NA GRÉCIA, AS DIFICULDADES NÃO TÊM FIM, por SATYAJIT DAS – II

bandeirada

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Na Grécia, as dificuldades não têm  fim

Satyajit Das,

Economonitor, 9 de Julho de 2015

(conclusão)

O  Colapso económico

A capacidade para satisfazer os  compromissos do plano é afectada pelo estado da economia grega.

As negociações longas, a incerteza política, a fuga de capitais  e as  restrições recentemente impostas  ao sistema bancário  e o controlo  de capitais  minaram a economia. A economia grega, que é hoje cerca de  25 por cento menor do que em 2007, está   provavelmente em recessão e assim continuarão a reduzir o nível da sua economia .

As falências aumentaram. As receitas de imposto caíram, fazendo com que os objectivos orçamentais sejam difíceis de satisfazer.  Aumentar  os  pagamentos de atrasados aos fornecedores e aos cidadãos não podem ser continuados indefinidamente como meio   de  melhorar a imagem das finanças públicas

Os acontecimentos recentes podem afectar o tráfego de turistas durante o período crítico do verão, e em que este pode cair  até 40 por cento enquanto os veraneantes mudam o seu destino de férias para  a Turquia, Espanha ou para Portugal. As faltas críticas devido aos controles principais agravaram os  problemas pré-existentes, reduzindo a actividade produtiva  e levando a mais dispensas de trabalho ou mesmo a encerramentos fabris.

Se o crescimento cai  ainda  mais com a continuação da austeridade, então  o objectivo do excedente primário não será alcançado,  o  que cria necessidades adicionais do financiamento.

A ênfase obsessiva continuada nos orçamentos ignora a necessidade das principais  reformas estruturais. Continuar a ser membro  do Euro restringe a capacidade de Grécia para desvalorizar de modo a melhorar a sua competitividade. Mais  desvalorização interna adicional (redução dos custos) e as mudanças estruturais, as únicas opções, são difíceis assim como também são punitivas.

Muitas das propostas em análise são velhas. Os rendimentos prometidos com as privatizações, reduzidas ao longo do tempo, provaram serem uma quimera. As propostas para  impostos mais altos e para mais elevadas  contribuições para as pensões de reforma a partir das  empresas exigem  uma melhoria do sistema de tributação  e a reversão das amnistias fiscais . Os governos gregos sucessivos provaram ser muito ineficazes nestas medidas. Não é claro porque é que agora há-de ser diferente.

Política venenosa

A incerteza política permanece. O primeiro-ministro grego Alexis Tsipras está  vulnerável. O referendo foi politicamente motivado, invocado para proteger a posição cada vez mais sitiada do primeiro-ministro sob o ataque de certos elementos de seu próprio partido e da  coligação que rejeitaram a austeridade. Alguns comentadores  chegaram a sugerir que o referendo fosse  projectado para que uma votação maioritária no  Sim permitisse  que o governo Syriza saísse em boa imagem, evitando o opróbrio de ter que se comprometer ainda  com mais  austeridade na Grécia .

Têm sido  expostas profundas divisões dentro da sociedade grega. A população dividida  escolheu  consistentemente  a  posição   contraditória de rejeitar austeridade e o reembolso de dívida odiosa enquanto quer continuar a  fazer parte do euro. Isto é baseado em questões  socioeconómicas. Os mais abastados  preferem continuar  no euro e usufruir da condição de estar no euro . Os não abastados, incluindo os mais velhos e a juventude, os que suportam a maior parte do custo da austeridade estão abertos para deixar a moeda única que os não tem beneficiado na mesma medida.

As relações entre a Grécia e o resto da zona euro estão agora envenenadas.

Os credores e os contribuintes nos países membros da zona do euro enfrentam agora grandes perdas nos seus créditos sobre a Grécia. Os políticos  que  têm repetidamente assegurado aos seus cidadãos que os compromissos de resgate não vão  resultar em nenhumas perdas para os seus contribuintes, estão agora a sentir-se em dificuldade. A  Itália e a  França, bem como as nações com problemas como é o caso de  Espanha, Portugal e Irlanda, pode encontrar as suas finanças públicas frágeis porque  expostas às perdas com a situação grega.

