Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
O regresso do vilão alemão
Joschka Fischer, The Return of the Ugly German
Project Syndicate, 23 de Julho de 2015
Joschka Fischer on 24 July 2015
Durante a longa noite de negociações sobre a Grécia em 12-13 de Julho, algo de muito fundamental para a União Europeia se despedaçou. Desde então, os europeus passaram a viver num tipo de União Europeia diferente.
O que mudou naquela noite foi a Alemanha que os europeus conheceram desde o fim da segunda guerra mundial. À superfície, as negociações foram sobre a forma como evitar que a Grécia saísse da zona euro (ou “Grexit”) e as terríveis consequências que se seguiriam para a Grécia e para a União Monetária. A um nível mais profundo, no entanto, o que estava em jogo era o papel na Europa do seu mais populoso país e que é também economicamente o mais poderoso.
O ressurgir da Alemanha após a segunda guerra mundial e o restabelecimento da confiança do mundo nela mesma (culminando no consentimento para reunificação alemã décadas quatro décadas e meia mais tarde), foi construído nos robustos pilares que foram a economia interna e a sua política externa. Internamente, uma democracia estável com base no estado de direito que foi rapidamente estabelecido. O sucesso económico do Estado Providência na Alemanha provou ser um modelo para a Europa. E a disposição dos alemães para fazer face aos crimes dos nazis, sem reservas, gerou um profundo cepticismo relativamente a todas as questões militares.
Em termos de política externa, a Alemanha voltou a incutir confiança ao abraçar a integração ocidental e a sua europeização. O poder no centro da Europa nunca mais se deveria tornar uma ameaça para o próprio continente. O objectivo dos aliados ocidentais, depois de 1945 – ao contrário do que aconteceu após a primeira guerra mundial – foi não o de isolar a Alemanha e o de a não enfraquecer economicamente, mas sim o de a proteger militarmente e de a incorporar de forma firme no plano politico no Ocidente. Com efeito, a reconciliação da Alemanha com seu arqui-inimigo, a França, continua a ser a base da União Europeia de hoje, ajudando a incorporar a Alemanha no mercado comum europeu, tendo em vista a eventual unificação política da Europa.
Mas na Alemanha de hoje, essas ideias são consideradas irremediavelmente como “Euro-românticas”; o seu tempo já passou. A Europa que agora interessa na Alemanha é principalmente a deste país prosseguir os seus interesses nacionais, como toda gente.
Mas tal pensamento é baseado numa premissa falsa. O caminho que a Alemanha prosseguirá no século XXI – em direcção a uma “Alemanha Europeia” ou a uma “Europa alemã –” tem sido a questão fundamental e histórica no coração da política externa alemã desde há dois séculos. E a ela foi respondido durante essa longa noite em Bruxelas, com a Europa alemã a prevalecer sobre a Alemanha europeia.
Esta foi uma decisão fatídica para Alemanha e para a Europa. Perguntamos-nos se a Chanceler Angela Merkel e o ministro das Finanças Wolfgang Schäuble sabiam o que estavam a fazer.
Para descartar a crítica feroz de Alemanha e dos seus principais jogadores que emergiram depois do diktat sobre a Grécia, o que muitos alemães fizeram, foi colocar óculos cor-de-rosa. Certamente, houve uma propaganda absurda sobre um quarto Reich e asininas referências ao Führer. Mas, na sua essência, a crítica articula uma consciência perspicaz do corte feito pela Alemanha com toda a sua política seguida no após-segunda guerra mundial.
Mas o grande conflito com a França e a Itália, a segunda e a terceira maiores economias da zona do euro, não foi ultrapassado, porque, para Schäuble, Grexit continua a ser uma opção. Alegando que o alívio da dívida é “legalmente” possível mas apenas fora da zona euro, ele quer transformar a questão na razão de ser para forçar uma saída, Grexit. “voluntária”.
A posição de Schäuble pôs claramente em relevo a questão fundamental da relação entre o norte e o sul da Europa, e a sua abordagem corre o risco de forçar e levar a zona euro para um ponto de ruptura. A crença de que o euro pode ser utilizado para levar a cabo a “reeducação” económica do Sul da Europa irá provar ser uma falácia perigosa – e não só na Grécia. Como os franceses e italianos bem sabem, esse ponto de vista coloca em risco todo o projecto europeu, que tem sido construído sobre a diversidade e solidariedade entre os seus membros.
A Alemanha foi o grande vencedor da unificação europeia, económica e politicamente. Basta comparar uma história da Alemanha na primeira e na segunda metades século XX. A unificação da Alemanha sob Bismarck no século XIX ocorreu durante uma grande vaga de nacionalismo Europeu. O nacionalismo e o militarismo tornaram-se intimamente associados com o poder alemão. Com efeito, a filosofia política da Alemanha, ao contrário da França, Grã-Bretanha ou os Estados Unidos, nunca tinha incorporado um ideal civilizador para justificar o uso poder militar.
A segunda unificação alemã em 1989 baseou-se na orientação ocidental e irrevogável europeização da Alemanha. E a política da europeização da Alemanha compensa e continua a compensar o fosso civilizacional que subsiste no estado alemão. Permitir a corrosão deste pilar – ou, pior, a sua destruição – que é esta europeização da Alemanha é uma loucura no mais alto grau. E isto é a razão pela qual na União Europeia que emergiu na manhã do dia 13 de Julho, quer a Alemanha quer a própria Europa como um todo, ficaram ambas a perder.
JOSCHKA FISCHER, The Return of the Ugly German, Texto disponível em:
http://www.project-syndicate.org/commentary/return-of-the-ugly-german-by-joschka-fischer-2015-07
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