Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
(continuação)
O recurso à arbitrariedade é fatal.
A solução matemática dos modelos dinâmicos estocásticos, em conformidade com a abordagem de expectativas racionais que lhes são inerentes, força-os a uma especificação altamente simplificada em termos dos pressupostos comportamentais.
E a capacidade destes modelos de dizer alguma coisa sobre as operações reais dos bancos centrais está comprometida pelos pressupostos comportamentais altamente simplistas neles utilizados.
Claramente, a alegada robustez teórica dos modelos dos Novos Keynesianos tem que desembocar nas dificuldades empíricas, que deixam as equações econométricas indistinguíveis de outras abordagens teóricas concorrentes, onde a inércia é considerada importante. E então a autoridade inicial do pressuposto rigor claramente desaparece…
Esta abordagem ad hoc geral para a anomalia empírica prejudica os modelos dos Novos Keynesianos e a sua credibilidade.
Quando confrontados com o aumento das falhas empíricas, os proponentes dos modelos dos Novos Keynesianos implementaram estas alterações ad hoc das especificações para torná-los mais realistas. Eu poderia dar inúmeros exemplos que incluem estudos de formação de hábitos no comportamento dos consumidores; variações concebidas de comportamentos relativamente ao investimento tais como o tempo de construir, os custos de ajustamento do capital ou de racionamento de crédito.
Mas os piores exemplos são aqueles em que tentam explicar o desemprego. Vários autores introduzem a dinâmica do mercado de trabalho e dão muita atenção ao processo de determinação do salário. Não creio que se possa ser seduzido pelos modelos dos Novos Keynesianos que incluem concessões ao mundo real, tais como as fricções de mercado de trabalho e a rigidez do salário na sua análise. O seu centro de atenção principal é predominantemente sobre os determinantes da inflação com desemprego que muito raramente são discutidas (por exemplo, Blanchard e Gali, 2005).
Claro, o ponto que os Novos Keynesianos parecem ser incapazes de compreender é que estas adições ad hoc, que visam preencher as falhas empíricas enormes dos seus modelos, também comprometem o rigor subjacente fornecido pelas hipóteses de optimização intertemporal e das expectativas racionais.
Então, a discussão do FMI é feita na base deste corpo teórico. Ao exporem os seus resultados, não estou a sugerir que o quadro teórico utilizado seja válido. O ponto a salientar é que dentro de sua própria lógica, os resultados a que chegam não suportam a sua própria posição política que é também a da Troika.
O valor do PIB potencial estimado pelo FMI e, portanto, a diferença do PIB (gap) (“divergência do PIB actual relativamente ao PIB potencial “) utiliza para o seu cálculo “técnicas multivariadas de filtragem” que não precisamos de considerar aqui. Elas são problemáticas, porque dependem de estimativas da não-observada “taxa de desemprego não aceleradora de inflação (NAIRU)”. Para uma crítica, veja-se no nosso blog o texto acima citado sobre a NAIRU.
Com as respectivas estimativas do crescimento potencial, o FMI, em seguida, utiliza um quadro contabilístico de referência – Growth accounting framework –– com o qual pretende :
… medir a contribuição de diferentes factores para o crescimento económico e para calcular indirectamente a taxa do progresso tecnológico, calculada como um resíduo, numa economia…
O método de cálculo do crescimento decompõe a taxa de crescimento da produção total da economia na produção que é devida aos aumentos na quantidade de factores utilizados — geralmente o aumento do montante de capital e o trabalho — e ao aumento da produção que não pode ser contabilizado por mudanças observáveis na utilização dos factores. A parte inexplicável do crescimento do PIB é então assumida como representando os aumentos de produtividade (obtendo mais produção com a mesma quantidade de factores ) ou a medida do que em termos gerais pode ser definido como sendo devido ao progresso tecnológico.
A aplicação estatística utiliza uma “função de produção” (relações entre factores utilizados e produção obtida) de especificações altamente problemáticas, que tem sido utilizada no quadro neoclássico para justificar a hipótese de que todos os factores produtivos utilizados são remunerados de acordo a sua produtividade marginal (contribuição de produção)– e, portanto, o capitalismo é um sistema de distribuição justa.
Eu não vou entrar no que a literatura (vários blogs seria necessários) mas se alguém está interessado (e se quer envolver em debates técnicos necessários – procure na internet blog com críticas sobre as funções de produção de Cobb-Douglas e a teoria da produtividade marginal).
Por exemplo, os resultados da controvérsia de Cambridge sobre o capital destruíram a legitimidade desta abordagem na economia. Mas, de forma que lhes é típica, os economistas neoliberais limitaram-se a ignorar essas críticas devastadoras e continuaram a ensinar e a utilizar o mesmo método mesmo depois de demonstrado que este é incoerente e errado. As controvérsias de Cambridge são muito mal conhecidas pelos economistas, tão bem sucedida foi a sua negação.
