BISCATES – Vida e inteligência – por Carlos de Matos Gomes

biscatesTemos primos a 1400 anos-luz. A NASA anunciou há pouco a descoberta de um exoplaneta a 1400 anos de luz, que parece reunir as condições para a existência de vida e atribuiu-lhe o nome de código de Kepler-452b. Os títulos dos jornais, anunciaram-no como Terra 2.0, a terra dos nossos primos. De gente inteligente como nós.

Na realidade, ao contrário do que a comunicação social da Terra 1.0, a nossa, pretende fazer-nos crer, a existência de vida não tem como inevitável consequência que esta seja inteligente e mais, não é nada seguro que aquilo que os jornalistas terráqueos designam por inteligência, ou vida inteligente, seja de facto inteligente.

Duvido que a inteligência do conjunto de seres da Terra 1.0, que consideram inteligência os esforços, saberes, trabalhos e recursos gastos a construir o arsenal nuclear que constitui uma armadilha que os pode fazer desaparecer em segundos numa bola de fogo e arrastar com eles toda a vida, deixando apenas as baratas, constitua motivo para os primos da Terra 2.0 virem até aqui em visita de estudo, se forem, de facto, inteligentes. Ou que, só se forem estúpidos, nos recebam de braços abertos.

Acredito que, no infinito universo, além da Terra, exista aquilo a que nós chamamos vida, a troca de energia que a inteligente Lili Caneças, nossa conterrânea, definiu como sendo o contrário de estar morto, mas duvido que em algum outro lugar tenha ocorrido o desenvolvimento da forma de comportamento frenético e suicida que vingou na Terra 1.0, a que os humanos designam por inteligência. Duvido que em algum outro objecto voador do universo tenha surgido a ideia de, depois de bater com duas pedras para fazer fogo, aproveitar as chamas para queimar os semelhantes que não acreditavam ter sido o fogo uma obra não só de um Deus, mas do que passou a ser o seu Deus!

As histórias matriciais das grandes religiões dos habitantes humanos da Terra 1.0, que revelam as suas visões do mundo e de como ele foi criado, as relações do homem com os seus semelhantes e com o universo, provam a sua perversidade, mas não a sua inteligência, nem sequer a sua sensatez. As histórias da criação do mundo da maioria das religiões revelam um homem que acredita no que lhe convém: na sua imortalidade e na sua escolha para pertencer ao povo eleito, numa terra eleita. Um homem que desculpa a sua crueldade com a vontade divina e que, nas civilizações ditas mais avançadas, vive na inconsciência do resultado dos seus atos e da finitude dos recursos de que dispõe, num bacanal dionísico.

Não me parece prova de inteligência os milhões de seres da nossa espécie que acreditam nas historietas pueris e sem nexo, que tanto podem ser a ideia do budismo, do homem ser um condenado a reencarnar infinitamente após a morte e a passar sempre pelos sofrimentos do mundo material, do carma e do nirvana, como a da explicação da criação do mundo em sete dias, no Génesis da Bíblia, o livro sagrado das três grandes religiões do Médio Oriente, que inclui a expulsão do paraíso de um casal de nudistas que desobedeceu ao Deus, comendo uma maçã, dando origem à condenação eterna da humanidade, como ainda a gestão dos 330 milhões de deuses do hinduísmo, a começar por Brahma, um antepassado da Santíssima Trindade dos católicos, simultaneamente Criador, Preservador e Destruidor.

Os textos sagrados, se contém uma mensagem inteligível, é a de que fazemos parte de uma espécie de seres vivos que acredita em fantasias, que mata por elas, que se sacrifica por elas. Tal como a notícia da morte de Mark Twain, a convicção da nossa inteligência é manifestamente exagerada e alguns dos elementos mais imaginativos da nossa espécie tiveram de desenvolver teorias filosóficas para disfarçarem a irracionalidade do que, presunçosamente, entendemos ser o que nos distingue dos outros seres vivos. Hobbes descreveu a razão moderna como uma capacidade que habilitava o indivíduo a distinguir entre o bem e o mal, entre o falso e o verdadeiro. Uma acepção muito mais voltada para o que é conhecido como ética do que para a inteligência. Max Weber dissertou sobre a racionalidade formal da civilização ocidental, associada ao capitalismo, um sistema económico, social, cultural e religioso cuja racionalidade seria fruto do desenvolvimento que decorre de fatores técnicos. Para os filósofos da racionalidade funcional, o termo “racional” deixou de ser o ato de pensar, para se tornar a realização de “medidas organizadas de forma a levar a um fim previamente definido”. A racionalidade estaria nos meios e não nos fins. Para os adeptos da racionalidade subjectiva, não existe diferença entre pensamento e ação, todo pensamento é um ato automático, formalizado, que funciona no contexto da vida racionalizada, mas não pensada. Nada inteligente, em suma. Até um poeta como Fernando Pessoa tinha sérias dúvidas sobre a nossa inteligência: «é pelos seus instintos, pelos seus hábitos, pelos seus sentimentos – e não pela sua inteligência – que o indivíduo é directamente social.»

A descoberta do tal planeta primo do nosso com os nossos possíveis primos, dotados da mesma inteligência que nós, não me pareceu, pois, portadora de esperança num futuro melhor.

Enfim, talvez fosse boa ideia descobrir como habitar melhor o planeta em que estamos e do qual não conseguimos sair, em vez de procurarmos a 1400 anos-luz o que não queremos ver à nossa porta.

Ainda se fosse para mandar para lá alguns dos nos poem a olhar para o telescópio para não lhes vermos as garras…

1 Comment

  1. Gostei da reflexão. Ao desembarcarem na terra 1.0, os primos da 2.0 bem poderão pensar que os seres inteligentes são os automóveis e aviões. Nós passaremos por simples amebas. Um abraço.

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