UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (87)

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AQUI, TAMBÉM É PORTO!

E por aqui, entenda-se Azevedo, e por Azevedo, Campanhã, a maior freguesia da cidade do Porto.

Azevedo é um canto do Porto, que fica fora do Porto, um enclave. Olhando à nossa volta vemos um povoado empobrecido, rural e quase abandonado de acessos dignos (A IC 29, foi um começo que serviu para beneficiar Gondomar).

Azevedo é lugar muito antigo, tem a primeira referência conhecida em 1343, e é uma espécie de degredo do Porto, muito pobre e muito velho, tanto no que respeita ao casario como no que diz respeito às pessoas. Ninguém quer viver naquele lugar, e assim, os novos fogem para Valongo, Gondomar ou Vila Nova de Gaia.
Azevedo fica como que fora de portas. Quando a Circunvalação foi construída, deixaram uma parte do Porto, do lado de lá. De tal forma, que há ainda quem pense que essa zona do Porto, pertence a Rio Tinto, Gondomar.
Puro engano!

Para lá da “muralha” da Estrada da Circunvalação, ainda há muito Porto. Estão lá o Bairro do Lagarteiro, a Quinta das Areias (Horto Municipal), e o Parque Oriental da Cidade (ainda incompleto, mas muito bonito).
Já não bastava que, ao longo de muitos anos, Campanhã tivesse sido esquecida pelas autoridades, para ainda lhe “cortarem”, no que diz respeito ao conhecimento público, uma parte do seu território.
Os rios que atravessam Azevedo, o rio Torto (passa do lado nascente, pela Granja) e o rio Tinto (este, limita a poente o Parque Oriental da cidade do Porto), desaguam a escassos cem metros um do outro, junto à Marina do Freixo.

Há muitos anos, para aí quatro décadas ou mais, tive uma quase namorada de quase mão na mão e de nem sequer um beijo, que morava em Azevedo. Já nessa altura, Azevedo era triste e pobre. O autocarro no qual se deslocava nas viagens de vinda e volta, de casa para o liceu, tinha o início da carreira em frente a São Bento. Era o autocarro da carreira “F”, talvez os mais velhos e decrépitos autocarros dos STCP. Velhos, muitos velhos, arruinados e verdes (era a cor dos autocarros na altura), ronceiros e barulhentos, iam largando pingas de óleo em chamas na subida para Azevedo e, no regresso, pela rua do Freixo acima. Já na altura eram o sinónimo do abandono a que Campanhã, e Azevedo em particular, estavam votados.

Autocarro Daymler, com motorista à direita. Carreira F
Autocarro Daymler, com motorista à direita. Carreira F

Como bom e diligente “namorado”, ia, várias vezes por semana, levar a menina a casa. Acompanhava-a no autocarro, sentados lado a lado, num dos bancos de estofos de napa, de dois lugares e igualmente de cor verde. As minhas tentativas de ir de mão-na-mão saíram, invariavelmente, frustradas. À chegada a Azevedo, e na subida, quase lá em cima, a “namorada” saía e eu continuava, mudando de lugar, lá para a frente, no único banco, solitário, ao lado do motorista.
Estes autocarros, como vinham de Inglaterra, tinham o volante à direita e, do lado esquerdo, separado pelo motor que vinha até à altura dos bancos, havia o tal banco, bem chegado ao pára-brisas.
Acabada a subida, o autocarro dava a volta e começava a descida de regresso a São Bento. Algumas centenas de metros depois, poucas, lá estava eu a acenar à minha amiga, que esperava pela passagem do autocarro para uma última despedida.

Nessa altura, sobre Azevedo, era isso que eu conhecia.

Hoje, pouco mais sei, quase tanto como os meus concidadãos.
No entanto, há por lá:
– Um bairro, de que toda a gente fala, pelos piores motivos, mas ninguém sabe onde fica, o Lagarteiro.
– Um parque de que todos ouviram falar, mas ninguém lá vai (acabará por, quem sabe um dia, vir a ter os 81 hectares prometidos, espalhados pelo vale do rio Tinto, nos quais se incluiria a Quinta da Revolta, uma estalagem e um Centro Hípico Internacional).

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– O Horto Municipal (Quinta das Areias) que todos sabem que existe, mas do qual ninguém fala por não imaginarem onde se situa.
– Uma Capela, a de São Pedro, de que só os locais conhecerão a existência, apesar de, ser a primitiva antiquíssima (era em 1120 uma coisinha pequenina, oferecida ao bispo do Porto, D. Hugo, e mandada restaurar por D. Afonso Henriques, em 1138), e a actual ter já mais de 125 anos.

