AS MINHAS MÃOS ESTARÃO ENSAGUENTADAS? Por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Se houvesse televisão em 1870 o telejornal abriria com a seguinte notícia “ morreu João Machado, condenado a 15 anos de trabalhos forçados, na cadeia, por ter dado 15 facadas no ex-marido da sua companheira”.

Hoje quase não há dia em que não haja notícias de crimes de homens sobre mulheres e sobre crianças…

São bebes que são mortos à facada porque o pai não conseguia lidar com a situação da separação, são mulheres que são mortas porque têm outro companheiro depois da separação.

São mulheres maltratadas até à morte por ciúme.

Estes crimes chocam a sociedade e logo a indignação é geral e os meios de comunicação publicam pareceres de vários peritos nesta matéria. Todos opinam, todos consideram o homem um monstro de maldade. Esquecem-se que todos temos as mãos ensanguentadas por todas as vezes que sabemos destes crimes e apenas queremos saber como foi e não porque foi.

Não há aceitação possível destes crimes contra natura, não há sanção social suficientemente forte para regular alguns comportamentos sociais.

A comunicação social faz entrevistas a vizinhos do assassino e quase todos têm uma característica em comum “era boa pessoa, simpático, nunca causou nenhum problema. Não percebo o que aconteceu, parece mentira”, mas também aparece alguém que muito timidamente diz que ouviu dizer que ele gritava muito em casa e que a mulher raramente saía. Não disseram nada porque não sabiam o que se passava dentro de casa, “pois ele até era simpático”.

Estes homens, que aparentemente são sociáveis com os outros e que em casa maltratam, até matar a mulher, filhos, sogras, amigas da mulher, são pessoas que têm alguma perturbação que se manifesta em situações de stress emocional, social, económica, para espanto de muitos amigos.

Estes homens vivem a contradição de uma sociedade que quer os machos fortes e valentes, donos das pessoas com quem vivem, bons chefes de família, detentores do poder em casa e na rua.

Maltratam as mulheres humilhando-as, muitas vezes, em frente dos amigos para mostrarem que ele é que manda.

A sociedade, por outro lado, libertou-se de preconceitos que faziam com que a mulher só servisse para ter filhos, tratar da casa e cuidar do marido.

O homem sente-se fragilizado pelo poder que está a perder. Já lá vai a época em que o macho ia caçar e a fêmea ficava a tratar dos filhos.

Hoje não é preciso o homem fazer nada que a mulher também não possa fazer.

A liberdade trouxe novos conceitos da vida em sociedade, mas a democracia é frágil quando não consegue cuidar dos cidadãos considerados o elo mais fraco da sociedade, crianças, idosos, mulheres, deficientes, homossexuais.

O poder do homem sobre os diferentes acentua-se em momentos de crise, mas a crise não explica tudo. O que explica quase tudo é a falta de desconstrução de certos preconceitos, é a falta de assistência na saúde mental, é o isolamento em que muitas pessoas vivem, são as substâncias aditivas, é a falta de regras sociais que refreiem este descontrolo. Eu acredito na bondade humana, mas não acredito que a forma como as sociedades se organizam sejam as melhores para vivermos, pois o ter tem mais valor do que o ser.

É trágico não se conseguir mudar a sociedade que estende a passadeira para o crime, para a dor dos mais indefesos, para o descrédito na bondade humana. A bondade humana só pode existir quando as condições sociais o permitirem.

Porque é que uns homens matam e outros não? Porque há ambientes familiares violentos e outros não?

As pessoas desligaram-se dos seus deveres enquanto cidadãos, pois a prevenção e a regulação das regras sociais foram entregues ao poder e assim dormem descansadas.

Que os prendam por muitos anos. Como se fosse a cadeia o regulador de comportamentos. Se todas as vezes que nos lembrarmos destes crimes contra natura, reflectíssemos sobre a nossa vida dentro de casa, nos comportamentos de vizinhos, de colegas de trabalho faríamos com que a sanção social começasse a ser valorizada.

O lobo mau não atacou a menina do capuchinho vermelho quando ela estava a apanhar flores para a avó porque apareceu um caçador, e todos sabem que não se faz mal a uma criança… A sanção social foi mais forte, regulou o comportamento do lobo.

 

 

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