O pensamento neoliberal faz com – se destrua quaisquer ideias perigosas que minam o actual consenso ideológico.
Além de fornecer um quadro teórico para justificar as pretensões ideológicas quanto à justiça distributiva, a outra razão pela qual os economistas do pensamento neoliberal, do mainstream, utilizam essa abordagem é que ela é fácil. Tentar estimar funções de produção mais realistas é muito difícil e não irá necessariamente mostrar resultados que o mainstream encontre como sendo ideologicamente aceitáveis .
O FMI estima uma função de produção ” função de produção Cobb-Douglas standard ” que relaciona o PIB potencial com “o stock de capital produtivo”, ” o emprego potencial ” e ” a produtividade potencial total dos factores – que inclui o capital humano”.
Produtividade total dos factores (PTF)
é uma variável que representa os efeitos sobre a produção total que não são causados pela utilização tradicionalmente medida de trabalho e de capital. Se todas as utilizações de factores são tidas em conta, a produtividade total dos factores (PTF) pode ser tomada como uma medida das mudanças tecnológicas ou do dinamismo tecnológico a longo prazo numa economia.
Assim, os modelos estatísticos procuram essencialmente explicar as variações na produção em relação à medida dos factores utilizados. O valor dessa variação que não é “explicada” pela contribuição dos factores de produção utilizados é considerada a PTF . É uma variação residual não explicável da produção e que deve ser devido a utilização “ de factores” não comensuráveis – tecnologia, etc.
Este artigo de 2001 – It’s Not Factor Accumulation: Stylized Facts and Growth Models- escrito por William Easterly (quando ele era um alto quadro do Banco Mundial) e por Ross Levine, “documenta os cinco factos estilizados do crescimento económico”.
Os autores dizem que:
O valor ‘residual’ ( a produtividade total dos factores, ptf) mais do que explicar ou explicada pela acumulação de factores explica a maior parte das diferenças de rendimento e de crescimento através dos países.
(The ‘residual’ (total factor productivity, tfp) rather than factor accumulation accounts for most of the income and growth differences across countries.)
Esta posição é feita no contexto da controvérsia de que a evidência nos diz que “‘algo mais’ para além de acumulação de capital é fundamental para a compreensão das diferenças do crescimento económico e do rendimento em todos os países.”
A análise e a observação empírica confirmam que “mesmo depois da acumulação de capital física e humana terem sido contabilizados, algo mais é responsável pela maior parte das diferenças entre países nos seus níveis de produto interno bruto (PIB) per capita e nas suas taxa de crescimento.”
Os autores concluem que o “algo mais” é a PTF. O problema é que sabemos muito pouco sobre a PTF, dado que é a parte ‘inexplicável’ de modelos estatísticos que procuram explicar o crescimento económico. Dito por outras palavras, uma vez que contabilizámos as coisas que podemos medir tais como trabalho e capital, ainda há variações no crescimento que são inexplicáveis.
[Reference: Easterly, W. and Levine, R. (2001) ‘It’s Not Factor Accumulation: Stylized Facts and Growth Models’,The World Bank Economic Review, 15(2), 177-219].
O FMI conclui-se que o crescimento da produtividade total dos factores tem estado a declinar ao longo da última década.
Dizem-nos que:
… nos Estados Unidos, cujo desenvolvimento tecnológico é comumente considerado como representando a fronteira do mundo, o crescimento da produtividade total dos factores começou a declinar em 2003. Este declínio parece reflectir o estarem-se a desvanecer os efeitos de crescimento excepcional das tecnologias da informação e das comunicações como tecnologias de utilização geral verificadas na década de 1990 até ao início dos anos 2000
Este declínio “pode-se estar a estender para outras economias avançadas”.
O FMI também considera que a PTF tem diminuído por causa de ” uma mudança dos recursos dos sectores com alta produtividade (como as tecnologias na indústria nas tecnologias de informação e comunicação) para os sectores com baixa produtividade (tais como os serviços pessoais, construção e serviços não-mercantilizados)”.
Mais, ” o crescimento de capital humano… declinou durante o período 2001-07″.
Então, aparece a Grande Crise Financeira e o FMI procurou entender como é que a crise financeira provocou o maior declínio na PTF.
Há um motivo para essa necessidade de conhecimento . Os peritos do FMI querem negar que o lento crescimento associado com as consequências da Grande Crise Financeira seja devido a factores cíclicos (deficiente despesa e austeridade orçamental), mas que é antes uma consequência da desaceleração do PIB o potencial.
Então, a ser como pretendem, seguir-se-ia então que a solução é não utilizar os estímulos orçamentais para aumentar a despesa, mas sim procurar compreender as razões que levaram à queda do PIB potencial.
(continua)

