A bomba atómica grega : quantas megatoneladas? – por Jean Claude Werrebrouck

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

A bomba atómica grega : quantas megatoneladas ?

 

Editado por La crise des années 2010

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Uma pequena discussão para começar …

David Amiel e Paul-Adrien Hyppolite publicaram, no Le Monde de 9 de Junho passado, um artigo que se pode qualificar de sério sobre a Grécia. Estes dois autores sublinham que se a dívida pública for dominada largamente por entidades públicas sobre as quais os efeitos de um incumprimento seriam controláveis, a situação será completamente diferente para os agentes privados: empresas, instituições financeiras, ou mesmo famílias.

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Retomando a questão de Lex monetae, os autores precisam que 99,6% da dívida emitida pelas empresas gregas no estrangeiro é enquadrada pelo direito estrangeiro nomeadamente anglo-saxónico. Uma dívida que, por conseguinte, não é protegida pelo Lex monetae. Significa dizer relativamente a estas dívidas que estas são mantidas em euros, enquanto que os activos doravante são designados em Dracmas. Os autores referem um seu estudo que foi apresentado no colóquio “A new Growth Model for the Greek Economy” em Atenas, a 3 de Junho passado, mas não precisam nem a importância dos activos gregos no estrangeiro nem o nível dos recursos em volume de negócios realizados a partir de territórios estrangeiros. Pode-se,contudo, pensar que fora os armadores, estes recursos serão limitados, devido à fraca internacionalização das empresas gregas.

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A saída do euro seria por conseguinte a priori catastrófica para os credores privados. Com esta restrição de que os capitais gregos situados em território estrangeiro poderiam conhecer uma mais-valia idêntica à taxa de desvalorização do Dracma em relação ao euro. Daí que isto contribua , no seu regresso, a um aumento da formação de capital sobre o território nacional. Globalmente, muitos actores estariam em dificuldade: os credores que não aceitariam ficar com as suas perdas, mas também as entidades gregas devedoras, cujos activos no estrangeiro poderiam estar ameaçados.

E seria da mesma maneira para as famílias endividadas com base em contratos estrangeiros. A perda, no montante da desvalorização, é contrariada pelo lucro do mesmo nível provocado pela liquidação dos activos gregos no estrangeiro e sua reorganização sobre o território nacional. É muito difícil conhecer o nível exacto desta reorganização e mais ainda de avaliar a redistribuição das cartas entre agentes.

A situação é a priori mais complexa para os bancos gregos. Os bancos estrangeiros, largamente responsáveis do desastre hoje já abandonaram o território grego e deixam na dificuldade o conjunto do sistema bancário nacional [1].

Não pertencendo mais à zona euro, os bancos gregos não poderiam então querer ter acesso às facilidades oferecidas pelo BCE e encontrar-se-iam completamente desligados do mercado monetário da zona euro. Em contrapartida, seriam alimentados provavelmente pelo regresso dos capitais procedentes do passivo dos seus balanços. Sabe-se, com efeito, que as contas das famílias se reduziram em consequência da fuga sobre contas bancárias estrangeiras ou, mais simplesmente, para as classes médias, pela sua conversão em notas de banco central . Esta fuga é cerca de 35 mil milhões de euros desde Fevereiro passado. O regresso para os bancos gregos geraria uma importante mais-valia da qual poderão beneficiar sob formas de contas aumentadas da desvalorização. Permanece por determinar qual seria a importância do regresso de activos, sabendo que os activos gregos apareceriam particularmente baratos no âmbito de uma fiscalidade que permanece até agora acomodatícia.

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Contrariamente ao que afirmam David Amiel e Paul Adrien Hyppolite, não há aqui nenhuma razão para considerar que o banco central seria vítima dos bancos do segundo grau. Por tudo o que se refere ao mercado interno, o mercado interbancário funcionaria doravante em Dracmas como funcionava em euros. Além disso, a fuga dos capitais – excepto antecipações inflacionistas difíceis de avaliar – deve logicamente cessar a partir do reaparecimento da moeda nacional.

Em especial, dizer com o conjunto dos comentadores da crise que os activos do banco central se depreciariam, não tem nenhum sentido, dado que um banco central não conhece nenhum constrangimento de passivo. Mais particularmente, dizer que a dívida pública que figura nos balanços dos bancos e mais ainda, no do banco central também, uma vez que este a aceita como colateral, seria, devido a um incumprimento do Tesouro, uma catástrofe, também não tem rigorosamente nenhum sentido. Ainda uma vez mais, o Banco central é uma instituição que não pode ele próprio estar em situação de incumprimento, de falência.

Sem dúvida, nós poderemos dizer que o Banco central da Grécia estaria ainda endividado das somas que figuram sobre as contas TARGET 2 do BCE, provavelmente mais de 100 mil milhões de euros ou seja mais da metade do PIB grego. Mas precisamente o fim do euro para a Grécia seria também uma situação de incumprimento sobre TARGET 2, por detrás do qual se escondem os credores privados, nomeadamente os banqueiros alemães.

