Sobre as mentiras quanto à saída da crise, sobre os novos Vichy implantados por toda a Europa, tudo sob a “vigilância apertada” de Bruxelas, tudo sob o comando de Berlim.
Uma crítica que poderia ser apresentada ao nosso Primeiro-ministro se valesse a pena
(conclusão)
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5. A transformação da crise em crise orçamental, uma lógica alemã
A Alemanha beneficiou da retransmissão de crescimento pela despesa pública durante a reunificação e a despesa privada aumentou muito pouco na Alemanha entre 1992 e 2002. A Alemanha arranca depois de 2000 e melhora claramente por volta de 2005 na base dos do crescimento dos outros países europeus sobre o qual transplantou o seu crescimento moderando os seus preços nas condições económicas, sociais, produtivas e comerciais que analisámos acima. Não encontra nos países não europeus retransmissões de crescimento suficientes por falta de uma expansão comercial depredadora. A Alemanha por conseguinte é levada a realizar taxas de crescimento cada vez mais fracas por não dispor de meios de retransmissão de consumo a nível interno (moderação salarial a isso obriga), a nível europeu (o carneiro não tem mais lã em cima das costas) e a nível extra-europeu.
A realidade da crise – o desequilíbrio das competitividades económicas na Europa – está no centro da crise presente. É necessário transformar esta crise em crise orçamental e das finanças públicas para se organizar hoje em toda a Europa um vasto sistema de redução dos salários – directos e indirectos – públicos e privados. Numa Europa que sofre de uma acumulação de capital, isto significar comprar um bilhete para a recessão e para a deflação que a acompanha. O exemplo alemão permite predizer a sequência: As exportações não europeias não fornecerão nenhuma retransmissão devido ao sub-investimento ( que se amplifica entretanto) que corrói a Europa, devido aos efeitos induzidos pela crise europeia sobre a economia mundial e devido igualmente às dificuldades americanas tão próximas das nossas. Mais grave ainda, uma concorrência acrescida entre países europeus sobre um fundo de crescimento fraco ou negativo fará actuar a concorrência económica contra o crescimento.
6. A Sonderweg alemã
A sub-acumulação de capital verificada nos EUA, na Alemanha (e mais largamente no zona do Atlântico), o crescimento das desigualdades de rendimento e a acumulação dos patrimónios na parte superior da pirâmide social, são o resultado de um mesmo processo de abertura total dos mercados, do enfraquecimento do sistema produtivo que resulta nas condições de uma troca desigual, e finalmente, de uma vasta transferência de dinâmica económica da qual resulta a depressão actual. Concebe-se que as elites económicas que organizaram e se aproveitaram deste processo, os políticos que o puseram em funcionamento, os ideólogos fanáticos que o legitimaram ou que o aplaudiram estão atingidos por uma forte gaguez!. É relativamente aqueles que dispõem das enormes riquezas, o seu enriquecimento representa a ruína das economias que o suportam, a sua acumulação do espólio alcançado tem muito de parecido com uma pilhagem antiga e sem nenhuma vergonha, as suas soluções expressam o salve-se o que se puder e a má-fé.. É assim que o crescimento alemão, ontem criticado, é hoje levado ao pináculo da fama e da virtude. Não convida ele a que os povos europeus apertem bem o cinto no interesse… dos ricos?
Não retomamos o argumento da Sonderweg alemão. Mas uma analogia histórica nos incomoda. Cada vez que a Alemanha pensou em termos mundiais, em situação de autonomia (Época do Imperador Guilherme II, Época nazi), conduziu a Europa à catástrofe e naufragou ela própria no naufrágio. Muito pequena, não suficientemente povoada, economicamente potente mas não o suficiente para ser potência dominante, a Alemanha sobrestimou então a sua importância. E se ela refizesse um pouco mais de hegemonia post-nacional e no entanto Grande Alemanha? Segui-la, seria sem dúvida comprometer-se na pior das políticas… nós não apontamos ninguém a dedo…”
Conclusão
Onubre Einz não quer apontar o dedo a ninguém. É a sua posição que respeito, mas o seu texto foi escrito em 2013. Não sei se hoje teria a mesma posição. Pela nossa parte queremos apontar o dedo, não ao economista de profissão e da economia a mostrar-se um ignorante chapado, que dá pelo nome de Cavaco Silva, economista de profissão, mas ao nosso primeiro-ministro e à sua versão do conto de crianças que o Syriza desenrola na Grécia, à maneira talvez de Charles Perrault, quando o o nos impõe. A nós portugueses, é vivermos num verdadeiro pesadelo em nome dos serviços a prestar à potência ocupante, a Alemanha, que como diz o mais velho membro do Parlamento Europeu, Manolis Glezos, está a conseguir pela força da lógica do euro e da austeridade que lhe está associada o que Hitler não conseguiu pela força das armas, ter uma Europa alemã. Não podemos também esquecer que o próprio Portas dizia que com a saída da Troika recuperávamos a soberania!
Ainda agora, Coralie Delaume num notável artigo sobre as recentes decisões do Conselho Europeu e da Comissão Europeia com o título A COMISSÃO EUROPEIA É FORTE COM os FRACOS E FRACA COM OS FORTES, nos fala da importância da temática tratada no profundo trabalho de Onubre Einz, que iremos apresentar no blog A viagem dos Argonautas, quando escreve:
“ (…) Como todos os outros países, a França foi sujeita a uma análise dos seus “desequilíbrios macroeconómicos”, uma outra novidade introduzida em 2011. Este procedimento conduzido a Comissão Europeia a acompanhar também não apenas a dívida publica e os défices públicos dos Estados-Membros, mas também um chamado quadro de bordo composto de indicadores diversos, acompanhados de limiares. Se um dos limiares for ultrapassado, considera-se que o país em análise se arrisca a destabilizar toda a economia da União. Entre estes indicadores está – é uma boa notícia – o saldo da balança corrente. Este não deve exceder 6% do PIB durante três anos consecutivos. Para dizê-lo de uma forma simples, um Estado não pode ter um comércio externo muito florescente sem que isso prejudique toda a UE. É a menor das coisas : em regime de moeda única, um país que acumula excedentes sem que se dê a apreciação da sua moeda para funcionar como instrumento de correcção, fá-lo obrigatoriamente à custa dos seus vizinhos. Na zona euro, os excedentes de uns são os défices dos outros.
