A NOSSA RÁDIO – EVOCANDO O PROGRAMA «EM ÓRBITA»- 2 – por Álvaro José Ferreira

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Tendo por título “A Lenda de El-Rei D. Sebastião”, é escrito por um português, é tocado e cantado por portugueses. Não vamos fazer uma apreciação exaustiva desta gravação, das suas qualidades que são muitas, e dos seus defeitos que terá alguns. Vamos apenas apontar o que nela se nos afigura existir de importante e de novo. Assim é desde logo um apontamento especial sobre os aspectos puramente interpretativos, instrumentais e vocais, e num período em que neste programa se dá cada vez mais importância aos criadores e cada vez menos aos intérpretes, a gravação que vamos apresentar tem qualidade interpretativa mais do que suficiente – é uma nota que sobressai com rara evidência. O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente inédito, é que em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma história singela, popular, portuguesa, dita em versos precisos, directos, certeiros, desenfeitados. Conta-se uma história, uma lenda. Como lenda que é, trazida até hoje pela herança popular, pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do nosso país. Depois, é um tema eterno, de criação nacional e de validade perene e universal. É um Sebastianismo colectivo que na lenda se retrata. É a ideologia negativista dos que têm uma crença irracional em coisas, em valores e em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos Messias do oportunismo e da mistificação.

A Lenda de El-Rei D. Sebastião – escreveu José Cid – é o Quarteto 1111. (texto de Jorge Gil lido por Cândido Mota, na edição em que foi transmitida “A Lenda de El-Rei D. Sebastião”, em Agosto de 1967). Nesse ano, o “Em Órbita” foi distinguido com dois prestigiosos galardões: o Prémio da Casa da Imprensa (para melhor programa de rádio) e o Prémio Internacional Ondas (numa das poucas vezes em que foi atribuído a Portugal). Em 1969, nasceram as “Novas Aventuras do ‘Em Órbita'”, com a introdução de música erudita, a qual passou a exclusivo a partir de Janeiro de 1974. «Foi uma opção consciente. A música anglo-saxónica já nada me dizia. A minha transformação operou-se enquanto estudante de Arquitectura, em Belas-Artes, com as lições de “Conjugação das Três Artes”, de Manuel Rio de Carvalho», confessará Jorge Gil, mais tarde, a Luís Pinheiro de Almeida (in “Público”, 01-Abr-2000)

No PREC, que se seguiu ao 25 de Abril de 1974, o Rádio Clube Português foi nacionalizado, passando, em 1979, a denominar-se Rádio Comercial. João David Nunes, o director de programas da estação, apesar da incompreensão de alguns que consideravam o programa demasiadamente elitista, teve a clarividência de mantê-lo na grelha e, paulatinamente, o auditório foi aumentando, a tal ponto que, nos anos 80, o “Em Órbita” não era apenas um dos programas mais relevantes da rádio portuguesa – era uma verdadeira instituição cultural do país, circunstância que motivou ao musicólogo Rui Veira Nery a redacção do seguinte testemunho, por ocasião do 25.º aniversário (1990): Tudo começou com um grupo de jovens profissionais da rádio que em meados da década de 60, em pleno reino do nacional-cançonetismo, de Rafael e de Gianni Morandi, tocava regularmente o que de melhor e mais avançado se fazia na música popular anglo-americana, constituindo um espaço radiofónico alternativo que serviu de referência de qualidade a toda uma geração marcada pelo movimento associativo universitário, pela resistência antifascista, pelo trauma da guerra colonial, pela ruptura com os códigos morais pequeno-burgueses dos filmes cor-de-rosa de Doris Day e Marisol.

Depois veio o 25 de Abril, a geração que se formara ao som do “Em Órbita” entrou de uma vez por todas na esfera do poder e o próprio grupo dos responsáveis pelo programa se dissolveu enquanto tal para gradualmente se ir convertendo – com diferentes graus de felicidade conforme os casos no novo núcleo dirigente da rádio portuguesa. Mas a vocação alternativa do “Em Órbita” não se tinha esgotado, quando a consagração institucional do seu primeiro figurino ameaçava transferi-lo das convulsões do desafio para a rotina fácil do sucesso, o programa reconverteu-se radicalmente em termos que muitos consideram quase suicidas e dedicou-se exclusivamente à música erudita, com destaque para o repertório barroco. Os seus níveis de audiência desceram vertiginosamente e tudo indicava que a sua própria sobrevivência estaria em breve seriamente ameaçada. A nova aposta do “Em Órbita” assenta sobretudo não só na promoção de um repertório pré-romântico quase desconhecido entre nós como na insistência na sua execução com instrumentos e práticas interpretativas originais, um movimento que em toda a Europa lutava ainda arduamente pela conquista de uma credibilidade que lhe era negada pelos herdeiros da tradição interpretativa oitocentista.

 

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