Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A desilusão da política de austeridade
A política de austeridade como resposta à crise é uma grande mentira. Porque é que a Grã-Bretanha ainda acredita nisso?
Paul Krugman, The austerity delusion-The case for cuts was a lie. Why does Britain still believe it?
The Guardian, 29 de Abril de 2015
(CONTINUAÇÃO)
…
Capítulo 3 – Declínio e queda do culto da austeridade
Para compreender o que aconteceu com o austerianismo será bom então começar por apresentar dois gráficos.
O primeiro gráfico mostra as taxas de juros sobre os títulos de um conjunto seleccionado de países desenvolvidos a partir de meados de Abril de 2015. O que se pode ver imediatamente é que a Grécia permanece um caso único, mais de cinco anos depois de ter sido anunciado que ela representava uma lição para todas as nações. Toda a gente está a pagar juros muito baixos e mesmo a níveis históricos. Isso inclui os Estados Unidos, onde os co-presidentes de uma Comissão de dívida criada pelo Presidente Obama com confiança plena avisou de que a crise se aproximava, a poder rebentar dentro de dois anos, a menos que as suas recomendações fossem adoptadas; Isso foi há quatro anos. Inclui a Espanha e a Itália, que enfrentaram uma situação de pânico financeiro em 2011-2012, mas vê-se que o pânico diminui – apesar da dívida ter continuado a subir – uma vez que o Banco Central Europeu começou a fazer o seu trabalho como refinanciador de última instância. Esta situação inclui a França, que muitos comentadores apontavam como sendo o próximo dominó a cair, ainda agora pode contrair empréstimos a longo prazo e a menos de 0,5%. E esta mesma situação inclui o Japão, que tem como dívida pública mais de duas vezes o produto interno bruto e paga juros ainda mais baixos.
A excepção grega
As taxas de juros a 10 anos em 14 Abril de 2015
Gráfico 1- Fonte: Bloomberg
Em 2010, alguns economistas argumentaram que os temores de uma crise de financiamento do estilo grego foram largamente exagerados – referi-me ao mito dos “vigilantes das obrigações invisíveis”. Bem, esses vigilantes das obrigações de dívida pública ficaram invisíveis. Para países como o Reino Unido, EUA e Japão que contraem empréstimos nas suas próprias moedas, é difícil ver como as crises previstas poderiam acontecer. Tais países não podem, queira-se ou não, ficar sem dinheiro, e se as preocupações sobre a sua solvência podem enfraquecer o valor da sua moeda, isso ajudaria na verdade as suas economias, num tempo de fraco crescimento e de baixa inflação.
O gráfico 2 leva um pouco mais de tempo a explicar. Um par de anos depois da grande viragem no sentido de se passarem a aplicar políticas de austeridade, um número de economistas considerou que os austerianos estavam a realizar o que poderia ser considerado como uma grande experiência natural. Historicamente, os grandes cortes na despesa pública geralmente ocorreram também em economias superaquecidas, sofrendo de inflação, ou então no rescaldo das guerras, com as nações a desmobilizarem da guerra. Nenhum tipo de episódio oferece muita orientação sobre o que se pode esperar de cortes na despesa pública – aumento de impostos em economias já deprimidas – que os austerianos defendiam. Mas depois de 2009, numa situação de depressão económica generalizada, alguns países escolheram (ou foram forçados) a impor uma severa austeridade enquanto outros não. Então o que aconteceu?
Austeridade e crescimento em 2009-13
Mais austeras são as políticas, mais fraca é a taxa de crescimento
No gráfico 2, cada ponto representa a experiência de uma economia avançada de 2009 a 2013, o último ano de grandes cortes na despesa pública. O eixo horizontal mostra uma medida amplamente utilizada de austeridade – a variação média anual do excedente primário corrigido pelas variações conjunturais, uma estimativa que poderia ser dada pela diferença entre receitas estatais e despesas com exclusão da carga da dívida se a economia estivesse em pleno emprego. À medida que nos movemos para a direita no gráfico, por outras palavras, é a austeridade que se torna mais grave. Poderíamos estar aqui a analisar os detalhes desta medida mas o resultado básico – uma dura austeridade na Irlanda, Espanha e Portugal, e terrivelmente dura austeridade na Grécia – é seguramente certa.