No entanto, acontece que há um Estado-Membro que desde há muito tempo tem rebentado o tecto estabelecido, com um excedente regularmente superior à 7% do seu PIB. Este país tem o mais forte excedente corrente ao mundo – está mesmo à frente da China – e o seu excedente comercial bate anualmente o recorde (217 mil milhões de euros em 2014 ou seja 11% melhor que em 2013). A Alemanha, porque certamente é dela que se trata, está sistematicamente fora das regras fixadas por Bruxelas. E com razão : o país não investe. Fazendo assim, não gasta nada, mas destabiliza toda a zona euro zona e hipoteca o seu próprio futuro.
É por isso que a partir de 2013, José Manuel Barroso tinha encarado sancionar a República Federal alemã. Certamente, a ideia foi rapidamente guardada num cofre bem forte e a ideia de a pôr em prática no quadro do aparelho coercivo sobre “os desequilíbrios macroeconómicos “ deixou de ser um tema de interesse. É apenas em voz muito baixinha que a Comissão solicita junto de Berlim algumas correcções. Porque é bem mais fácil incriminar a França pelo seu défice… ou a Grécia pela sua dívida. Quanto à Alemanha, não se saberia impor-lhe o quer que seja, e sobretudo nada que tenha a ver com “as reformas de estrutura”. Depois de tudo isto, como diz Pierre Moscovici, “a Europa não é feita para punir, não é feita para forçar”. “[1]
Onubre Einz diz-nos que não quer apontar o dedo a ninguém. Nós queremos.
O comportamento dos dirigentes europeus tem politicamente um nome e tem pessoas a quem ele assenta que nem uma luva. De acordo com os textos de Michael Pettis e de Onubre Einz, pessoalmente só posso considerar que a defesa das políticas de austeridade no contexto em que têm sido defendidas e aplicadas é um comportamento de submissão à Alemanha e aos interesses da sua grande burguesia, característico dos participantes de um concurso de reptilização da política, em que os vencedores assumem a obrigação de transformar a capital de cada país num novo Vichy. Dito de forma mais simples e utilizando a expressão de Onubre Einz é estar ao serviço da Sonderweg alemã, ou ainda, é estar ao serviço do imperialismo alemão. Sobretudo isto. E quem vai à cabeça neste concurso parece ser discutível tal é a luta desencadeada pelo primeiro lugar mas mesmo assim penso ser o PS francês, na linha das declarações de Valls e do actual Comissário Moscovici.
Paul Robert Craigs chamava a estes políticos as marionetes ao serviço dos poderes dominantes, François Asselineau, chamava isto alta traição e pela minha parte digo que cada um deve dar a este comportamento o nome que entender como o mais adequado. Pela minha e para já, no mínimo acuso-o de ser em termos políticos e económicos um enorme mentiroso. Resta-me expressar o desejo de que esta realidade lhe venha a ser conhecida, senhor Primeiro-ministro, nas urnas por uma redundante derrota.
Coimbra, 14 de Março de 2015.
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[1] O prazo para França colocar as suas contas públicas em ordem, segundo a contabilidade de Bruxelas e Berlim, foi dilatado para 2017!. As razões para esta concessão é a aceitação do plano de liberalização brutal a que a sociedade francesa fica obrigada e nos timings estabelecidos pelo Conselho. A justificação do adiamento concedido é publicado no relatório do Conselho que tem como título – COUNCIL RECOMMENDATION with a view to bringing an end to the excessive government deficit in France- está disponível em:
http://register.consilium.europa.eu/doc/srv?l=EN&f=ST%206704%202015%20INIT
Um excerto do relatório emitido pelo Conselho é esclarecedor do que poderão esperar as famílias não abastadas de França, a maioria da população já para não falarmos em classes sociais e depois acenam-nos com o espantalho de Marine Le Pen! . Vejamos então um excerto do relatório publicado a 5 de Março, com o título, e disponível em :
“ As principais reformas notavelmente delineadas incluem uma redução nos custos do trabalho através da aplicação de dispositivo CICE, dispositivo do Pacto de Responsabilidade e Solidariedade, e de reduções adicionais nas contribuições de segurança social do empregador estabelecidas pelo mesmo Pacto. Espera-se que estas medidas venham contribuir para dinamizar o crescimento e melhorar a sustentabilidade das finanças públicas e devem consequentemente assumir um caracter definitivo. Contudo, o impacto total das reduções no custo de trabalho exige ainda reformas complementares do mercado de trabalho de modo a reduzir as rigidezes salariais . As reformas adicionais delineadas pelo governo incluem, inter alia, a reforma 2014 das pensões de reforma e medidas legislativas para reformar o poder local, para melhorar o ambiente empresarial e aumentar a concorrência nos serviços. Em particular, o projecto-lei sobre o Crescimento, a actividade económica e a igualdade de possibilidades económicas, trata das questões ligadas à problemática da concorrência e da desregulamentação nas profissões liberais, na abertura dos transportes rodoviários, reduz as barreiras à entrada no comércio de retalho e flexibiliza as regras ligadas ao trabalho aos domingos. “. Quem não vê nisto o programa já em prática em Portugal?
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