O QUARTO REICH: O QUE ALGUNS EUROPEUS VÊEM QUANDO OLHAM PARA A ALEMANHA – por Nikolaus Blome, Sven Böll, Katrin Kuntz, Dirk Kurbjuweit, Walter Mayr, Mathieu von Rohr, Christoph Scheuermann, Christoph Schult – DER SPIEGEL – II

Falareconomia1

 Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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‘O quarto Reich: O que alguns europeus vêem quando olham para a Alemanha

Nikolaus Blome, Sven Böll, Katrin Kuntz, Dirk Kurbjuweit, Walter Mayr, Mathieu von Rohr, Christoph Scheuermann, Christoph Schult,

‘The Fourth Reich’: What Some Europeans See When They Look at Germany

Der Spiegel on-line, 23  de Março de 2015 

(continuação)

Uma sombra sobre os dias de hoje

O primeiro-ministro grego Alexis Tsipras certamente não tem a impressão de que é livre para orientar a política do seu país, como ele gostaria de o fazer. Nesta segunda-feira, ele está em Berlim para reuniões com a Chanceler alemã, em que o passado do nacional-socialismo da Alemanha será um tema de conversa. A Grécia está a exigir que a Alemanha pague reparações pelos crimes de guerra nazis, praticados no país durante a segunda guerra mundial.

Estas exigências, é claro, têm muito a ver com o desespero agora sentido por um governo que até agora já actuou com um grau significativo de amadorismo. Mas seria um erro acreditar que o passado alemão já deixou de ser relevante. De novo, ele lança a  sua sombra sobre os dias de hoje.

Griechenlands Reformliste

Uma pesada acusação tem sido feita contra a Alemanha..–por alguns na Grécia, na Espanha e na França, mas também por alguns na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. A crise do euro, argumentam certos políticos, jornalistas e economistas, permitiu à Alemanha dominar o sul da Europa e sufocá-lo a fim de impor os seus princípios, ao mesmo tempo que a sua política de exportação significou que o país lucrou com essa mesma crise do euro e lucrou mais do que qualquer outro país. A imagem da Alemanha nalguns países tornou-se a de um pais economicamente ocupante e egoísta, ladeado por países europeus menores do norte da Europa, a portarem-se da mesma forma.

15-M movement rally in Madrid

Quarto Reich - VII DER SPIEGEL

Gráfico: a dominação germânica

As acusações vêm principalmente de pessoas relevantes na formação de uma opinião pública em países que têm estado sujeitos a um desemprego em massa e este sentimento de antagonismo é palpável, por isso é que os demónios do passado da Alemanha estão a regressar. E não é de surpreender que aqueles que agora sofrem a humilhação possam exigir o pagamento de dívidas passadas. A culpa histórica da Alemanha está agora a ser apontada pelos países mais frágeis como uma arma para se fazerem ouvir e serem ouvidos.

Sondagens feitas no exterior, disso temos a certeza, mostram que os alemães são amplamente respeitados no exterior. Mas na Europa de hoje, as pessoas, no entanto, gritam contra o nazismo quando a política alemã se torna desconfortável.

As acusações contra o governo alemão tem uma estranha dialéctica: a Alemanha é dominante, dizem as pessoas, mas ela não está a liderar. É um poder hegemónico, mas fraco. Isso, também, nos leva à história. No seu livro de 1987 “De Bismarck a Hitler”, o historiador Sebastian Haffner escreveu que no momento de viragem do século a Alemanha tinha uma dimensão um tanto “pesada”. Na sua opinião, era , muito grande e muito pequena. Mais uma vez, isso pode ser verdade.

Como é que é, então, o papel da Alemanha no olhar da Europa no momento quando se está do lado de fora? E do lado de dentro?

Tanques de outrora

Ao lado da bolsa de Milão, não muito longe de onde se encontra uma escultura bem alta, de 11 metros (30 pés) em que com um dedo médio se nos oferece o seu único comentário sobre o declínio da alta finança, está a sede do jornal Il Giornale.

