O QUARTO REICH: O QUE ALGUNS EUROPEUS VÊEM QUANDO OLHAM PARA A ALEMANHA – por Nikolaus Blome, Sven Böll, Katrin Kuntz, Dirk Kurbjuweit, Walter Mayr, Mathieu von Rohr, Christoph Scheuermann, Christoph Schult – DER SPIEGEL – III

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 Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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‘O quarto Reich’: O que alguns europeus vêem quando olham para a Alemanha

Nikolaus Blome, Sven Böll, Katrin Kuntz, Dirk Kurbjuweit, Walter Mayr, Mathieu von Rohr, Christoph Scheuermann, Christoph Schult,

‘The Fourth Reich’: What Some Europeans See When They Look at Germany

Der Spiegel on-line, 23  de Março de 2015 

(CONTINUAÇÃO)

‘O sangue do nosso povo’

O temor da hegemonia alemã na Europa não  é em lado nenhum tão grande como o é provavelmente em França, três vezes ocupada, pelo menos parcialmente, pelo  seu vizinho durante um período de 80 anos. A “Germanofobia” aumentou dramaticamente nos últimos anos, em todo o espectro político, da Frente Nacional até à ala esquerda do governo socialista. Isto tem parcialmente servido para desviar a população de se concentrar nas falhas dos seus líderes políticos para implementar as reformas, mas, no entanto, são sentimentos que merecem ser levados a sério.

O intelectual francês de esquerda, Emmanuel Todd,  avisa-nos de que a Alemanha está “cada vez mais a procurar de forma crescente aplicar uma política do poder e de uma oculta expansão .” A Europa, diz –nos ele, está a ser governada por uma Alemanha que, no seu passado, constantemente tem oscilado entre a razão e a megalomania. Desde a reunificação, diz Todd, a Alemanha, colocou uma enorme área da Europa Oriental sob o seu controle, uma região, outrora sob a influência dos soviéticos, para a utilizar agora para satisfazer os seus próprios objectivos económicos.

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Thomas Piketty on the Euro Zone: ‘We Have Created a Monster’

Em Atenas, num edifício que pertence ao Ministério da cultura, Nikos Xydakis, vice-ministro da cultura para o governo de Syriza, dá eco a esse sentimento.

“É como se o meu país esteja a sofrer as consequências da guerra,” diz-nos. As condições da economia europeia arruinaram a Grécia, diz-nos  ele: “nós perdemos um quarto do nosso produto interno bruto e um quarto da nossa população está desempregada.” Além disso, acrescenta, a Grécia não pediu empréstimos de resgate, estes eram obrigatórios sobre o país, juntamente com o programa de redução de custos. “Agora estamos a pagar com o sangue do nosso povo.”

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German occupation troops in the ransacked Greek village of Distomo on June 10, 1944, shortly after 218 local residents were executed as part of Nazi reprisals.

A Alemanha, diz ele, tornou-se muito poderosa na Europa. O país, admite, é um líder, tanto política como economicamente. “Mas aqueles que querem ser um líder têm que se comportar como um líder também.” A Alemanha, diz ele, deve ser mais generosa e deve deixar  de ver os países mais fracos na Europa como lhe sendo   seus inferiores.

Xydakis diz que tem de pagar aluguer pelo seu gabinete, porque o prédio foi vendido para um fundo para ajudar a pagar a dívida de Atenas. “Eu sinto-me como se estejamos em Leipzig ou Dresden com as bombas a cair.” A única diferença, diz ele, é que as bombas de hoje vem disfarçadas como medidas de poupança, de austeridade.

Para ele – assim como quase todos os críticos da política alemã–uma única palavra tornou-se o centro das suas queixas: austeridade. Referem-se às políticas restritivas, de thrift, um conceito que tem conotações positivas, na Alemanha. Mas nos países europeus mais atingidos pela crise da dívida, esta ideia representa uma duríssima política de  privação imposta externamente. A Alemanha não está apenas a exportar os seus bens, a Alemanha exporta as suas regras.

Uma agressiva política comercial?