No total, a introdução dos credores privados na questão da saída da Grécia da zona euro não pode de maneira nenhuma ser negligenciada. Estes créditos privados serão sem dúvida uma força de desestabilização importante que se acrescenta às outras forças desestabilizadoras . Mas há problemas muito mais sérios ….

Um BCE esquartejado que constrói o seu túmulo.

O mais grave seria de acordo com Charles Gave [2] a duração longa das negociações – a arma grega – que no final deveria destruir o sistema financeiro alemão. É um ponto de conclusão de Gave, mas vê-lo-emos contestável.

A longa duração das negociações é uma primeira arma que, acoplada à manutenção da livre circulação do capital, permite a uma parte não negligenciável da população nada sofrer com o fim do euro e, pelo contrário, ajudaria o resto da população a gerir tempos difíceis. Se admitirmos que 35 mil milhões de euros já fugiram da Grécia desde Fevereiro passado e que a desvalorização seria de cerca de 50%, o regresso para o país do Dracma desvalorizado é muito vantajoso: 17 mil milhões de dracmas dos quais uma parte poderia ser taxada pelo governo grego para fins redistributivos. Este regresso poderia de resto ser também devido ao retorno de capitais que fugiram da Grécia efectivamente antes da chegada de Syriza ao poder. De acordo com Bloomberg, o Bank Run larvar já tinha gerado uma baixa de 80 mil milhões de euros dos depósitos privados entre 2009 e 2014. O regresso e o lucro que daí se seguiria, difícil de estimar, poderia contudo ser considerável.

Este ganho é ainda tanto mais importante quanto as negociações são longas, e são longas porque este mesmo ganho é financiado pelo BCE… Com efeito, a fuga é compensada pelo apelo ao Banco central grego que aceite, como colateral, dívida pública que, ela própria, é depois aceite pelo BCE. Isto significa dizer que quanto mais os capitais fogem mais enriquece potencialmente uma parte da população grega, enriquecimento potencialmente pago pelo BCE. Pode-se por conseguinte pensar que o prolongamento das negociações é uma arma estratégica do poder grego que – tal como um pescador que tem o tempo de fazer cair de cansaço o peixe gordo que vem ferrar antes de sair fora da água [3] – pode atrasar os prazos oferecendo novas propostas sobre as diversas mesas de negociação.

Porque a verdadeira questão é o sistema financeiro alemão com o seu banco central que impôs por toda a parte no mundo o ordoliberalismo com a sua principal arma: a independência dos bancos centrais.

O BCE não pode parar de financiar a fuga dos capitais bloqueando toda e qualquer forma de ajuda à Grécia porque, num mesmo gesto, ela provocaria o incumprimento grego, em especial um incumprimento total sobre TARGET 2. Obviamente, se o BCE não fosse tratado como qualquer banco com capitais próprios exigíveis, o problema do incumprimento não se poria dado que um banco central clássico é – repetimo-lo – intocável [4]. Infelizmente não é o caso no âmbito do ordoliberalismo e juridicamente, o BCE deve assumir as suas perdas (o Banco central da Grécia nunca liquidará o seu défice TARGET) atingindo os seus proprietários incluindo o principal: o banco central alemão que tem ele próprio como seu proprietário o Tesouro alemão.

Charles Gave que não se preocupa com os bancos centrais, consagra o seu raciocínio sobre o TARGET 2, cujo saldo é apenas a contrapartida de activos e eles mesmos são reflexos do défice da balança corrente grega, figurando essencialmente nos bancos alemães.

Trata-se aqui de um grave erro de análise. Contrariamente ao que ele afirma, os Bancos alemães estão perfeitamente irrigados pelo défice corrente grego, e uma irrigação protegida pelo dispositivo TARGET. Este dispositivo foi iniciado precisamente para evacuar todo e qualquer constrangimento sobre a livre circulação, exactamente como se as trocas dentro da zona não sejam trocas internacionais enquanto que estas continuam realmente a sê-lo. São por conseguinte os bancos centrais que registam os saldos e são levados a financiá-los, sabendo que estes bancos centrais são apenas , em termos de balanços, os elementos constitutivos do BCE. É por conseguinte errado dizer, como de facto afirma Charles Gave, que é necessário comparar os 100 mil milhões da conta grega TARGET2 aos 350 mil milhões de fundos próprios dos bancos alemães: as dívidas gregas e por contágio as outras dívidas do Sul da zona (mais de 1000 mil milhões de euro) não virão destruir o sistema bancário alemão na sua totalidade.

Em contrapartida, é verdade que a conta grega TARGET2 virá “comer” o capital do BCE, por conseguinte o capital dos bancos centrais e além disso deveria logicamente impor uma recapitalização generalizada pelos contribuintes europeus e especialmente alemães.