Capela de São Pedro de Azevedo
Capela de São Pedro de Azevedo

– Outra capela, a do Forte, assim chamada por ter sido ali que estiveram acantonados os Miguelistas durante o Cerco do Porto, e da qual ninguém ouve falar. Fica na rua do Outeiro do Tine.

Capela do Forte, dedicada ao Senhor do Calvário. Fot de J.Portojo (a vida em fotos)
Capela do Forte, dedicada ao Senhor do Calvário.
Fot de J.Portojo (a vida em fotos)

– Uma quinta, a da Revolta (onde fica o Horto do Freixo, que foi o melhor horto da cidade do Porto – hoje pertença da família de Alfredo Moreira da Silva e em completa decadência), por onde corre o rio Tinto, que pertenceu aos Viscondes de Balsemão (era a sua casa de veraneio) e tem uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição.
– Um rio extremamente poluído, o rio Tinto, que tem beneficiado de um trabalho enorme de limpeza e despoluição na zona de Azevedo, no âmbito do Projecto Rios (o troço trabalhado situa-se junto da ponte de Azevedo e tem 500 metros – com início 100 metros a montante da ponte e fim antes da ETAR do Freixo), e outro que o não é menos, o rio Torto.
– Ruas estreitas, cheias de casas velhas e degradadas, a par de algumas mais novas e feias.

O executivo que agora lidera a Câmara Municipal do Porto comprometeu-se, prioritariamente, a desenvolver Campanhã. Espera-se que se não esqueça que Azevedo, apesar de estar do outro lado dos chamados limites da cidade, também é Porto.
Azevedo é, de longe, a zona da cidade do Porto mais carente de benefícios de toda a espécie e feitio.

Esperemos!

 

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18 Comments

  1. Amigo José Magalhães, nasci na Rua da Granja, em Sº Pedro a minha familia tem registo desde 1850 no local, conheci Azevedo sem o bairro quando foi construido, mandaram para lá familias das mais baixas taxas de educação, fizeram do local o caixote do lixo do Porto. Não progrediu porque aquele territorio era de duas familias que tinham poder e não autorizarão a abertura de uma estrada até Fanzeres por isso os palacetes dessa gente mesquinha esta tudo abandonado, que impediu o progresso há de setenta anos atrás, por isso como o amigo e eu viajei no autocarro da foto porque não cabia na estrada, e digo mais houve pelo menos 2 presidentes de camara que desconheciam que ali ainda é Porto. No meu B.I. diz natural Campanhã Porto.( Moro em Campanhã não no mesmo sitio) Os meus sinceros comprimentos Sr:José Magalhâes

  2. Uma bela crónica sobre uma das zonas mais “esquecidas” da cidade…No principio deste ano, andei por
    por S. Pedro e um pouco por Azevedo de Campanhã…senti-me por momentos num “lugarejo” de aldeia,
    com casas degradadas…e armazéns abandonados…entrei num tasco para beber um copo e petiscar uma
    isca de bacalhau e o dono foi-se abrindo” …isto agora é só “ressacados”…foram expulsos do Aleixo e
    mandaram-nos para o Lagarteiro e para o ,Cerco…enfim,criaram “um novo Tarrafal…”
    É urgente que a CMP, possa dinamizar esta parte oriental…que tem sido desprezada por todos os autarcas…
    alguns, nem conheciam…pensavam que estavam em Gondomar…

  3. Fui nascido e criado em S. Pedro de Campanhã e quando lá passo nos dias de hoje sinto uma grande tristeza por aquele lugar ter vindo a perder a magia das suas gentes. Excelente texto.

  4. Boa noite meu caro José Magalhães, desculpe só agora mencionar os presidentes da camara desconhecedores de S.PEDRO DE AZEVEDO, Fernando Cabral e RUI RIO. UM ABRAÇO AMIGO

  5. De facto, desde que o meu grupo do Projecto Rios iniciou o trabalho de recuperação do rio Tinto, em Azevedo, sinto estar numa região esquecida e desinteressada em dar valor e lutar por aquilo que tem de melhor – o seu património natural (rios Tinto e Torto) e histórico. Nós somos um grupo do Porto e estamos a estudar o rio Tinto desde 2010, mas sempre senti que a vontade de envolvimento e a apatia dos locatários não é nenhuma. Talvez mesmo porque se sentem esquecidos …..
    Obrigado pelo seu testemunho.

    Isabel Ribeiro

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