Selecção, tradução, introdução e notas por Júlio Marques Mota
A Governança Económica Europeia e as suas análises tendenciosas e erradas
Ronald Janssen, European Economic Governance And Flawed Analysis – Getting Stupid Capital Flows Off The Hook
Social Europe, 16 de Março de 2015
(CONCLUSÃO)
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Salários e fluxos de capital: encontrar a causalidade correcta
Um segundo gráfico publicado na referida nota, que é mesmo ainda mais duvidoso, sugere que os aumentos em custos salariais provocam directamente um aumento no desemprego e até mesmo um aumento substancial. Sugere-se neste gráfico igualmente que se nós queremos obter uma descida do desemprego, teremos então de comprimir os salários.
Há, contudo, algo peculiar neste gráfico. Para poder mostrar esta forte correlação entre custos salariais e desemprego, o gráfico acima utiliza dois períodos diferentes. Mudanças no desemprego DEPOIS da crise financeira ter disparado são comparadas com os aumentos em custos salariais ANTES da crise. Ou seja isto é um pouco como estar a comparar “maçãs com peras” desde que as tendências recentes no desemprego estão a ser associadas com as tendências nos custos de salário que ocorreram cerca de dez anos antes!
Ao repetir um exercício idêntico mas desta vez com mudanças em custos salariais unitários e o desemprego para o MESMO período, a imagem torna-se bastante diferente. Este gráfico alternativo (veja-se abaixo) mostra agora uma correlação fortemente negativa em vez de positiva como no-lo dizem os nossos quatro Presidentes. Os cortes em custos salariais estão agora correlacionados positivamente com aumentos de desemprego enquanto que robustos acréscimos salariais estão fortemente o com taxas de desemprego em queda.
Este gráfico mostra-nos claramente a história do que está a acontecer na realidade. Fala-nos da história do falhanço da estratégia da desvalorização interna dos salários em dinamizar uma retoma económica que não se deu, antes pelo contrário, em que se gerou ainda mais desemprego. Fala-nos igualmente da história da deslocação alemã, desde o início da crise financeira, longe da depressão dos salários e da desregulação, para “Kurzarbeit” (mantenha os empregados a trabalhar mesmo com redução de horas em vez de os despedir) e através de uma renovação do dinamismo da negociação colectiva e dos salários.
Por fim, voltemos ao gráfico inicial, utilizando a comparação dos dois-períodos da nota analítica. O que aqui se mostra é que há uma terceira força a funcionar por detrás de tudo isto, ou seja na base da economia, e a levar às duas tendências, à de aumento nos custos salariais como os que ocorreram há dez anos atrás e à dos recentes aumentos do desemprego.
Os fluxos de capitais na moeda única constituem essa tal terceira força. Durante os primeiros dez anos de União Monetária, os enormes fluxos de capitais, como resultado da estratégia dos países centrais da zona euro, do seu núcleo duro, na desinflação competitiva, têm alimentado nos preços dos activos e conduzido a booms de endividamento para outros membros da área de Euro, superaquecendo desse modo as economias dos últimos e empurrando à alta a inflação. Para manter o poder de compra face à inflação a subir, a dinâmica do salário nominal nos últimos países seguiu uma evolução paralela, daqui as principais subidas nos custos salariais nominais durante o período 2001-2009.
Os booms no endividamento e no preço dos activos , contudo, não podem continuar infinitamente. Mais cedo ou mais tarde, há um momento em que a dinâmica do ciclo financeiro roda no vazio e a dinâmica do boom financeiro transforma-se num verdadeiro desastre. Esse momento deu-se com a crise do euro em 2009 quando os mercados financeiros temendo terem concedido já demasiados créditos recusaram continuar a reciclar os excessos das poupanças do núcleo central da zona euro, para os países das periferia. A partir desse momento, os membros da zona euro tais como Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda e Itália foram confrontados com “uma greve do sector financeiro” ao mesmo tempo que estavam afundados numa enorme montanha de dívidas do sector privado. A consequência é a de que as suas economias desmoronaram e o desemprego aumentou fortemente.
A força real que movimentou tudo isto não é a dinâmica imprudente da evolução salarial mas os fluxos irracionais de capitais, primeiramente atraindo as economias para uma situação de forte endividamento e depois encenando “uma paragem repentina” que levou estas economias para uma situação de profunda recessão. Os salários, entretanto, são simplesmente “uma consequência lateral” com a dinâmica do aumento de salários a ser o resultado da afluência de enormes entradas de capitais e não de outra coisa qualquer em volta . Os estudos numerosos, do IMF à Comissão e mesmo ao próprio BCE chegam seguramente à conclusão que a “assinatura” dos desequilíbrios externos da zona euro é financeira e que os salários e a perda de competitividade nas exportações têm pouco para fazer com isso.
Conclusão
A nota dos quatro presidentes atesta mais uma vez o perigo da governação económica europeia ser capturada “seja porque poderes for”, e ao fazerem-na, o objectivo de forçar, através das suas opções ideológicas, a favor de uma Europa de “mercado livre”’.
.Por fim, a nota de análise resume-se ainda a uma outra tentativa para obscurecer o facto de que os fluxos financeiros provenientes dos países «credores» estiveram completamente fora de qualquer controle durante a primeira década de existência do Euro. Em vez disso, o documento de análise o abertamente desloca a culpa pela crise para as instituições que no mercado de trabalho promovem os direitos dos trabalhadores. Os sindicatos e os políticos progressistas faria bem melhor em claramente dizerem “não” a esta abordagem tendenciosa e totalmente errada.
Ronald Janssen, Social Europe, Março de 2015, European Economic Governance And Flawed Analysis. Texto disponível em :
http://www.socialeurope.eu/2015/03/european-economic-governance-and-flawed-analysis/
Sobre Ronald Janssen
Ronald Janssen é um conselheiro económico que trabalha para o movimento sindical em Bruxelas.





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