A CRISE NA ESPANHA JÁ PERTENCE À HISTÓRIA? por Edward Hugh – I

 Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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A crise na Espanha já pertence à história?

Edward HughIs The Crisis Now History In Spain?

A Fistful of Euros – European Opinion, 14 de Abril de 2015 

 

Mariano Rajoy é um homem que não é tímido quando se trata de ser controverso, como a tempestade em torno da sua postura sobre as recentes negociações de resgate grego o ilustra claramente. Portanto, talvez não seja de surpreender que ele nem sequer tenha corado quando recentemente informou uma audiência em Madrid que “em muitos aspectos, a crise é já pertença da história.” Tal foi a tempestade que se seguiu que foi forçado a retratar-se, pelo menos parcialmente, da frase ofensiva, depois de uma reunião com dirigentes sindicais quatro dias mais tarde. “Em muitos aspectos, a crise já passou à história, mas as suas consequências não o são,” esclareceu.

Claro que tudo isto é retórica política principalmente no início do que é considerado ser um ano de eleições, mas ainda assim, isto permite levantar questões interessantes. Onde é que está exactamente a Espanha? Quais são as suas perspectivas para o futuro? Está ainda o país em crise, ou é, como Rajoy 2.0 o sugere, a Espanha está simplesmente a sofrer o legado do período anterior ? A estas perguntas não é tão fácil responder como parece à primeira vista, apesar de com tudo o que se segue eu possa vir a estar enganado.

As questões que passaremos a discutir são:

  • tem sido feito o suficiente em termos de competitividade internacional para se ser capaz de garantir uma recuperação “completa” do mercado de trabalho?

  • até que ponto o mercado da habitação em a Espanha está realmente a recuperar?

  • A correcção externa é completa ou não? Ou então o que é que há mais a fazer?

  • A população de Espanha (e especialmente a sua população em idade activa) está em declínio e quais são as implicações económicas desta realidade? E quais são as perspectivas de crescimento de longo prazo para a Espanha?

  • A despesa em pagamentos aos pensionistas continua a crescer mais rapidamente do que o rendimento dos contribuintes – a Espanha precisa de um outro sistema de reformas.

  • A economia da Espanha crescerá rapidamente em termos comparativos em 2015, mas o BCE está a comprar títulos do governo de Espanha, as taxas de juros do BCE estão perto de zero, e o país está a ter o maior défice orçamental da UE. O que será o crescimento em Espanha sem o défice e com uma “normalização” das taxas de juros?

  • A dívida soberana de Espanha está prestes a passar a barra dos 100% do PIB em nível, e será o próximo governo capaz de estabilizar a dívida, ou esta vai continuar a crescer?

  • A retoma de Espanha é neste momento feita em grande parte a partir do aumento do consumo em bens e serviços apenas. A indústria e as despesas em capital continuam a ficar para trás. Este perfil é sustentável a longo prazo?

Os problemas ligados à deflação, ao envelhecimento da população e à crise das pensões são analisadas nos seguintes artigos publicados :

SPAIN’S “GOOD” DEFLATION?

WHY IS SPAIN’S POPULATION LOSS AN ECONOMIC PROBLEM?

SPAIN – FUELLING TODAY’S RETAIL SALES BY SPENDING TOMORROW’S PENSIONS?

A retoma da Espanha é real

A coisa mais marcante e óbvia acerca da retoma económica em Espanha é a maneira pela qual real as taxas de crescimento do PIB em termos reais (ajustada pela inflação) têm constantemente acelerado. A economia do país – com um crescimento trimestral de 0,8% – teve um dos mais fortes crescimentos na zona euro nos primeiros três meses de 2015. A taxa anual acelerou para 2,5%, enquanto que a taxa de crescimento do ano 2014 (em comparação com 2013, em que desceu 1,2%) foi de 1,4%.

 

edwardhugh - I

Estes são bons resultados, mas vale a pena ter ainda em mente que tudo é relativo e que ainda há um longo e árduo caminho a percorrer. Os níveis de PIB ainda permanecem cerca 4,5% abaixo do nível de pré-crise. E enquanto as previsões (possivelmente optimistas) do Banco de Espanha são de um crescimento robusto no futuro próximo, de 2,8% em 2015 e de 2,7% em 2016 e até mesmo com a realização destas perspectivas isto significará que o nível anterior à crise não se alcançará antes de 2017, o que dá um sentido muito concreto e preciso para o termo “década perdida”. O verdadeiro debate é então sobre a década seguinte, se sim ou não essa década será também ela perdida com a deflação e a estagnação secular firmemente a marcarem presença, no contexto de um envelhecimento e de declínio de população (veja-se o mais recente relatório do FMI sobre este problema e veja-se igualmente Larry Summers[1] sobre a estagnação Secular). A Espanha não está em risco de se tornar o Japão 2.0?

edwardhugh - II

Certamente há muita gente em Espanha que nega essa possibilidade, e entre eles está o ministro da economia Luis De Guindos, que disse recentemente ao Wall Street Journal que esperava um crescimento de 2,5% a 3% nos próximos dois a três anos com a tendência de simplesmente continuar assim para além dessa data. Com o Governador do Banco de Espanha Luis Maria Linde teríamos o mesmo optimismo. O governador disse recentemente aos repórteres da Bloomberg que as taxas de juros negativas seria um fenómeno temporário que desapareceria quando as histórias da retoma se fizessem ouvir e que era muito mais fácil afirmar “não havia nenhum risco de deflação” em Espanha do que tinha sido há alguns meses atrás (quando ele foi também ia dizendo que não havia nenhum risco de deflação). Tais afirmações são difíceis de se concordar com elas agora ou de se contra-argumentar contra elas, uma vez que ninguém realmente conhece o futuro. As palavras são fáceis, enquanto os modelos económicos simplesmente debitam previsões na base da história passada, na base dos resultados do passado. Neste momento, a única coisa de que podemos ter a certeza é de que o futuro se vai parecer muito menos com o passado do que anteriormente, e então as previsões com base em dados antigos têm muito menos validade agora do que nunca antes. Ao mesmo tempo a simples teoria económica sugere que quando a força de trabalho declina, diminui, o crescimento económico também seguirá a mesma evolução.

edwardhugh - III

Ainda assim, estas previsões mais optimistas a confirmarem-se com as taxas de crescimento resultantes e ao longo de um período de tempo sustentado claramente transformariam o país na zona Euro mais eficiente e de mais rápido crescimento da economia, e é difícil ver de onde vem a base para uma tal confiança, para estas mesmas expectativas, acrescentaríamos. Quando a economia da Espanha cresceu a taxas de 3% ou mais durante uma década ou mais, há anos atrás, isto deu-se mas foi na base de um endividamento excessivo e de um insustentável crescimento e deseja-se que isto não venha de novo a acontecer, mesmo se estas taxas fossem desejáveis. A economia da Espanha pode bem crescer a mais de 2,5% este ano (embora com uma deflação do PIB nominal vai crescer menos), mas – mas se não acontecer algo inesperado como o Grexit – é difícil imaginar um ambiente mais positivo de crescimento. Como é que chegaremos até 2016, como se costuma dizer, isso…depende…

edwardhugh - IV

(continua)

_________

[1] Veja Lawrence H. Summers, On Secular Stagnation: A Response to Bernanke, texto disponível em:

http://larrysummers.com/2015/04/01/on-secular-stagnation-a-response-to-bernanke/

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Edward Hugh, Is The Crisis Now History In Spain? Texto publicado em A Fistful Of Euros-European Opinion, disponível em:

http://fistfulofeuros.net/afoe/is-the-crisis-now-history-in-spain/

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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