Enquanto isso, o eixo vertical mostra a taxa anual de crescimento económico durante o mesmo período. A correlação negativa é, claro, forte e óbvia – e não o que o austerianos tinha afirmado que iria acontecer.
Mais uma vez, alguns economistas argumentaram, desde o início, que toda a conversa à volta de austeridade expansionista era completamente tola – a ideia voltou em 2010 e apelidei-a então de rença na “fada da confiança”, um termo que parece ter ficado na memória.. Mas porque é que a suposta evidência estatística – de Alesina, entre outros – de que os cortes na despesa pública eram muitas vezes bons para o crescimento se mostraram tão enganadoras?
A resposta, afirmou-se, era de que não era um muito bom trabalho estatístico. Uma analise desse trabalho foi feita pelo FMI e segundo esta Instituição os métodos utilizados por Alesina para identificar exemplos de austeridade acentuada estão na origem de muitos exemplos de más identificações. Por exemplo, em 2000 o défice da Finlândia caiu drasticamente, graças a um forte crescimento de mercado de acções, o que provocou um aumento nas receitas do governo – mas Alesina equivocadamente identificou isto como um programa de grande austeridade. Quando o FMI laboriosamente utilizou um novo banco de dados sobre medidas de austeridade, derivado das mudanças actuais nas taxas de despesas publicas e impostos, verificou que a austeridade tem um efeito consistentemente negativo no crescimento.
E contudo a análise do FMI ficou aquém – como eventualmente o reconhece a própria Instituição. Já expliquei o porquê: a maioria dos episódios históricos de austeridade ocorreram sob condições muito diferentes daquelas com que se defrontam as economias ocidentais em 2010. Por exemplo, quando o Canadá começou uma grande contenção fiscal em meados da década de 1990, as taxas de juros eram altas e neste caso o banco do Canadá poderia compensar a austeridade orçamental com fortes cortes nas taxas de juro – o que não é então um modelo útil com resultados prováveis da austeridade nas economias onde as taxas de juros já são muito baixas. Em 2010 e 2011, as projecções do FMI quanto aos efeitos dos programas de austeridade assumiram que esses efeitos seriam semelhantes à média histórica. Mas um texto de 2013 de co-autoria do economista-chefe da organização concluiu que sob condições do período pós-crise o verdadeiro efeito tinha acabado por ser quase três vezes o valor anteriormente esperado.
Foi assim, então, para os vigilantes das obrigações da dívida pública e a fé na fada da confiança. E que dizer sobre o espantalho de socorro, a tese de Reinhart-Rogoff que havia uma linha vermelha para a dívida ao atingir os 90% do PIB?
Bem, no início 2013 os investigadores na Universidade de Massachusetts examinaram os dados de que se serviram Reinhart-Rogoff para chegarem a tese da linha vermelha. Estes investigadores de Massuchusetts descobriram que os resultados foram parcialmente impulsionados por um erro na folha de cálculo. Mais importante, os resultados não eram nada robustos: utilizando procedimentos estatísticos estandardizados ao invés da abordagem estranha feita por Reinhart e Rogoff, ou adicionando mais alguns anos em termos de dados, levaram a que desaparecesse a linha vermelha dos 90% como tecto. O que restava era uma modesta correlação negativa entre a dívida e o crescimento, e havia boas razões para acreditar que em geral, crescimento lento provoca dívida elevada , não o contrário.
Há dois anos atrás, então, todo o edifício da economia austeriana tinha ruido. Os acontecimentos não tinham de modo nenhum funcionado como o previram os austerianos, enquanto a investigação académica que alegadamente apoiou esta doutrina tinha murchado sob forte análise crítica. Dificilmente alguém admitiria estar errado – quase ninguém o fez, sobre todo e qualquer assunto – mas muitos proeminentes austerianos negam agora ter dito o que eles fizeram, no plano dos factos, digamos. A doutrina que governava o mundo em 2010 terá mais ou menos desaparecido de cena.
Excepto na Grã-Bretanha.
(continua)
________
Paul Krugman, The austerity delusion-The case for cuts was a lie. Why does Britain still believe it?.
Texto publicado em The Guardian e disponível em:
http://www.theguardian.com/business/ng-interactive/2015/apr/29/the-austerity-delusion
Follow the Long Read on Twitter: @gdnlongread
________







