Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
(conclusão)
5. – Esta guerra dos credores contra o povo grego foi travada (e ganha pelos credores-agressores) também para deixar claro aos povos das colónias do sul que, nesta Europa do euro, nesta Europa do capital, nesta Europa alemã, quem dita as regras são os senhores-credores da ‘metrópole’. Aos povos das ‘colónias’ resta aceitar, submissamente, a sua sorte de colonizados, humilhados e ofendidos.
O exemplo recente da Grécia mostra, a meu ver, entre outras coisas, que, no quadro da UEM, não tem qualquer viabilidade nenhum programa sério de renegociação e reestruturação da dívida soberana, por mais insustentável que seja essa dívida. Nesta ‘Europa’ agora dividida em credores e devedores, os primeiros recusam qualquer possibilidade de reestruturação da dívida que asfixia os devedores. A Alemanha, que lidera as tropas dos credores nesta guerra contra os devedores, esqueceu o Acordo de Londres (1953) que garantiu o seu desenvolvimento e impõe às ‘colónias’ condições que vão em sentido inverso ao daquelas que lhe foram generosamente oferecidas. Porquê este ‘esquecimento’ da História? A verdade é que a Grécia ofereceu dura resistência ao invasor nazi e não pode hoje, por força das circunstâncias, ser uma peça importante na defesa do «mundo livre» contra a «ameaça comunista», no quadro da guerra fria. Mas não posso aceitar que o povo grego mereça menos respeito do que o povo alemão mereceu (inclusivamente por parte da Grécia) oito anos apenas depois da derrota das hordas nazis.
Em conclusão: a análise do dramático processo que forçou o Primeiro-Ministro grego a assinar um documento em que não acredita e com o qual não concorda (foi ele que o disse na TV e no Parlamento do seu país) pôs em evidência que a Europa de Maastricht e do Tratado Orçamental apagou do chamado espírito europeu qualquer ideia de coesão e de solidariedade. Pôs em evidência que, talvez na sua maioria, os cidadãos de cada um dos estados-membros não se sente concidadão dos naturais de outro país da UE (sobretudo se este for devedor). Pôs em evidência que o povo europeu não existe. Dominique Strauss-Kahn disse um dia que era preciso produzir os europeus, mas ele saiu da cena política, e projecto deve ter sido posto de lado… Pôs em evidência também que esta Europa do capital e do euro não muda. Os povos que querem salvar a sua independência como estados e a sua dignidade como povos têm de libertar-se das cadeias do euro.
Tenho de reconhecer que sai reforçada a razão dos que defendem que, em Portugal, temos de analisar todas as implicações da saída do euro, preparando-nos para tomar essa decisão quando as condições o aconselharem, sem nos deixarmos colocar na situação de sermos corridos, como agora quiseram fazer à Grécia (temporariamente, por um período de cinco anos, ou a título definitivo).[1]
Não quero ser pessimista, mas a verdade é que a persistência nas políticas da UE (disfarçada de troika ou actuando como tal ou como BCE) que estão a arruinar a economia dos ‘países do sul’ e a minar a sua soberania, bem como a insolência com que os governantes dos ‘países do norte’ vêm enxovalhando a dignidade dos ‘países do sul’, têm todas as características de uma verdadeira guerra.
Porque é de ‘guerra’ que se trata quando os estados mais fortes e mais ricos da Europa humilham os povos dos países mais débeis, ‘castigando-os’ em público com ‘penas infamantes’ e condenando-os a um verdadeiro retrocesso civilizacional em nome da verdade dos ‘catecismos’ neoliberais impostos pelo grande capital financeiro. Como se diz atrás, o chamado Tratado Orçamental constitui um verdadeiro «golpe de estado europeu», que, sob a capa de soluções ‘técnicas’, dá corpo a uma visão totalitária que suprime o que resta das soberanias nacionais, ignora a igualdade entre os estados-membros da UE, ofende a dignidade dos chamados ‘povos do sul’ e dos seus estados, e aponta para a colonização dos pequenos países pelos grandes.
