Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
Esqueça a Grécia, Portugal será o próximo país em crise na zona euro
Matthew Lynn, Forget Greece, Portugal is the eurozone’s next crisis
MarketWatch, 24 de Junho de 2015
Esqueça a Grécia, Portugal será o próximo país em crise na zona euro
MATTHEW LYNN
As dívidas de Lisboa são altas e muita dela está nas mãos de estrangeiros
(Lisbon’s debts are high, and foreigners own most of it)

Por fim, deram um pontapé bem mais forte sobre a lata que rolou pela estrada fora , enquanto mandavam os problemas da crise para a frente. Depois de se manterem os mercados numa situação de angústia e suspense durante a última semana, querendo-se saber se os gregos acabariam por ser expulsos da zona euro, a obtenção de algum tipo de acordo parece-lhes agora provável.
Não estabilizará a Grécia, e não estabilizará a taxa de câmbio euro – EUR/USD, (+0,0806%,) nem uma coisa nem outra. Mas será necessário remendar todo o sistema até ao Natal — e ainda terá de se comprar tempo a cada um de nós para nos ocuparmos com qualquer coisa mais.
E ainda, na realidade, a crise real pode Portugal tem um elevado rácio da dívida/PIB e muita da sua dívida está nas mãos de estrangeiros estar a leste da zona euro, mas sim a ocidente da zona. Portugal é já o tique-taque da bomba relógio que está para explodir.
Porquê? Porque o país tem estado a ter níveis de divida cada vez mais insustentáveis e a maior parte dessa dívida está na posse de estrangeiros, e com a economia ainda em profunda recessão pode ter que entrar em incumprimento igualmente. As eleições no final deste ano podem bem provocar a segunda crise portuguesa — e esta revelará como os problemas na Europa envolvem bem mais que a Grécia , mesmo se isso não atrai a atenção da maioria das pessoas.
Todos os dados sugerem que, uma vez que a relação dívida/PIB se situa em cerca de 130 % ou até acima, estamos perante uma situação basicamente insustentável
Em 2011 e 2012, quando a crise da zona euro disparou, três países entraram numa situação de caos e à beira da falência.
Destes três países, a Grécia está ainda em cuidados intensivos e pelo que se vê tudo indica que assim vai ficar durante o futuro próximo — os gregos parecem estar dispostos a fazerem o que for necessário para ficar na zona euro, quando o resto da Europa está apenas disposta a oferecer-lhe o dinheiro suficiente para poder ficar a flutuar, tornando-se assim impossível que a economia grega cresça (o inverso de uma economia sujeita ao princípio de Goldilocks, ou seja, o inverso de se ter uma economia de moderado crescimento e baixa inflação — provavelmente a pior de todas as soluções possíveis).
Aumenta a esperança de um acordo que leve a um resgate para a Grécia
A Irlanda, que foi sempre a mais forte das três nações falidas, agora está novamente a crescer e a uma taxa razoável, ajudada pela forte recuperação no Reino Unido, que ainda é o seu principal mercado de exportação.
E depois há Portugal – que não está permanentemente em crise ao estilo grego e ainda assim não parece capaz de uma recuperação sustentável.
À superfície, Portugal parece em muito melhor forma do que estava à três anos atrás. Este país saiu do esquema de resgate, deixando o programa em Maio do ano passado, depois de ter atingido as metas do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional. A economia está a começar a expandir-se novamente. O produto interno bruto cresceu 0,4% no último trimestre, atingindo-se assim um ano em expansão, tendo a taxa de crescimento anual atingindo o valor de 1,5%. Estima-se que irá crescer este ano cerca de 1,6% .
Se Portugal pode realmente recuperar, isto seria uma grande vitória para a UE e para o FMI. A sua mistura catastrófica de desvalorização interna e de austeridade parece ter sido um completo fracasso na Grécia, mas se eles podem fazê-la funcionar, tanto na Irlanda como em Portugal, a reputação de ambas as instituições poderiam ser recuperadas.
As dívidas de Portugal são altas e a na sua maior parte estão nas mãos de estrangeiros
Apesar de tudo, dois em três não é nada mau.