Num tal contexto, as dívidas do Sul doravante “irradiadas” corresponderão muito provavelmente ao conjunto dos saldos TARGET e é pouco pensável que o ordoliberalismo que presidiu à arquitectura geral do Eurosistema possa ter em simultâneo : Espanhóis, Portugueses, Italianos, etc. que muito rapidamente se irão juntar ao campo de Syriza.

Compreende-se por conseguinte que o BCE, em face duma tal perspectiva, faça tudo para evitar a catástrofe: continuar a financiar a fuga grega… que se torna quase suportável para a Grécia… e permite ao mesmo tempo o “a miragem” do “sério” que seria a concepção do TARGET 2

Tudo, por conseguinte, será feito para impedir um desmoronamento que, para além da economia, seria também um desmoronamento dos valores: o império ordoliberal alemão seria destruído.

A arquitectura organizacional do BCE era uma invenção alemão encarregada de proteger a Alemanha contra os seus parceiros europeus julgados demasiado pouco sérios. O bebé tornou-se um monstro, mas finalmente um monstro benevolente que tentará até ao fim proteger o seu criador das suas próprias asneiras. Mas o fim do fim está a chegar….

Depois do que, a Alemanha, situada com muita dificuldade no centro de uma zona provavelmente devastada, poderá reencontrar a sua antiga moeda nacional, o marco [5].

Algumas conclusões :

1) O BCE não pode evitar temporariamente o incumprimento grego a menos que deixe de respeitar o ordoliberalismo alemão. Compreende-se assim bem melhor a ausência de qualquer espaço de negociação possível entre a Alemanha e a Grécia.

2) A longa duração das negociações é “o investimento” dos gregos que dispõem ainda de liquidez e o drama dos que não têm nada, ou se encontram na parte baixa das trocas económicas reais: desaparecimento de qualquer prazo de pagamento, do investimento, queda do consumo, etc.

3) O incumprimento e a saída da zona desenvolvem um espaço de potencialidades entre as quais :

  • as consequências do incumprimento e a saída da zona euro sobre os contratos de direito estrangeiro terão efeitos destruidores. Mas, no final, o incumprimento da Grécia fazendo balançar o conjunto da zona, levará a que soluções inovadoras deverão ser postas em prática, entre as quais algumas delas já foram consideradas por nós. [6].

  • A brutal travagem do império ordoliberal: nenhum Estado aceitará partilhar mais de 1000 milhares de milhões de euros de perdas sobre o dispositivo TARGET

  • Inversamente, porque um sistema de valores, é “a invariante” de uma sociedade, a Alemanha permanecerá a única nação ordoliberal, e qualquer que seja o seu preço a pagar. Daí o seu regresso ao marco.

       –  A forte desvalorização é portadora de um duplo efeito contraditório:

            a) desenrola-se num contexto de muito fraca elasticidade-preço das importações e das exportações, daí que haja um custo muito elevado a curto prazo e com consequências positivas mais longínquas ;

            b) é provável que haja um regresso maciço dos capitais com possíveis efeitos positivos se forem tomadas medidas correctas : orientação, por estímulos fiscais, dos capitais para as fileiras que geram substituições de importações, tributação redistributiva sobre os repatriamentos dos lucros que serão as primeiras vítimas da desvalorização maciça, etc.

A bomba atómica grega são muitas megatoneladas …compreende-se pois o incómodo dos artilheiros

Texto editado por Crise des années 2010. Texto disponível em:

http://www.lacrisedesannees2010.com/

[1][1] Assim como o fez lembrar Philippe Legrain, ex conselheiro de Barroso, aquando da sua audição junto da Comissão para a verdade sobre grega no dia 11 de Junho último. Veja-se :http://cadtm.org/Audition-de-Philippe-Legrain-ex

[2] http://www.les-crises.fr/ne-jamais-croire-un-grec-surtout-sil-tamene-un-present-par-charles-gave/#!colorbox[78470]/0/

[3] É necessário aqui sublinhar bem que este enriquecimento não é o facto de todos e que uma parte importante da população, incluindo chefes de empresas, encontram-se, pelo contrário, totalmente prejudicada por uma situação que gera um mal-estar na actividade corrente: desaparecimento de qualquer pagamento diferido nas importações, desaparecimento do investimento, redução do consumo interno, etc.…. onde até o desaparecimento do tímido regresso ao crescimento.

 

[4] Cf : http://www.lacrisedesannees2010.com/2015/06/legerete-grecque-folle-bce-furieuse-allemagne.html

[5] Curiosamente os espíritos esclarecidos na Alemanha não parecem ter ainda compreendido a realidade da situação. Assim uma sondagem junto dos membros do conselho económico do CDU revela que para 76% de entre eles a saída da Grécia não é um facto importante.

[6] CF : http://www.lacrisedesannees2010.com/2014/08/fin-de-l-euro-et-fin-de-la-privatisation-des-monnaies.html

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