As mercadorias, estamos seguros disso mesmo, são vendidas sem qualquer forma de coerção. A Europa gosta e bem dos produtos feitos na Alemanha, e o excedente de exportação de Berlim em 2014 situou-se em mais de 7% do seu PIB. O excedente de exportações significa que a Alemanha, ao negociar com outros países, recebe mais dinheiro pelos bens que exporta do que o que gasta nos bens que importa. A diferença muitas vezes flui e sai para fora da Alemanha sob a forma de exportações de capital, como se diz destes movimentos de capital. Por outras palavras, os bancos alemães emprestam dinheiro aos estrangeiros para que eles possam comprar produtos alemães.

Desde a viragem do milénio, o excedente da Alemanha quase que quadruplicou e agora é de € 217 mil milhões. Só com a França, o excedente era de € 30 mil milhões em 2014. Mesmo que as exportações para os Estados-Membros da zona euro tenham caído em consequência da crise, nenhum outro país no mundo tem um excedente comercial tão grande quanto o da Alemanha. A que é isto devido? Será devido a uma política comercial agressiva?

O economista alemão Henrik Enderlein não é dogmático e não olha para o mundo com lentes nacionais. É professor de economia política em Hertie School of Governance em Berlim, Enderlein estudou em França e nos EUA, trabalhou no Banco Central Europeu (BCE) e leccionou em Harvard. Henrik Enderlein é um conselheiro económico do partido Social-Democratas alemão e o seu pai era um político ligado aos Democratas Livres. “O facto de que a Alemanha tem hoje o maior excedente comercial do mundo tem uma explicação simples,” diz ele. “Com a introdução do euro, não tivemos nenhuma outra escolha que não fosse a de nos  tornarmo-nos mais competitivos. Mas é um absurdo acreditar que Alemanha o fez para prejudicar outros países”.

Enderlein acredita que a Alemanha não se tem conscientemente esforçado para ter o seu actual papel na Europa mas sim que esse facto se deve à estrutura da zona euro. Ele também acredita que o BCE é parcialmente culpado porque nos anos que se seguiram à introdução do euro em 1999, a taxa de juro de referência da zona euro foi mantida entre 3 e 4 por cento. Para os países do Sul da Europa, isso era demasiado baixo e levou a um boom fazendo rapidamente subir os salários e os preços. Para a Alemanha, por outro lado, tais taxas de juros estavam muito altas e os empregadores não tinham outra escolha que não fosse a de manter os salários baixos a fim de manter seus produtos a preços acessíveis. À primeira vista, isso não parece agressivo, mas os países europeus do Sul queixam-se de que a Alemanha deve ser considerada culpada por “dumping salarial”, ou pela manutenção de salários internos artificialmente baixos.

A resistência à subida dos salários conduziu ao crescimento, à autoconfiança e, em consequência, ao poder dos alemães. Quando Angela Merkel viaja para Bruxelas, fá-lo como líder da economia mais forte na zona Euro. As políticas com que não concorda não são aprovadas. O poder enquanto tal não é uma má coisa quando aqueles que mandam o saibam utilizar sabiamente. Mas fazem-no?

Há um novo tom na Alemanha. É que já não se cumprem os nobres costumes de diplomacia. Comportamentos como sussurrando, sugerindo e insinuando foram substituídas por atitudes ditatoriais de quero, posso e mando. Simplesmente assim.

É isto que é o novo tom na Alemanha, o tom que sai da boca do Ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble. Da Grécia, ele disse ser  “um país que desde há décadas tem sofrido e vivido muito para além dos seus meios, devido a falhas das suas elites — não por causa da Europa, não por causa de Bruxelas e não por causa de Berlim, mas exclusivamente por causa do fracasso da sua elite—e tem que lentamente voltar à realidade, pôr os pés na terra. E quando os responsáveis deste país mentem ao seu povo, não é surpreendente que as pessoas reagem como eles têm reagido”. O ministro proferiu estes comentários na segunda-feira passada num  evento organizado pela Fundação Konrad Adenauer

Triunfalismo

No dia anterior, o ministro de finanças da Baviera, Markus Söder falou da mesma forma agressiva durante uma aparição num  talk show alemão com o ministro de finanças grego Yanis Varoufakis. Ele não perdeu uma única oportunidade de se envaidecer sobre a força económica e financeira da Baviera.

