UMA LONGA INTRODUÇÃO SOBRE O ARTIGO DA REVISTA THE ECONOMIST E NÃO SÓ, SOBRE A DIREITA QUE ANDA ATORDOADA FACE AO CAOS QUE ESTÁ A PROVOCAR

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Uma longa introdução sobre o artigo da revista The Economist e não só, sobre a direita que anda atordoada face ao caos que está a provocar

Um texto curioso, um texto da mais prestigiada revista neoliberal hoje no mundo, The Economist, o que apresentamos hoje, sob o título Vêem-se gregos para se divorciarem. Adicionalmente, uma revista de onde escrevem autores seriamente críticos à actual política europeia e dos paralelos entre esta e a crise dos anos 30. Dos mais lúcidos que li até hoje. Mandaram-me este texto, como quem diz, um bom texto para o blog A Viagem dos Argonautas.

Peguei nele, com a certeza de que seria um bom texto mas à medida que avançava na sua tradução mais espantado ficava com a sua falta de qualidade e até mesmo da sua de falta de rigor . Ao terminar a tradução e ao relê-la, pensei ter trocado alguma coisa no texto. Revi a tradução. Nada trocado. A mesma ideia sempre, um texto de direita e mais ainda, que se esconde de ser direita nem que seja necessário mentir. E tudo porque a direita que sabe pensar, como é o caso de The Economist, anda desorientada, sente o chão a fugir-lhe debaixo dos pés com a crise grega. Não pode aceitar o que faz a União Europeia e a senhora Merkel mas não é capaz de aceitar que a esquerda esteja no poder na Grécia e com a inteligência com que o tem assumido.

Mas vale a pena editar o texto até por isso mesmo, para mostrar o que vale o melhor da direita face à crise grega: nada, não se distingue dos outros pasquins, venham eles da EU, do BCE, do FMI ou de outros meios ao serviço destas duas instituições, com a diferença apenas de que tem uma escrita bem mais inteligente e uma maior arte de nos convencer.

Veja-se um ou outro detalhe do texto, um qualquer ao acaso, para ilustrar o que afirmamos.

Diz-nos o texto do The Economist:

Uma mudança de mentalidades é necessária. Ambos os lados estragaram a crise grega. Especialmente no princípio, os credores puseram demasiado peso sobre um rápido ajustamento orçamental, numa tentativa condenada de limitar a dimensão da dívida grega. Assim como desnecessariamente impuseram um empobrecimento à Grécia (o PIB reduz-se de 21% desde 2010), isto foi uma distracção da tarefa real, e esta teria como função delimitar e eliminar os impedimentos estruturais do crescimento- impedimentos que são o desenfreado clientelismo, uma administração pública inadmissível, uma regulação tão má que raia o cómico, um sistema de justiça letárgico e não fiável, activos nacionalizados e oligopólios e os mercados quer do trabalho quer dos produtos e dos serviços a serem inflexíveis.

Mas Tsipras tornou a situação ainda pior. Em 2014 a economia grega estava a crescer . Agora está outra vez com o PIB a descer, em parte porque Syriza provou ser incompetente e ainda mostra ser mais clientelista do que os seus antecessores. Mas também porque ao fazer das negociações a sua bandeira política absorveu a atenção de todo o Syriza e levou a que o país tenha recuado anos. A necessidade de que uma crise leve a negociações sucessivas e quase sem parar para com elas arrancar concessões ao outro lado destruiu a confiança dos mercados. O capital saiu em grandes vagas para fora do sistema bancário.

Bom. Diz-nos então que o que aconteceu foi uma distracção da tarefa real, da Troika claro, e esta teria como função delimitar e eliminar os impedimentos estruturais do crescimento. Santo Deus é ignorar todo o desenrolar da crise.

Mas mais ainda. Bravo para o The Economist que nos pressupõe que o crescimento é possível pela via de um só país, como dantes os comunistas acreditavam que era possível implantar o comunismo num só pais. Portanto, o nosso desprezo para essa posição.

Dir-me-ão: estou a forçar a nota. Bom, sendo assim olhemos para a Europa, para toda ela. Para os dados de Eurostat de Maio e de Junho e digam-me se não tenho razão.

Dizem-nos de Eurostat:

Em Abril de 2015 relativamente a Abril de 2014, a produção industrial progrediu de 0,8 na zona euro e de 1,2 na zona UE28 e mostram-nos o que abaixo se reproduz. Crescimento viram-no? Mas o The Economist queria vê-lo no país mais massacrado pela crise e pelas Instituições encarregadas de a gerir!

