Dívida grega, o eterno retorno – por Jean-Luc Gréau

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Dívida grega, o eterno retorno

O Grexit provocaria um cataclismo

Jean-Luc Gréau

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Um economista muito próximo do governo grego[1] viu em Alexis Tsipras um homem dotado da coragem de Aquiles e da engenhosidade de Ulisses que tinha tido êxito em tomar um grande ascendente moral e político sobre os credores de Atenas. Estávamos na véspera da ronda de negociações iniciada no dia 22 de Junho para encontrar uma saída face à insolvência do país que cinco anos de planos de resgate sucessivos não permitiram superar. Era não estar a contar com a lassitude dos interlocutores de Atenas. A partida de póquer mentiroso entre Atenas e os seus credores teve então o seu momento de verdade nos dias 27 e 28 de Junho, quando as duas partes mostraram as suas últimas cartas, Tsipras sob forma de um apelo ao povo, convocado por um referendo no 5 de Julho, a fim de aprovar ou rejeitar os pedidos dos credores enquanto os seus interlocutores europeus excluíam o ministro Varoufakis para a reunião do Eurogrupo convocado para Bruxelas. Paralelamente, e este é indubitavelmente o acontecimento mais duro, o BCE interrompeu as suas injecções de moeda nos bancos gregos, tornados exangues pelos levantamentos selvagens de depósitos pelos seus clientes. E seguidamente, a 30 de Junho, a Grécia não respeitou o prazo de um reembolso do seu empréstimo junto do FMI. O inverosímil, a saída de um membro da zona euro, poderia pois realizar-se.

Antes de analisar a sequência dos acontecimentos, é necessário recordar a partir de que decisão crucial, já esquecida, a Grécia e a Europa chegaram ao actual impasse.

“O golpe de charlatães ” do 10 de maio de 2010

Três meses após a oficialização, em Fevereiro de 2010, da truncagem das contas públicas gregas, a Comissão Europeia, o BCE e os Estados parceiros de Atenas examinam as decisões a tomar sob a situação de urgência. Fazem-no com o concurso técnico e financeiro do FMI, entretanto chamado a ajudar.

É necessário esclarecer uma questão preliminar: será que a Grécia deve sair do euro para recuperar a competitividade que de maneira gritante lhe falta? Os economistas do FMI preconizam, de maneira clássica, conjugar desvalorização, implicando uma saída da Grécia da zona euro, e uma cura de austeridade doseada. Mas o seu ponto de vista será afastado da discussão sem qualquer debate. Existe uma face escondida da catástrofe, uma grande parte dela, pelo menos, a estar escondida do grande público. Os bancos estrangeiros estão expostos pesadamente sobre os empréstimos públicos e privados do país. Especialmente os bancos franceses e alemães, dos quais se descobrirá que estavam sobreexpostos sobre a Grécia, sobre a Espanha e também Portugal, com um total de 229 mil milhões de euros para a Grécia e 226 mil milhões de euros para os restantes países. A desvalorização causaria perdas pesadíssimas nas suas contas. Um novo Lehman Brothers poderia seguir-se. É o que dizem sem rodeios os banqueiros referidos aos seus interlocutores públicos em conciliábulos secretos que antecederam a cimeira do 10 de maio de 2010.

Esta cimeira é dominada por Nicolas Sarkozy e Angela Merkel, sobre a qual não se pode pôr em questão a sua extrema devoção à causa dos bancos. Disso não poderá haver nenhuma dúvida. Decide por conseguinte salvar a Grécia à custa de empréstimos enormes que vêm compensar as somas que Atenas já não pode ir levantar aos mercados [ para pagar aos mercados, aos grandes bancos]. A operação é clara: com as somas emprestadas pelos novos credores públicos, o Estado grego vai libertar-se progressivamente das suas dívidas contraídas junto dos credores privados. Hoje é uma operação bem concluída. O essencial dos 317 mil milhões de dívidas do Estado grego está alojado nas contas dos Estados parceiros, do BCE e do FMI. Missão realizada.[2]

O malogro da medicina aplicada desde então está mais que provado. Apesar de um perdão de um quarto da dívida pública grega, uma baixa sensível dos salários dos funcionários (– 15%) e dos empregados privados (– 30%), a Grécia não conseguiu refazer-se. A queda vertiginosa da produção (– 26%) desmentiu a hipótese de um Greekovery, neologismo que combina “Greece” e “recuperação”. Retenham o essencial: a dívida do Estado grego é hoje superior, em proporção, à que tinha na véspera da cimeira de 2010. Após cinco anos de odisseia económica e social, a Grécia estava, em Janeiro passado, no momento das legislativas, mais distante que nunca de retornar a bom porto.

As negociações capotaram sobre as pensões de reforma

Por último Syriza chegou ao poder. Poder-se-ia resumir assim o sketch que diverte que os meios de comunicação social de esquerda no hexágono nos ofereceram no dia seguinte ao voto. Nouvel Observateur, Le Monde e Libé, tal os reis magos, inclinaram-se então sobre a divina criança encarnada por Alexis Tsipras. Mas isso é a ilustração da esquizofrenia que a nossa esquerda cultiva, engolida toda a vergonha , a austeridade neoliberal e a despesa keynesiana, que é o seu contrário.

