A IDEIA – FRAGMENTO DUM LIVRO INÉDITO DE ANTÓNIO TELMO

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[O fragmento que aqui se apresenta, pela mão de Pedro Martins, a quem muito se agradece, pertence a um acervo inédito, Páginas ibero-americanas (título conjectural), escrito no rescaldo duma estadia de dois anos em Brasília (1966-68), onde leccionou como assistente de Agostinho da Silva e de Eudoro de Sousa, e duma outra dalguns meses em Granada (1968-69), com uma bolsa de estudo. Sampaio (Bruno) é a figura dominante nas suas laudas; no suplemento ao presente número desta revista, publicamos, com transcrição e comentário de Pedro Martins, a outra parte que chegou até nós deste, por mais duma vez encetado, projecto de escrita, fortemente influenciado por Ángel Ganivet, Miguel de Unamuno, e os referidos Bruno e Agostinho]

 Felizmente para o leitor, este não é um livro de viagens, no sentido clássico do termo que é o de costumes, paisagens, países, coisa que se justificava no tempo de Cadamosto ou Fernão Mendes Pinto, quando não havia revistas ilustradas, televisão e cinema, mas que hoje só suportamos se aparece pelo meio a aventura da vida humana. Nesse tempo era difícil ver a terra toda à volta e cada paisagem nova, cada país diferente, cada hábito de vida singular era um mistério que se desvendava; hoje, tudo quanto é visível está visto. Imagine-se uma peça de teatro que só nos falasse dos cenários.

Mas é um livro da viagem. É um conjunto de reflexões a partir da experiência mais funda e séria do homem. Os animais não viajam. E talvez por isso os turistas que, nos meses de sol, chegam aos nossos países peninsulares, lá das terras do norte, lembram-me esquisitas aves em voos de emigração que logo desaparecem quando surge a chuva, o frio e o céu cinzento. Os animais que emigram, – a andorinha, a codorniz, o pato bravo –, fogem à experiência do tempo, que altera, transmuda e mata. E o mesmo acontece com esses americanos, ingleses, suecos, que os espanhóis avaliam em pesetas e os portugueses em escudos. Os seus órgãos de conhecimento não vão além da metafísica que transporta uma máquina fotográfica. A tão afamada curiosidade universal do espírito europeu cifra-se aqui em levar para casa negativos pelo processo mágico de carregar num botão. A única diferença séria para com os animais de arribação é que estes, viajando, matam a fome, os turistas vêm porque a fome dos outros lho consente.

De certo que entre os turistas há também viajantes, homens que vivem a experiência do tempo na experiência do espaço. Esses chegam quase sempre no inverno, envolvidos em temporais como fantasmas do vento, eternos errantes fustigados por alguma maldição ou transportados por algum secreto mandato. Sampaio Bruno foi um desses por terras de Espanha e França. Dali escreveu as suas Notas do Exílio de que este livro constitui um pobre arremedo.

Abro o Porto Culto, porque a primeira meditação é a da viagem. E reparo em coisas estranhas: nos nomes dos capítulos (I – A “Roda” dos Almadas; II – Tentando Via; III – A Ruptura; IV – A Prosa Portuguesa; V – As Viagens e a Viagem); no título: Porto Culto. Só depois começo a ler, com um segredo escondido no bolso, uma palavra de passe que me vai permitir viajar pela literatura. É que a “a Beleza, primeira, e última da metáfora” está no “mistério desvendado” do título: Porto Culto não é só Porto Culto; é também Porto oculto. Não se leia só com os olhos, mas também com os ouvidos! E eis que o Porto cidade, o Porto da roda (entre aspas) dos Almadas é donde se tenta via, rompendo com o que está, pela metáfora da prosa portuguesa, para a viagem que há nas viagens. Neste roteiro metafísico, se o Porto Culto, – ciências, livros, erudição – está no princípio, o Porto Oculto está no fim. E para que não nos enganemos, ali está, sublinhada onde convém, a páginas cento e noventa e cinco, esta citação do Fédon: “Eu creio que em tais matérias (imortalidade da alma) chegar à evidência nesta vida é impossível ou dificílimo… Cumpre, porém, esforçarmo-nos por saber o que há a tal respeito, e, se não podemos alcançá-lo, tomar-se-á dentre as opiniões humanas a melhor e a que melhor resiste, e sobre ela nos estabeleceremos como sobre uma jangada para atravessar a vida, salvo se pudermos deparar com que nos embarquemos sobre um navio mais sólido e sobre uma palavra divina, que nos conduza em toda a segurança ao termo da viagem.”