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Diz-nos  então The Economist  que o que aconteceu foi uma distracção da tarefa real, da Troika claro, e esta teria como função delimitar e eliminar os impedimentos estruturais do crescimento. Dentro dos impedimentos da missão das reformas está o mercado do trabalho muito rígido, diz-nos o artigo do The Economist. Para não nos alongarmos sobre esta tão desejada flexibilidade vejamos alguns números da Grécia de mercado de trabalho demasiado rígido:

  1. 34,6% da população vive na pobreza ou em exclusão social, ou é susceptível de aí cair rapidamente (números de 2012).

  2. Desde o início da crise, o rendimento disponível das famílias caiu de 30%.

  3. O Serviço Público de fornecimento de electricidade corta o abastecimento eléctrico de cerca de 30.000 famílias e empresas cada mês devido a facturas não pagas.

  4. Desde o início da crise, o desemprego aumentou de 160%. Quase 3,5 milhões de empregados trabalham para apoiar 4,7 milhões de desempregados e inactivos.

  5. Os desempregados recebem uma indemnização de desemprego de 360 euros durante os 12 primeiros meses do seu desemprego. Consequentemente, apenas 15% dos 1,4 milhões de desempregados recebem subsídios de desemprego. Os trabalhadores independentes (25% do número total de pessoas activas) não têm direito a estes subsídios.

  6. As transferências sociais deveriam ser reduzidas de 18% este ano. O orçamento da saúde foi reduzido de 11,1% entre 2009 e 2011. Nenhum país da OCDE realizou um corte tão importante sobre este orçamento.

  7. A pensão média de base é inferior a 700 euros, e desde 2010, esta foi reduzida de um quarto. Está previsto que este montante ainda seja reduzido de metade sobre os próximos anos.

Com tudo isto o The Economist ainda quer mais flexibilidade!

Mas retomemos o artigo do The Economist:

Diz-nos:

Mas Tsipras tornou a situação ainda pior. Em 2014 a economia grega estava a crescer. Agora está outra vez com o PIB a descer, em parte porque Syriza provou ser incompetente e ainda mostra ser mais clientelista do que os seus antecessores.

Curiosamente, e agora não traduzo, o FMI vem dizer agora a mesma coisa. Veja-se:

a) According to a new report by the International Monetary Fund, Greece needs more than €60 billion in new financial help over the next three years and faces decades of living in the shadow of a daunting debt mountain that would make it vulnerable to future crises. The IMF laid out Greece’s economic dilemma in stark terms and called on Thursday for Europe to grant the country “comprehensive” debt relief, arguing for the doubling of the maturities on its debts from 20 to 40 years.

b) But at the same time, the IMF also placed much of the blame for the country’s deteriorating situation on the current Syriza-led government in Athens. Before the administration of Prime Minister Alexis Tsipras took power in January, the Greek economy had been returning to growth and slowly progressing on returning its debts to a sustainable path. But the government’s decision to halt reform and privatizations and try to renegotiate the terms of its European-led bailout have caused a significant worsening of the situation. And the decision last week to call a referendum followed by the shutting of banks and the introduction of capital controls have only made the situation worse.

O texto é curioso. No ponto a) levanta e defende uma solução que às escondidas já foi aplicada à Irlanda. O que os gregos têm pretendido desde que Syriza chegou ao poder, tema que é tabu por toda a zona euro! Estender as maturidades, dar um período de graça longo, e pagamentos retardados para lá dos quarenta anos a baixas taxas de juro. De certa maneira é algo semelhante o que o FMI vem agora defender.

Mas tal como o The Economist é preciso culpar o Syriza, o que nos aparece sintetizado em b) quando aqui se afirma :

“Before the administration of Prime Minister Alexis Tsipras took power in January, the Greek economy had been returning to growth and slowly progressing on returning its debts to a sustainable path”.

