A CANETA MÁGICA – CHARLES FOURIER – por Carlos Loures

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Imagem1Charles Fourier nasceu em 7 de Abril de 1772 em Besançon e morreu em Paris no dia 10 de Outubro de 1837. Socialista, combateu a industrialização, o economicismo, o liberalismo; condenou o conceito de família baseado no casamento e na monogamia. Foi precursor do feminismo – embora o termo só tenha surgido em 1837. Adversário das ideias feitas que eivavam as mentalidades na primeira metade do século XIX, defendeu que só ama a humanidade em geral quem tem capacidade para amar uma pessoa em particular; só pode ser internacionalista quem ama a sua terra. Foi sua a concepção dos falanstérios, unidades de produção e consumo, uma forma de cooperativismo integral, provando que as utopias não nascem só no universo literário.

Os falanstérios de Fourier reflectiam o desejo de passar à prática a generosa utopia, baseada no pressuposto de que o ser humano é intrinsecamente bom, depositário da harmonia natural, reflexo da harmonia do Universo, e que a maldade está na sociedade e não no homem. Criando-se comunas onde, desde o berço, todos eram tratados com justiça, daí só podiam resultar seres bondosos s socialmente compatíveis.

Edificaram-se algumas comunas que não poderiam albergar mais de 1600 pessoas e teriam de ser auto-suficientes, permutando com outros falanstérios os excedentes da sua produção. Em França, nos Estados Unidos, no Brasil, no México, criaram-se falanstérios. Cada pessoa decidia a actividade a que preferia dedicar-se. As coisas não correram bem. Por um lado porque na passagem da teoria à prática nem tudo deve ter sido feito como deve ser. E depois, os males do mundo poderão estar principalmente na sociedade, mas lá que o homem não é intrinsecamente bom, todos o sabemos. Os kolkhoses soviéticos (cooperativas de produção agrícola), as comunas populares chinesas, os kibutz israelitas (cooperativas rurais), são a passagem à realidade da teoria de Fourier. No entanto, em enquadramentos histórico-políticos de conflito que não permitiam a concretização do pacífico ideal dos falanstérios.

O fascismo e o nazismo também foram utopias antes de se transformarem em realidades distópicas. Ao contrário do axioma de Fourier («o homem é intrinsecamente bom») partiam do princípio de que o homem é intrinsecamente mau, sendo preciso criar estruturas sociopolíticas que neutralizem essa maldade inata. Além de mau o homem é como uma criança que deve ser vigiada para que não faça mal aos outros nem a si mesmo. A Gestapo, a OVRA, a PIDE, o KGB, da tortura ao campo de extermínio, foi tudo para bem da humanidade.

Os projectos de Hitler para uma nova capital do Reich, localizada em Berlim, mas designada Germania, demonstra como as ideias estavam arrumadas de forma que a ele lhe parecia perfeita. Os seus desenhos e projectos revelam a ânsia por converter uma sociedade capitalista, corrupta, sórdida, manchada pela usura judaica, numa outra em que imperasse uma ordem absoluta, em que não houvesse imprevistos nem improvisações (a Gestapo não era mais do que um mecanismo para impedir essas surpresas). A pureza da raça é ideia que pode ter colhido em Campanella, pois na sua «Cidade do Sol» havia um ministro do Amor que zelava por que os casais fossem emparelhados de modo a produzirem uma «excelente prole». Encontrou os loucos e os oportunistas que o ajudaram a transpor para a escala nacional e continental a sua utopia.

Salazar também quis transpor para o país o seu conceito de perfeição, uma perfeição moldado à imagem do seminário de Viseu e de Santa Comba. Conheci um motorista que tinha trabalhado na Presidência do Conselho. Contava ele que, por vezes, sobretudo no Verão, ao anoitecer, ia um criado chamá-lo ao anexo em que morava, pois o senhor Professor precisava de sair. E lá ia o motorista, com o presidente atrás, e três guarda-costas. As ordens era para conduzir devagar o carro blindado que Hitler lhe tinha oferecido. Na Avenida da Liberdade havia muita gente espalhada pelas esplanadas. Salazar queria que o carro de vidros fumados e à prova de bala fosse devagar. Perguntava ao motorista e aos agentes: – O que é que eles estão aqui a fazer? – A apanhar o fresco, senhor Professor, a beber. – A beber? O quê? – Eles lá respondiam: – «cerveja, gasosa, laranjada…» O presidente do Conselho queria saber os preços de cada uma daquelas bebidas. – «E o que estão a comer?» – «Amendoins, tremoços…». Estas respostas deixavam-no pensativo e curioso: – E eles têm dinheiro para beber e comer essas coisas? Às vezes resmungava: -« depois queixam-se que o dinheiro não lhes chega». Em suma – Salazar criara a sua utopia – um país rural, com cidades que seriam conjuntos de aldeias, igrejas, fontanários e por aí fora. As esplanadas da Avenida, o consumo de cerveja e refrigerantes, não cabiam na utopia, faziam-lhe confusão.

 As utopias dos ditadores do século XX, causaram milhões de mortos, miséria e sofrimento e, por reacção antinómica, o advento de democracias em que a maior parte dos crimes e injustiças imperantes nas ditaduras subsistem ao abrigo do princípio, ou sob a desculpa, de que as desigualdades sociais incentivam o desenvolvimento.

A utopia americana – todos podem ser ricos, desde que tenham espírito de iniciativa, convence mesmo os que vivem em bairros degradados de que têm direito a todos os bens de consumo que o marketing mostra. Moralmente, têm, mas a realidade não respeita a moral. The american way of life, mais depressa os transforma em sem-abrigo do que em milionários. Para ter uma mansão, carro topo de gama, iate, é preciso ter um bom negócio, ter estudos, atingir um lugar numa boa empresa, ou não ter nada disso e escrúpulos muito menos e deitar-se aos negócios, uma redezita de tráfico de droga, um barzito de alterne, fazer carreira na jota de um partido político… ter espírito empreendedor. Nem todos o conseguem.

Há outra possibilidade – nascer rico, suprema prova de inteligência.

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