O problema é que Portugal, apesar de tudo não pode ser “salvo”
A recuperação da economia não parece muito durável. Esta é principalmente impulsionada por gastos de bens de consumo e por um pequeno aumento cíclico do investimento. Mas as exportações continuaram a cair, e o desemprego continua a aumentar – os números mais recentes mostram que se está acima dos 13,7% da força de trabalho.
A verdadeira questão, porém, é a dívida. De acordo com os últimos dados do Eurostat, agência de estatísticas da UE, o rácio da dívida de Portugal em relação ao PIB subiu para 130%. E mais preocupante ainda, 70% dela pertence a estrangeiros.
Alguns países, como a Finlândia ou a Letónia tem a maioria da sua dívida na posse de estrangeiros – mas estão numa posição bem melhor, a de não terem muita dívida. Outros países, como a Itália, tem muitíssima dívida, mas estão na posição afortunada de que a sua maior parte está nas mãos de residentes nacionais.
Os portugueses estão muito perto de serem os únicos a terem elevado nível de dívida e de a maior parte dela estar nas mãos de estrangeiros. O problema, também não termina aqui. Uma vez que a dívida privada, das famílias e empresas, seja adicionado à equação, Portugal tem no total mais dívida do que qualquer outro país da zona euro, a Grécia incluída (que tem de fundamentalmente lidar com o problema da dívida pública). Não existem quaisquer dados fiáveis sobre a quem é que a dívida pertence, mas é aposta segura considerar que a maioria está nas mãos de estrangeiros.
Enquanto a economia for estável e governo estiver seguro, isso pode não ser um problema. Portugal não parece poder dar-se a esse luxo. O governo do líder de centro-direita Pedro Passos Coelho tem de convocar eleições antes do final de Outubro. O partido socialista de António Costa é susceptível de obter ganhos espectaculares sobre uma plataforma anti-austeridade. Se os socialistas ganham as eleições – e as sondagens dão-no à frente – então é provável que venha a diminuir o ritmo de austeridade, provocando a ira do BCE e do FMI.
Se Podemos, o partido de protesto espanhol, obtém bons resultados nas eleições espanholas, este facto irá animar um Governo Português de centro-esquerda para rejeitar os cortes nas despesas públicas que lhe são exigidos.
Até agora, há pouca evidência de investidores a ficarem nervosos acerca desta questão. O rendimento dos títulos de 10 anos portuguesas saltou de 1,6 % para 2,7%, a partir do início deste ano, mas não estão nem de perto nem de longe na vizinhança dos 14% que chegaram a atingir no auge da crise. As acções portuguesas recuperaram a maioria das suas perdas sofridas quando o país entrou em turbilhão com o resgate, mesmo que não tenham voltado para os valores de 2011.
Mas deveriam ter voltado. Todos os dados sugerem que, uma vez que o rácio da dívida em relação ao PIB sobe para valores de 130% ou mesmo mais, isto é então basicamente insustentável. Um país tem de crescer a 3% – mais simplesmente para manter o valor da sua dívida ao mesmo valor relativo – e não há absolutamente nada que sugira que Portugal pode conseguir isso ou algo parecido.
Haverá sempre um momento em que todos aqueles detentores estrangeiros de dívida portuguesa vão perceber que esta terá de ser amortizada, pelo menos em parte. Uma vez que isso aconteça, haverá uma debandada para vender – e as eleições ainda este ano poderiam muito bem ser o gatilho para isso acontecer.
Neste momento, os mercados acreditam que a Grécia pode ser contida. Talvez isso possa acontecer. Mas Portugal também? Isso parece mesmo improvável. A maioria das pessoas acha que o centro da crise da zona do euro está em Atenas – mas, em vez disso, poderia muito bem estar em Lisboa.
MATTHEW LYNN, MarketWatch, Opinion: Forget Greece, Portugal is the eurozone’s next crisis, 24 de Junho de 2015. Texto disponível em:
http://www.marketwatch.com/story/forget-greece-portugal-is-the-eurozones-next-crisis-2015-06-24







A classe política nao se preocupa em fomentar medidas de estabilidade e de fomento da produção económica. Em vez de medidas de produção decreta medidas de consumo e de patrocínio da clientela partidária. Exemplo o horário semanal do funcionalismo público foi reduzido para 35 horas quando em países ricos como a Alemanha o funcionário público trabalha 40 horas semanais. O governo investe no consumo e não na produção.