O FT desilude novamente: Francesco Giavazzi sobre a Grécia – por Karl Whelan II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

(conclusão)

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A Grécia como um problema politico

 

Giavazzi sugere que a União Europeia poderia estar em bem melhor situação sem a Grécia em parte porque esta provoca problemas políticos sérios. Mas os problemas políticos que menciona parecem-me razoavelmente bizarros.

O primeiro deles é que a Grécia distrai dos problemas fundamentais

. “Os líderes europeus, em vez de tratarem nas suas cimeiras da grande questão de se saber como é que se pode defender melhor os nossos interesses económicos e militares, agonizam sobre o que hão-de fazer sobre Grécia.”

Isto é, não se pode andar a passear e ao mesmo tempo a mastigar patilha elástica, segundo a escola de pensamento neoliberal do  pensamento político. Podem alguém honestamente argumentar que a enorme política externa da EU e as suas estruturas militares se modificariam com uma melhor abordagem da Rússia de Putin ou do ISIS se a EU tivesse colocado fora da agenda a Grécia na suas cimeiras da UE?

 

O segundo problema político é que a Grécia “é um verdadeiro obstáculo ” face ao necessário maior aprofundamento da união política europeia. Eu não estou certo de como é que isso se faria . Mas mesmo se assim fosse, há claramente obstáculos muito maiores à via para uma mais intensa união política europeia, como o facto de que a maioria de cidadãos europeus não têm nenhum interesse em mais tratados que implicam uma união cada vez mais centralizada, cada vez mais longe dos cidadãos . A zona euro não é, e provavelmente nunca será, qualquer coisa que possa ser considerada como próxima de ser uma zona monetária óptima e responsabilizar os irresponsáveis gregos pelos problemas do euro é triste, é patético, é vergonhoso.

A sublinhar, como um contraponto, é a vizinhança desta Grécia com o mundo (perto da Macedónia, da Albânia, do Kosovo, da Turquia, de Chipre, do Norte de África e do Médio Oriente) e estou certo que a boa condução dos assuntos internacionais deveriam levar a pensar que há algumas boas razões para manter o país na UE.

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A oferta de Giavazzi à Grécia: tudo cenoura e nada de cassetetes

 

A parte mais estranha do artigo de Giavazzi é a sua proposta oferecida à Grécia. É uma abordagem apenas do tipo cenoura e de cassetetes mas que acaba por ser apenas uma abordagem do tipo cenoura.

Giavazzi reconhece que a dívida grega para com a UE é insustentável e (o melhor que eu posso dizer) parece exigir um perdão completo da mesma:

” Uma vez que Atenas entrou para a união monetária, concedemos à Grécia como empréstimo € 400 mil milhões, 1,7 vezes o produto interno bruto do país em 2013. É tempo para uma análise da situação : este dinheiro nunca será reembolsado. E então é uma ilusão imaginar, como os finlandeses o fazem às vezes, que nós poderíamos receber uma compensação em espécie através da aquisição de algumas ilhas gregas. O tempo em que o Império britânico fez o que fez, felizmente, é passado, acabou. O que passou, passou. Quanto mais cedo aceitarmos isso e esquecermos esses empréstimos melhor é. “.

Ok, imaginemos então que isso acontece. Os governos da zona euro perdoam a dívida à Grécia. Dado que a grande maioria da dívida pública da Grécia em dívida está nas mãos destes governos, este perdão da dívida reduziria o seu rácio dívida-PIB para um valor bem abaixo da média da zona euro.

É por isso que o cassetete de Giavazzi não faz nenhum sentido. Tendo perdoado a maior parte da dívida da Grécia, a sua vara é então o seguinte.

“Mas isto não é para o resto da Europa impor reformas impostas à Grécia. Isto deve tornar bem claro que sem reformas sérias, não há mesmo mais empréstimos oficiais. A única maneira de Atenas contrair empréstimos será convencer os mercados de que vai pagar as suas próprias contas. “

Giavazzi pode imaginar que um país que acaba de ter a maioria das suas dívidas anuladas e que está perto de alcançar uma situação de saldo primário em equilíbrio não terá nenhum comprador no mercado de obrigações soberanas porque este país não  fez as reformas suficientes . Mas não é assim que o mundo funciona. Se os mercados de títulos vai emprestar quantidades enormes para satisfação do Brasil ou do México , um perdão sobre a dívida   da Grécia não lhes deve levantar nenhum problema de endividamento.

Assim, Giavazzi está errado quando considera que “os líderes europeus devem parar de tratar o problema grego como se fosse simplesmente um problema de ordem financeira .” Anulem a dívida da Grécia e não haverá mais programas [de resgate], não haverá mais exigência de reformas, não haverá nenhum Grexit e não haverá mais tempo perdido com a Grécia nas cimeiras da UE. No contexto do PIB da EU, o preço a pagar por isto é mesmo muito pequeno. Mas não é um preço que os líderes europeus estejam dispostos a pagar, em parte devido ao precedente que tudo isto possa abrir.

Isto é mesmo e em muito um problema de ordem financeira, embora seja um campo onde a política agora largamente impede que se faça uma análise económica rigorosa para decidir o que precisa de ser feito .

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A complacência sobre Grexit

Apesar de que o seu grande plano para conseguir levar a Grécia a sair do euro (oferta para perdoar toda a sua dívida e, em seguida, exigir a aplicação de todas as reformas …) não iria realmente atingir o seu objectivo, a complacência de Giavazzi sobre a perspectiva da Grécia sair do euro (e, possivelmente, da UE – ninguém realmente sabe como essas coisas iriam funcionar) é uma indicação reveladora do estado de espírito de grande parte dos comentadores políticos da Europa. Ele reconhece que:

“ devido às acções do Banco Central Europeu, a União Monetária é hoje suficientemente resiliente para suportar um Grexit.”

Que acções do BCE? As operações OMT nunca utilizadas, nunca testadas ? Os testes de esforço dos bancos? O compromisso “de fazer o que for preciso para manter o euro-” ? Bem, quando Chipre teve a sua crise em 2013, “fazer tudo o que for preciso” não funcionou senão quando foi assegurado de que a livre circulação de capital se mantinha na zona euro. E se o “fazer tudo o que for preciso” não impedir uma saída grega, haverá então umas muito sérias questões sobre que tipo do euro o BCE está realmente disposto a preservar. Se a Grécia poderá sair, então a seguir qualquer outro país poderá sair se as circunstâncias o justificarem.

Alguém me disse no Twitter a noite passada que ninguém nos mercados financeiros se preocupou sobre se a saída da Grécia da zona euro provoca um qualquer contágio. Isso fez-me sentir muito melhor porque os mercados financeiros nunca estão errados ou será que já mudaram de ideias, correcto?

Apenas mais um apontamento a concluir : Francesco Giavazzi estava verdadeiramente entusiasmado sobre a decisão de deixar ir o Lehman Brothers para a falência. Se gostou tanto disso, suspeito que amará então o Grexit.

Karl Whelan, The FT Lets Itself Down Again: Francesco Giavazzi on Greece. Is this Italy’s answer to Hans-Werner Sinn?. Texto disponível em :

https://medium.com/bull-market/the-ft-lets-itself-down-again-francesco-giavazzi-on-greece-92988bc675eb

 

O FT desilude novamente: Francesco Giavazzi sobre a Grécia – por Karl Whelan I

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