Também eu viajei pelo Brasil e pela Espanha e muitas vezes, cheio de saudades da Pátria, me perguntei se teria Bruno razão em dizer que não se viajava para regressar, mas para não chegar. Já não é mau que os portugueses conheçam a filosofia de Bruno através da Mensagem e da Ode Marítima. Eu sabia que no porto há outro porto… sempre por achar, que nas viagens há a viagem e que as naus da iniciação são a metáfora e a saudade; sabia, no entanto, também que o mar com fim é o mar de Ulisses e o outro é um mar sem fim; mas a “roda” da brasileira girava como um fascínio sobre si mesma e, se eu tentava via, temia a ruptura. Mas, às vezes, mesmo depois da ruptura, não queremos acreditar. Assim aconteceu a Camões escrevendo os “Sôbolos rios que vão” e confundindo a Pátria divina com a Pátria terrena.

“Chegando e parando recomeça o tédio.” Quer o porto de amarra seja Brasília, Granada ou Lisboa. Só que, quando chegamos, de regresso a quem nos viu nascer, só resta o casulo da crisálida que deixáramos ao partir: encontramos os mesmos literatos, os mesmos políticos, os mesmos burocratas. Tudo dorme, com a diferença de que não há princesa encantada. Então, partimos de novo, mas “o mal é sem cura”.

Do tédio e do mal do mundo nos fala Bruno através de Baudelaire e de outros “desperados” do espírito. E tudo para mostrar que nem as viagens, que só nos deslocam no espaço, nem os alucinógenos, que já não têm eficácia quando a consciência da dor e do tédio é maior, podem transportar-nos àquele oculto porto interior e exterior.

Seria preciso descobrir uma espécie de alucinógeno, cuja energia não viesse da matéria. Esse alucinógeno interno é a metáfora.

Imagine o leitor que o espírito existe. E imagine fora da palavra, que é como quem diz fora da viagem. Não vê nada.

Imagine-o agora pela metáfora do corpo. Eu tenho que ir para o Brasil: tomo o barco ou o avião que é uma outra espécie de barco. Sem o barco, não podia o meu corpo passar as águas: afundar-se-ia. Ora se o espírito também possui uma certa gravidade, que é talvez a que lhe vem do contágio do corpo, para ir daqui para ali, precisa também dum barco. Só que um barco de madeira não serve, porque o espírito não é matéria. É a metáfora que serve. Sem ela fica parado, confunde-se com o corpo, adopta os seus automatismos, dorme nele. Mas por onde viaja o espírito que a metáfora transporta? Comunica com outros espíritos. Qual é o porto que busca? Nenhum porque na viagem que é o comunicar com outros espíritos encontra a sua razão suficiente. Diríamos que o porto aqui, na zona do espírito, é o próprio barco.

Se a metáfora está certa, o porto é o barco. Então, nem todas as metáforas estão certas?

Na Ideia de Deus, ao explicar para o leitor a razão de ter escolhido Bruno como pseudónimo, diz o filósofo que o fez por admirar muito o italiano Giordano Bruno. Pode ser que assim fosse. Mas como o nome Bruno sugere ainda outra coisa, algo de obscuro, de brumoso, de encoberto, eu gosto de pensar que José Pereira Sampaio o escolheu também para nos dar o sinal do esoterismo que há nos seus escritos. Esse esoterismo, como muito bem escreveu Joel Serrão, tem por fundamento a cabala. Da cabala provém a sua teoria do conhecimento, o seu evolucionismo, a sua concepção duma queda em Deus, a sua teodiceia, e até aquela estranha formulação de uma nova aritmética em que o zero vale nove.

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