas. Estes presentes vão desde o CICE à lei Macron passando por promessas sobre atacar a lei das 35 horas ou o recente prémio para a actividade que, fundindo o RSA-actividade e o PPE, pretende sobretudo incentivar as armadilhas para as pessoas de baixos salários – pedindo à colectividade que complete os salários dos working poors para fazer dos working pessoas ligeiramente menos poors, mas mesmo assim muito pouco. Sobre este último ponto, de resto, Manuel Valls precisa mesmo: “O prémio de actividade será aberto aos jovens trabalhadores, e é um elemento novo, para os jovens de 18 à 25 anos, e os jovens que residem com os seus pais poderão beneficiar de um direito de autonomia se a sua família tiver rendimentos modestos”. Se reflectirmos um pouco sobre o que significa a frase, compreende-se melhor que o jovem de 18 a 25 anos – que não somente trabalha para nada e é obrigado, como qualquer “mileurista” espanhol, a viver com o papá e a mamã – se sinta ligeiramente encolerizado com a ideia de estar fechado ad vitam aeternam num estatuto de adolescente. Por pouco que ele não esteja totalmente desesperado e tetanizado por esta exaltando perspectiva, resta-lhe : ou ZAD ou o voto FN. Os meios de comunicação social dominantes que dão a entender que os zadistas, de que os seus punks mais parecem cães sebentos e o FN é um partido como os outros, vão pois votar maioritariamente votar FN… excepto se há uma consciência de classe miraculosamente preservada, apesar da alienação e da precariedade.

Além disso, Manuel Valls compreende bem, mas não deixará nunca transparecer seja o que for, que as próximas eleições departamentais acabarão por desacreditar a democracia representativa. Não se tinha necessidade disso, numa época onde é a parelha Junker-Merkel que decide e onde parece e cada vez mais claramente que votar não altera nada ou altera muito pouca coisa: os Franceses, ou antes, a parte deles que terá ainda a coragem quase heróica se incomodar em ir votar, vai com efeito escolher eleitos cujas atribuições não são ainda exactamente conhecidas nem mesmo se existirão ainda uma vez que a reforma das grandes regiões seja posta em prática. Tem-se tentado vender a paridade obrigatória deste modo de voto departamental, tem-se procurado explicar que os departamentos serão as primeiras assembleias autenticamente “chabadabada”, tudo isto é claramente muito pouco. Então, indo até ao ponto de contradizer François Hollande, este homem político old school cuja carreira começou na modésta cantonal de Corrèze e que teria querido jogar a carta local, Valls, como os que compreendem realmente o que se passa –– ou seja como Sarkozy e Marine Le Pen – decidiu nacionalizar uma eleição que não tem nenhuma utilidade real, a não ser a de fazer a contagem, no terreno, dos seus eleitores. E é aí que Valls parece ter ligeiramente perdido os pedais desde este último fim-de-semana, entre uma reunião no velho Limousin vermelho de Guingouin que ameaça mudar de terreno político e o Grande encontro I-tele Europe 1Le Monde: “A minha angústia – posso eu falar da minha angústia, do meu medo pelo meu país? […] Não tenho medo por mim. Tenho medo, pelo meu país, tenho medo que ele se despedace votando na Frente Nacional”.

Sem contar com um ataque em regra contra Michel Onfray, que se permitiu criticar a sua atitude: “Quando um filósofo conhecido, apreciado por muitos Franceses, Michel Onfray, explica que Alain de Benoist – que era o filósofo da Nova direita nos anos 70 e 80, que de certa maneira deu forma à matriz ideológica da Frente Nacional, com o Clube do Relógio, a Grécia – (…) é melhor que Bernard-Henri Lévy, isto quer dizer que se estão a perder as referências.” Será necessário interrogar-se um dia sobre a forma como este governo, que se reclama de esquerda, terá atacado sobre os intelectuais e os escritores. Houve um tempo em que a esquerda tinha sobretudo tendência a tomar em conta aqueles que pensavam em vez de os andar a atacar. Onfray evidentemente respondeu, tratando Manuel Valls “de cretino”. É talvez injusto. Manuel Valls não é um cretino, Manuel Valls está mas é em vias de entrar em pânico, repetimo-lo. Já tinha anunciado em tempos que a esquerda podia morrer e Françoise Fressoz deu-lhe razão no Le Monde de sábado falando “de uma esquerda suicida”.

Suicida porque não faz uma política de esquerda? Nada disso! Suicida porque a esquerda se apresenta dividida nestas eleições departamentais. Apenas que, Manuel Valls compreendeu-o muito bem mas nunca o dirá, deixa de ser possível falar “da esquerda”. O que se passa, não é a divisão, é muito simplesmente que há doravante uma esquerda que não se reconhece mesmo nada no PS, que não tem mais nada de comum com este Partido. Só haverá possibilidades de bilhetes PS-PC apenas em menos de cinquenta cantões na França. Por toda a parte nos outros lugares ou quase, os socialistas deverão ter de enfrentar as candidaturas comuns Front de Gauche /EELV. Ver-se-á o que é que isto irá dar, mas isto assemelha-se diabolicamente a um esboço de Syriza. E o pânico de Manuel Valls não será tanto, como ele diz, de ver Marine Le Pen ganhar em 2017 mas sim o de  ser o Papandréou do PS, em França. Por outras palavras, o seu pânico deve-se ao facto de ver o partido nascido em Epinay em 71 conhecer o destino do PASOK, e tornar-se um montinho de representação residual do que foi o social-liberalismo. Porque ao mesmo tempo, por um lento deslizar tectónico, muito menos espectacular mas talvez mais duradouro que o fogo de artifício FN, uma outra esquerda – de esquerda – ocupará um espaço deixado tragicamente vazio por agora .

 Jérôme Leroy,   Départementales : Manuel Valls a peur… Plus grave que le vote FN, la disparition du PS ?

Revista Causeur, 10 de Março de 2015. Texto disponível em:

http://www.causeur.fr/departementales-manuel-valls-front-national-fn-ps-31819.html

Publicação autorizada pelo director da Revista,  Gil Mihaely, facto que muito agradecemos .

Jérôme Leroy  est écrivain et rédacteur en chef culture de Causeur.

 

*Photo : ISA HARSIN/SIPA/1503101508

 

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