A GRÉCIA DE AGORA E A MITOLOGIA GREGA, POR JÚLIO MARQUES MOTA – INTRODUÇÃO AOS TEXTOS DE EDWARD HUGH E PHILIPPE LEGRAIN – i

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Introdução aos textos de Edward Hugh e de Philippe Legrain

 

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 Legenda. Ilustração do Financial Times

Vamos publicar dois textos que consideramos de grande importância para percebermos o que se passa quanto à pressão que está a ser exercida sobre a Grécia e sobre quem é que a exerce e, igualmente, sobre quem mais participa nessa mesma pressão, um de Edward Hugh, Se não tivesse existido a Grécia, os líderes europeus teria de a inventar, e um outro de Philippe Legrain, As autoridades da zona do euro estão a provocar uma crise de liquidez na Grécia para forçá-la a capitular .

O texto de Edward Hugh tem o mérito de levantar a questão da ideia do bode expiatório, ou seja, de a Grécia estar a ser tratada por todos os restantes Estados membros como alguém que tem de expiar os males da Europa. Repõe-nos assim perante o pensamento mágico-religioso do tempo das trevas e as suas práticas. No caso particular, reenvia-nos aos tempos da barbárie na Grécia, bem antes do nascimento de Cristo, e à figura importante na mitologia grega que é o pharmakos, o equivalente, embora muito mais complexo, da ideia de bode expiatório que está presente nos textos da cultura cristã, como nos é explicitado no Levítico.

A leitura do texto de Edward Hugh e depois do de Legrain levou-nos assim a interessarmo-nos pela figura do pharmakos e com este nos é-nos colocada a questão da purificação e o problema consequente do mal a ser extirpado. Três grandes temas, todos eles ligados e, sejamos, claros, ligados não só à Alemanha, não só à Grécia, mas igualmente a todos nós. Destes, dado o fim a que nos propomos, damos aqui maior relevância às condições de existência do pharmakos, considerando os outros dois aqui apenas como colaterais, portanto.

Nesse sentido decidi apresentar-vos um pequeno texto sobre cada um destes temas, um maior dedicado ao pharmakos, e os outros dois bem mais pequenos. Pretende-se que estes possam servir como uma espécie de entrada mais geral para a leitura dos dois autores acima citados, em particular, o de Edward Hugh. Estes textos têm como título:

  1. Uma pequena história da cruz gamada

  2. O pharmakos figura central no pensamento mítico-religioso da Grécia antiga

  3. O pecado, a punição, uma leitura dada pelo Bundesbank

  1. Uma pequena história da cruz gamada

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A suástica tem uma extensa história. Foi usado pelo menos 5.000 anos antes de Adolf Hitler ter desenhado a bandeira nazi. A suástica da palavra vem do sânscrito svastika, que significa “boa sorte” ou “bem-estar.”

O símbolo (uma cruz gamada ) parece ter sido utilizada primeiramente na Eurásia no período Neolítico, talvez representando o movimento do sol através do céu. Até hoje é ainda um símbolo sagrado no hinduísmo, Budismo, jainismo e Odinismo. É uma representação muito comum nos templos ou nas casas na Índia ou Indonésia. As cruzes suásticas também tem uma história antiga na Europa, aparecendo em artefactos de culturas pré-cristãs europeias.

O símbolo teve um ressurgimento no final do século XIX, depois de um extenso trabalho arqueológico desenvolvido pelo famoso arqueólogo Heinrich Schliemann. Schliemann descobriu a cruz gamada no local da antiga Tróia, mas a cruz gamada foi utilizada para uma guerra bem pior que mil vezes as guerras de Troia. Este ligou-a imediatamente com formas semelhantes encontrados na cerâmica, na Alemanha e especulou que era um “significativo símbolo religioso dos nossos remotos antepassados.”

No início do século XX, a cruz suástica foi amplamente utilizada na Europa. Tinha inúmeros significados, sendo o mais comum deles um símbolo da boa sorte e de felicidades. No entanto, o trabalho de Schliemann foi rapidamente retomado pelos movimentos völkisch, para quem a cruz suástica era um símbolo de “Identidade Ariana” e do orgulho nacionalista alemão.

Esta conjectura de descendência cultural ariana do povo alemão é provavelmente um dos principais motivos pelas quais o partido nazi formalmente adoptou a cruz suástica ou cruz gamada (em alemão Hakenkreuz ) como o seu símbolo em 1920.

Na Europa, hoje, este símbolo tem igualmente uma forte uma conotação negativa, e o termo gamada vem da semelhança dos ramos da suástica com a letra grega Gama (Γ) e constitui ainda um tabu das nossas sociedades. No entanto, a associação com “a raça ariana” feita pelo partido national-socialista alemão resulta de “um erro” de interpretação, por parte de Emile Burnouf, que via nas representações das suásticas gregas, um símbolo típico de uma suposta raça superior. Ora a suástica estava presente nas culturas, desde há numerosos séculos antes da declarada origem s “ariana”.

O partido nazi, no entanto, não foi o único partido para usar a suástica na Alemanha. Depois da segunda guerra mundial, um número de movimentos nacionalistas de extrema-direita adoptou a suástica. Como um símbolo, ficou associado com a ideia de um estado racial “puro”. Quando os nazis tomaram o controle da Alemanha, as conotações da suástica mudaram e de forma definitiva.

Em Mein Kampf, Adolf Hitler escreveu: “eu mesmo, entretanto, depois de muitas tentativas , cheguei à a forma final : uma bandeira com um fundo vermelho, um círculo branco e uma cruz suástica a preto, no meio. Depois de longos ensaios também encontrei uma proporção definida entre o tamanho da bandeira e o tamanho do círculo branco, bem como a forma e a dimensão da cruz suástica.”

A suástica tornar-se-ia o ícone mais reconhecível da propaganda nazi, aparecendo na bandeira referida por Hitler em Mein Kampf, bem como nos cartazes eleitorais, nas braçadeiras, nos medalhões e nos emblemas das organizações militares e outros. Um potente símbolo destinado a provocar o orgulho entre os arianos, a suástica também se tornou o terror para os judeus e para outros povos considerados inimigos da Alemanha nazi.

 

(continua)

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