Pasmamos com este tipo de posições. Um país como a Grécia encurralado por todos e pelas Instituições que seria suposto defender a Grécia sujeito a duríssima política de austeridade, sem meios de estimular seja o consumo seja o investimento é acusado de não ter crescimento é acusado de não ter crescimento económico e, mais ainda, isso é IMPUTÁVEL à ascensão de Syriza. A mentira destes senhores não tem limites. Quer o FMI quer o The Economist acusam Syriza de não haver crescimento económico na Grécia e por CONTRAPONTO ao governo dos seus lacaios que na Grécia o antecederam. Olhemos então para as estatísticas de Eurostat sobre crescimento económico:

economist - II

A Grécia teve decrescimento em 2014, Terceiro trimestre e teve igualmente crescimento negativo no primeiro trimestre de 2015- metade do anterior, já agora! Com Samaras a economia grega já estava outra vez a entrar em depressão, não vale a pena escondê-lo.  Como é possível criticar Tsypras relativamente ao governo anterior e não criticar antes a política seguida que coloca toda a Europa a pão e água e o governo anterior ainda, e com força de razão. Olhe-se para a França, para a Itália, para a Espanha. Sobre esta questão diz-nos Jean-Luc Gréau num artigo publicado em França há dois ou três dias :

Por uma vez, os meios de comunicação social dominantes não procuraram dissimular a mediocridade da situação francesa mascarada pelo número favorável de 0,6% de crescimento trimestral. Tinham razão: a decomposição do resultado é esclarecedora. Decomponhamos, por conseguinte, o crescimento francês do trimestre passado:

– 0,5% de variação de existências suplementares na indústria e na distribuição;

–  0,8% de contribuição do consumo;

– Menos 0,2% para o conjunto dos investimentos (sob a rubrica “Formação bruta de capital fixo”);

– menos 0,4% para o impacto do comércio externo: baixa das exportações, aumento das importações.

Ao mesmo tempo, o sector privado ainda teria destruído 13.400 empregos durante o trimestre passado. Este último número, mais eloquente, confirma a estagnação da economia, com, uma vez deduzida a variação das existências suplementares, um crescimento de 0,1%. (,,,) [1]

A zona euro inscreve-se em 0,4% contra 0,3% no trimestre precedente, graças ao valor apresentado pela França, de que se viu a sua fragilidade, ao valor apresentado pela Itália, positivo (0,3%) pela primeira vez desde há três anos, e ao valor de Espanha, (0,9%), que testemunha de uma retoma forte mas a partir de uma situação de depressão igualmente forte. Contudo, a Inglaterra reduziu (0,3% apenas) e a superpoderosa Alemanha desiludiu (apenas uns tristes 0,3%).

A decepção alemã vem da fraqueza das suas exportações industriais para os Estados Unidos e a Ásia, mas também a mediocridade do investimento. Neste domínio, a Inglaterra está também a arrastar-se, com uma taxa de investimento das suas empresas entre as mais baixa dos grandes países da Europa. Por último, a Itália, que apresenta uma baixa de 30% do investimento em relação ao nível antes da Grande Recessão, espera-se uma nova baixa em 2015, anunciada pelos inquéritos efectuados junto dos chefes de empresa da península.

A decepção alemã vem da fraqueza das suas exportações industriais para os Estados Unidos e para a Ásia, mas também devido à mediocridade do investimento. Neste domínio, a Inglaterra está também a arrastar-se, com uma taxa de investimento das suas empresas entre as mais baixa dos grandes países da Europa. Por último, a Itália, que apresenta uma baixa de 30% do investimento em relação ao nível antes da grande recessão, espera-se uma nova baixa em 2015, anunciada pelos inquéritos efectuados junto dos chefes de empresa da península.

Para terminar, não esqueçamos a Grécia. Sem dúvida, com uma produção com muita dificuldade a ser superior a um quarenta avos da zona euro, poder-se-ia esquecer o caso helénico. Mas a magia diabólico do euro faz que este confeti económico valha tanto quanto uma grande economia. Enquanto que as negociações para o refinanciamento grego patinam e que o FMI toma disposições prévias para agir na hipótese de um incumprimento no pagamento daqui até ao próximo Julho, soube-se que a economia local recaiu (dois trimestre negativos consecutivos). Ao nossos amigos gregos está prometido um Verão quente tanto em sentido próprio como em sentido figurado.”

Depois de tudo isto, e em particular deste excerto de Jean-Luc Gréau, depois de tudo isto penso que vale a pena ler o artigo do The Economist. A direita séria anda tonta de todo, as coisas estão mal, é preciso disparar para todo o lado e encontrar uma solução que nunca seja, os Tsyriza por essa Europa no poder. Desmistificar os The Economist, desmistificar o FMI e a sua manipulação sobre os gregos, sobre Tsyriza, desmistificar a União Europeia e a ideia de que a retoma aí está e quando não está, onde não está, como na Grécia, a culpa é então da esquerda.

E não vale a pena entrar pelo texto dentro, mas leiam-no. Sinceramente leiam-no.

Coimbra, 4 de Julho de 2015

Júlio Marques Mota

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[1] O sublinhado é nosso.

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