Quarto Reich - VIIILegenda: Estátua de mármore com  11 metros de altura de  Maurizio Cattelan. Foi destinada a ser colocada na praça  Affari, em frente ao Palácio da Bolsa.

Aí, na sede do jornal,  exactamente no mesmo gabinete outrora utilizado pelo importante jornalista italiano e autor Indro Montanelli, está agora sentado Vittorio Feltri. Setenta e um anos de idade, Feltri foi jornalista durante mais de meio século no  Corriere della Sera e noutros jornais. No ano passado,  publicou um livro notável conjuntamente com outro respeitado jornalista chamado Gennaro Sangiuliano, vice-chefe de noticiários para a emissora nacional Rai 1. O seu título: “o quarto Reich: como a Alemanha subjuga a Europa.”

Quarto Reich - IX

Não é desesperante que haja manifestantes radicalizados que estabelecem comparações com o passado. Muitas vezes, respeitados intelectuais e cidadãos que estão livres de preocupações financeiras, como Feltri e Sangiuliano, fazem o mesmo.

Os dois autores vêem o euro como um meio para um fim alemão, e dizem-nos que a moeda comum é uma reminiscência “com ou sem razão” das “divisões de tanques de outrora.” O euro, acreditam estes autores, assegura o território que está sob controle alemão. E o Supremo Tribunal da Alemanha, o Bundesverfassungsgericht? “Parece-se com uma arma da Wehrmacht.” Eles escrevem Chanceler “Merkiavelli, no seu pretensioso quartel-general, o “Kohlosseum”, o mesmo é dizer que a chanceler está agora a completar o plano que Hitler não conseguiu tornar numa realidade. O livro, diz Feltri, destina-se a ser um texto polémico e quer salientar a “inadequação desta moeda comum com a qual é apenas a Alemanha que está a ganhar”.

Uma grande parte da classe política de Itália partilha da opinião de Feltri. No ano passado, o social-democrata Romano Prodi, ex-presidente da Comissão Europeia, levantou a questão  com um ensaio publicado no periódico L’Espresso. “Na Alemanha, os sentimentos populistas e nacionalistas são apoiados por Merkel,” afirmou. “Mas em Bruxelas nos últimos anos, somente um país determina a direcção; a Alemanha encarou mesmo o ajustamento pela austeridade como um meio para dar aos outros países lições de ordem moral inaceitáveis.”

Enquanto que o primeiro ministro italiano Matteo Renzi é cuidadoso em sublinhar a sua proximidade à Alemanha, os tons radicais podem ser ouvidos à direita. O perito sobre a Alemanha Luigi Reitani disse numa conferência no ano passado que alguns em Itália começaram a estabelecer “uma linha das invasões bárbaras pela via de Bismarck e de Hitler a Merkel.”

De modo similar se fala em França. Arnaud Montebourg, que passou a ser mais tarde o ministro de economia, disse em 2011 que “Bismarck uniu os principados alemães para mandar sobre a Europa e, em particular, sobre a França. De uma forma chocantemente similar, Angela Merkel procura resolver os seus problemas internos impondo a ordem económica e financeira,  a que aderiram os conservadores alemães,  ao resto de Europa.” Por outras palavras, as anteriores políticas expansionistas da Alemanha regressaram através da economia.

(continua)

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Para ler a Parte I deste trabalho do Der Spiegel on line, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

O QUARTO REICH: O QUE ALGUNS EUROPEUS VÊEM QUANDO OLHAM PARA A ALEMANHA – por Nikolaus Blome, Sven Böll, Katrin Kuntz, Dirk Kurbjuweit, Walter Mayr, Mathieu von Rohr, Christoph Scheuermann, Christoph Schult – DER SPIEGEL – I

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Ver original em:

http://www.spiegel.de/international/germany/german-power-in-the-age-of-the-euro-crisis-a-1024714.html

 

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