Volker Kauder, líder dos conservadores no Parlamento alemão, é o autor de um exemplo particularmente triunfalista do novo tom com que se fala na Alemanha, pronunciado em 2011. Numa conferência do partido dos democratas-cristãos de Merkel em Leipzig, Kauder disse no seu discurso: “De repente, o alemão está a ser falado na Europa.” Embora os delegados tenham CDU adorado, a sentença não foi bem recebida para lá destes deputados e Kauder diz agora que não a repetirá.

Merkel, claro, nunca adoptaria um tal tom, pelo menos não publicamente. Ela é mais cuidadosa, mesmo que as suas declarações às vezes sejam tão retorcidas que não é imediatamente óbvio o que ela está a querer dizer. Na terça-feira passada, disse aos deputados conservadores em Berlim que “a Alemanha deve ser um país que não deve deixar nada por tentar na busca do progresso.” Ela utilizava a palavra progresso não relacionado com o espaço alemão mas sim com a Grécia.

A Chanceler tem um projecto expansivo que deverá resultar, em última análise, e de que se poderá dizer, em tom de ironia, que se tratará então do  Reich de Merkel. Ela não está tão centrada na Europa, como o seu antecessor, Helmut Kohl, que queria ver a Alemanha dissolvida na União Europeia. Merkel pensa mais em termos de estado-nação, mas ela sabe que a Alemanha sozinha terá pouca influência sobre o mundo. Países que querem ter uma palavra a dizer no mundo devem ter uma bem maior população e uma economia forte. A Alemanha tem esta última característica, mas, em relação à China ou os EUA, falta-lhe a primeira característica — é por isso que a Alemanha precisa da populosa Europa. Mas deve ser uma Europa competitiva e economicamente poderosa — e é nessa direcção que Merkel está a trabalhar.

Desde o início na crise do euro que Merkel desenvolveu algumas ideias em termos do que se pode chamar a procura das melhores práticas face aos objectivos,  bench‑marking . Esta visão de objectivos passou a ser aplicada e os objectivos a serem medidos nos restantes  países europeus em várias categorias, contra o melhor nessa categoria, que muitas vezes é a Alemanha. Desta forma, seria criada uma Europa alemã.

Na batalha contra a crise da dívida na Irlanda, Espanha, Portugal, Chipre e Grécia, a Europa considerou duas abordagens diferentes. Os países do Sul queriam estimular o crescimento através do aumento da despesa pública na esperança de que as receitas do Estado iriam aumentar. A Alemanha e os países do norte da Europa, pelo contrário, preferiam os corte nas despesas e a aplicação de reformas estruturais, uma abordagem que impos exigências significativas aos cidadãos dos países afectados.

A Alemanha economicamente poderosa assume então este seu caminho. Para colocar os países em dificuldade no bom caminho –ou seja, no registo alemão–Merkel utilizou o Fundo Monetário Internacional, evitando assim que a Alemanha tivesse que assumir sozinha o papel de supervisor. Ainda assim, não se deixou de sublinhar que é Berlim que está no comando.

Desde o início da crise que outros líderes europeus ousaram protestar abertamente. O então primeiro-ministro polonês Donald Tusk disse que ele tinha “dúvidas fundamentais sobre o método aplicado” e questionou Merkel numa cimeira da UE: “Porque é que tem que fomentar a divisão?” Mas nove meses mais tarde, Merkel impôs na zona euro a sua própria via, a via alemã, fazendo aprovar o conceito de um “pacto fiscal”. Além disso, os dirigentes da UE concordaram em ancorar os limites da dívida nas suas constituições nacionais, em imporem sanções mais severas para aqueles que excedem os limites máximos do défice e transmitir as reformas estruturais baseadas no modelo da Alemanha e que aí se aplicaram de 2003 a 2005. O falecido sociólogo alemão Ulrich Beck, referiu-se à pressão que foi exercida sobre a Europa por Berlim como “Merkiavelismo .”

(continua)

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Para ler a Parte II deste trabalho do Der Spiegel on line, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

O QUARTO REICH: O QUE ALGUNS EUROPEUS VÊEM QUANDO OLHAM PARA A ALEMANHA – por Nikolaus Blome, Sven Böll, Katrin Kuntz, Dirk Kurbjuweit, Walter Mayr, Mathieu von Rohr, Christoph Scheuermann, Christoph Schult – DER SPIEGEL – II

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Ver original em:

http://www.spiegel.de/international/germany/german-power-in-the-age-of-the-euro-crisis-a-1024714.html

 

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