Pode estar em perigo a paz na Europa. Jean-Claude Juncker tem razão, por uma vez, quando diz que «está completamente enganado quem acredita que a questão da guerra e da paz na Europa não pode voltar a ocorrer. Os demónios não desapareceram, estão apenas a dormir, como mostraram as guerras na Bósnia e no Kosovo».[2]
Sem querer ser agoirento, creio que vale a pena recordar aqui, uma vez mais, este alerta de Joschka Fisher: «A Alemanha destruiu-se – a si e à ordem europeia – duas vezes no século XX. (…) Seria ao mesmo tempo trágico e irónico que uma Alemanha restaurada (…) trouxesse a ruína da ordem europeia pela terceira vez». Dá que pensar.
A Europa alemã está a levar demasiado longe a sua arrogância e a sua desumanidade para com os povos do sul. Em entrevista ao Guardian (16.7.2015), Jürgen Habermas defende que o governo da Srª Merkel, ao impor a Tsipras a rendição incondicional, praticou um «acto de punição» contra o governo do Siryza e contra o povo grego. E acrescenta: «o governo alemão, incluindo a sua facção social-democrata, (…) revelou-se desavergonhadamente como o disciplinador-chefe da Europa e pela primeira vez pediu abertamente uma hegemonia alemã na Europa», o que justifica o temor do filósofo alemão de que este gesto «tenha deitado fora numa noite todo o capital político que uma Alemanha melhor acumulou ao longo de meio século».
O mal-estar cresce por toda a Europa, e também na França. A ponto de o secretário-geral do PS francês ter escrito e publicado uma carta aberta ao povo alemão, de que jornais deram conta, em que propõe que a Alemanha repense o seu lugar na Europa. Escreve ele: «A Europa, meu querido amigo, não entende a obstinação do vosso país em seguir o caminho da austeridade. Será que o vosso país esqueceu o apoio dado pela França depois daqueles crimes atrozes cometidos em vosso nome? (…) A França e a Europa deixaram a Alemanha tornar-se a potência que é hoje. (…) Mas, querido amigo, a Alemanha tem de se organizar e depressa». Antes que seja demasiado tarde, digo eu.
Não quero terminar sem deixar claro que as questões em aberto não se resolvem pondo bigodes à Hitler nos retratos da Srª Merkel, nem diabolizando a Alemanha como um todo. O regresso da Grande Alemanha fez regressar os medos históricos da Europa, cujos povos têm sido secularmente martirizados e dizimados por guerras que não são as suas. E a extrema direita fascistóide vai dando sinais de vida, por vezes com o apoio entusiástico dos estados-membros da União Europeia, como na Ucrânia.
No entanto, sabemos hoje que a 1ª Guerra Mundial não ocorreu porque um fanático matou um arquiduque numa rua de Sarajevo. E sabemos também que o nazi-fascismo não se confunde com a personalidade psicopática e com as ideias criminosas do fanático Adolf Hitler. O nazi-fascismo foi o resultado da aliança entre o partido nacional-socialista e os grandes monopólios alemães (da indústria e da finança) em determinadas condições históricas (da história do capitalismo). O que hoje se passa aos nossos olhos é o fruto da ditadura do grande capital financeiro, que ganhou supremacia relativamente às actividades produtivas (Keynes alertou para os perigos de uma situação deste tipo), produziu a ideologia neoliberal e tornou o mundo dependente dela, para seu proveito. Estes têm de ser os alvos do nosso combate, em especial no plano da luta ideológica, um terreno privilegiado da luta de classes nestes nossos tempos.
António Avelãs Nunes
16 de Julho de 2015
[1] Toda a gente diz que Schäuble tem o sonho (e um plano para o realizar) de correr a Grécia do euro. Numa das reuniões do Eurogrupo antes do ‘acordo’ imposto a Tsipras após o referendo de 5.7.2015 foi presente uma proposta formal da Alemanha no sentido de afastar a Grécia do euro durante cinco anos, proposta que foi posta de lado dada a oposição da França. Mas o Presidente da Comissão Europeia já tinha admitido antes que «a Comissão tem um cenário de Grexit preparado e em detalhe» (Público, de 8.7.2015). A premeditação é clara…
[2] Entrevista a Der Spiegel, 10.3.2013.


” o governo da Srª Merkel, ao impor a Tsipras a rendição incondicional, praticou um «acto de punição» contra o governo do Siryza e contra o povo grego.” verdade?vendo bem toda a situação, não foi bem assim, ao tsipras não lhe foi imposto nada, ACOBARDOU-SE e de gente dessa não reza a história dos povos…. o governo da Srª Merkel, contra o povo grego, usou um traidor, existe infelizmente muita porcaria dessa na História Universal….