As ilusões dissiparam-se ao longo do decorrer das ásperas negociações que se prosseguiram durante cinco meses até ao clash de fim de Junho. Estas tropeçaram sobre diferentes pontos, um dos quais a reforma das pensões de reforma. A reforma das pensões de reforma resume a inextricável situação na qual Atenas se fechou. Durante o período abençoado de crescimento a crédito, os políticos atribuíram um regime dito “de profissões de características penosas” a 600 profissões que permitem aos interessados – táxis ou livreiros por exemplo – partir para a reforma aos 55 anos para os homens e aos 50 anos para as mulheres[3]. Aceitaram que os assalariados da parte inferior da escala contribuem apenas durante quinze anos. Pior ainda: a redução do número de funcionários consentida pela Grécia desde 2012 consistiu essencialmente em fazer passar um número de agentes públicos para um regime de reforma antecipada, muito favorável quando se sabe que os salários do sector público são iguais a duas vezes e meia os do privado! Os regimes de reforma públicos e privados pesam assim de maneira esmagadora sobre a economia e as finanças colectivas. Como não é questão de repor sobre o mercado do trabalho as centenas de milhares de reformados aqui referidos, não restava outra solução que não fosse fazer subir os impostos e as contribuições suplementares como o governo Tsipras propunha, para proteger a sua base eleitoral composta de funcionários e reformados[4] , ou cortar no montante das pensões de reforma como o pedia o FMI, alarmado pelos efeitos negativos das cobranças encaradas pelo governo de Atenas. As últimas negociações encalharam sobre este ponto.

Que poderia passar-se agora que os actores revelaram o seu jogo[5]?

Tsipras quer fazer com que os Europeus assumam a responsabilidade do incumprimento de pagamento e da saída da zona euro que se lhe deveria seguir-se. Adopta por conseguinte a postura moral do líder democraticamente eleito que recusa “a humilhação do seu povo”. Com o apoio de um certo Vladimir Putine que tenta reenviar aos europeus o bumerangue que estes lhe lançaram desencadeando sanções económicas contra a Rússia. Aplicando a teoria “da discórdia no inimigo” cara ao general de Gaulle, incentivou Tsipras “a opôr-se”, saboreando de antemão a desordem económica e financeira que poderia resultar de um incumprimento de Atenas. É em Saint-Petersburgo, no feudo do presidente russo, que Tsipras lançou a sua penúltima bravata: “Somos um país de marinheiros habituados a enfrentar as tempestades e não temos medo de sulcar longínquos oceanos”

Mas quer também colocar o sistema europeu numa situação de negação da democracia confessada. O Primeiro ministro grego efectua assim uma batalha ideológica em pleno coração de um imbróglio que atingiu o seu paroxismo. Batalha ideológica da qual espera sem dúvida que terá repercussões para além da Grécia: em Portugal, em Espanha, em Itália.

Face a ele, Angela Merkel aparece como a única que podia conceder um compromisso favorável à Atenas. Porque a chanceler está altamente incomodada e dividida entre dois imperativos políticos. O primeiro é o de não arruinar a sua áurea de grande dirigente do Velho Continente, ratificando uma falência grega sinónima de malogro do euro, ou mesmo do projecto europeu: ela cessaria de encarnar este projecto do qual é ela que transporta quase todo o seu peso desde o apagamento da França. O segundo é proteger a sua outra áurea de defensora intransigente dos interesses da Alemanha junto da sua opinião pública. Ora, é um ponto omitido pelos comentadores mediáticos, o Parlamento alemão pediu que a chanceler se coloque atrás do FMI! Ter-lhe-ia sido necessário ultrapassar a vontade parlamentar, com grandes riscos políticos. E Merkel rejeitou uma conciliação final.

Uma nova odisseia para a Grécia, uma nova era de incertezas para a Europa

Esperando o referendo, o governo de Atenas e o Banco central da Grécia decidiram conjuntamente um encerramento dos bancos até depois do referendo e um controlo dos capitais. Paragem do financiamento do BCE por um lado, controlo de capitais do outro, tudo isto a significar para os especialistas em moeda que a Grécia saiu de facto da união monetária e que o resultado do referendo já não interessava.

Se isto é verdade, está-se por saber se o incumprimento grego, uma vez adquirido, exercerá um efeito de contágio sobre as outras dívidas sensíveis da zona euro, a portuguesa, a italiana ou a espanhola. Os economistas que têm voz no capítulo mediático pensam que o risco sistemático de 2010 está afastado. Mas disto não sabem nada. Entramos num território inexplorado. Wait and see.

Agradecemos ao Director da Revista Causeur, Gil Mihaely e ao próprio Jean-Luc Gréau, a disponibilização deste texto.

Ver em:

http://www.causeur.fr/grece-dette-euro-allemagne-33738.html

[1] Jacques Sapir Blog Russeurope Hypothèses Org.

[2] Os credores estrangeiros libertaram simultaneamente do mercado da dívida privada

[3] Veja-se Michael Lewis « Boomerang » Editions Sonatine 2011.

[4] Renovando assim   a tradição clientelista i do país.

[5] Observemos de passagem que a França desapareceu do concerto europeu, uma vez que o estúpido e pretensioso que habita o Eliseu abandonou  os comandos a Angela Merkel.

 

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