Há pouca simpatia para com a Grécia, fora talvez da França e da União Europeia (“UE”). O governo francês está preocupado com o efeito de uma saída da Grécia da zona euro  e com a ameaça política representada pela Frente Nacional. A UE não pode arriscar o prejuízo para a sua imagem de poder e do prestígio que adviria de  um Grexit.

Países como a Itália e a Eslováquia deixaram  claro que eles não podem apoiar acordos sob regimes de pensões pretendidos pelos gregos que são  melhores do que aqueles que estão disponíveis para os seus próprios cidadãos. Considerações internas  em países como a Alemanha tornam cada vez mais difícil de apoiar um novo acordo e o fornecimento inevitável de novos financiamentos.

Existem considerações estratégicas. Os países mais fortes terão de  decidir de  quanto em termos de vontade política e dinheiro  será estendido em apoio dos países  membros mais fracos. Isto irá moldar a Alemanha e os países do norte da Europa para mais  apoio para os países periféricos se for  necessário mais  apoio no caso de se verificar um  Grexit. Se esses países querem limitar sua enorme  exposição ao risco, então a viabilidade do projecto europeu torna-se claramente  bem mais fraca.

Os Credores também  estão conscientes de como os acontecimentos na Grécia podem afectar os resultados das eleições a decorrer, mais tarde, em 2015, em Portugal e em  Espanha. As concessões à Atenas pode incentivar ainda mais mudanças a favor dos  partidos anti-austeridade, como o Podemos da Espanha, e repetir a situação grega.

Velha Europa, Velhos Caminhos

Durante seis anos, nenhum líder ou instituição europeia tem estado disposto  a assumir a responsabilidade por  colocar as suas marcas pessoais  nos instrumentos que desencadeiem  a sequência de eventos que nos levam à  conclusão inevitável. Um incumprimento  grego e a saída da moeda única iria manchar o legado de muitos políticos e de muitos dos decisores das políticas seguidas, como a chanceler alemã, Angela Merkel.

A gestão da crise grega da Europa revelou a sua incapacidade em  enfrentar a incoerência entre uma moeda única, uma política monetária, as políticas orçamentais nacionais, os sistemas bancários nacionais e a falta de integração política. Tem também exposto a existência de um  processo de tomada de decisão lento e pesado. O Daily Telegraph de Londres numa espantosa síntese da situação resumiu o problema com cinco imagens idênticas datadas de 2011, 2012, 2013, 2014 e 2015. Em cada uma delas, uma rígida chanceler alemã Merkel diz a  vários primeiros-ministros gregos: “Esta é a sua última chance”. Em primeiro plano, as flores a murcharem  com o passar do tempo.

Os credores estabeleceram o domingo de  12 de Julho como o novo prazo ‘final’ para a Grécia apresentar propostas para um novo acordo. Mas, dada a história passada, não  é provável que isso venha a acontecer tão  rapidamente. Na melhor das hipóteses, se a Grécia não capitular ou se  nenhum progresso é feito, então  o BCE pode reduzir ou retirar o seu apoio. Isso pode exigir pela parte da  Grécia que proceda à  emissão de notas promissórias ou de moeda paralela como uma medida temporária, talvez, em última instância para formar a base da sua nova moeda.

Mas, dada a impossibilidade logística pura de reintroduzir o dracma rapidamente e desfazer as inter-relações complexas entre a Grécia e a União Europeia, tudo isto será uma longa  tarefa a exigir muito esforço  e igualmente a ser  muito dolorosa. O governo grego armazenou petróleo e alimentos para um esperado cerco pela parte da União Europeia . Poderá mesmo acontecer que os  credores e o BCE apliquem uma  pressão implacável para estrangular a economia grega de modo a conseguirem que a Grécia faaça as concessões pretendidas.

A Grécia é um cadinho para o futuro de outras nações altamente endividados na Europa e mesmo noutros lugares; os gregos carregam com um mau presságio do ponto de vista  económico, social e político que será difícil de evitar. Aconteça o que acontecer  é certo que se irão destruir   vidas, esperanças e futuro de muitos europeus, na Grécia e noutros lugares

Satyajit Das,  Greece’s Never Ending Troubles, publicado a 9 de Julho de 2015 por Economomitor. Texto disponível  em :

 http://www.economonitor.com/blog/2015/07/greeces-never-ending-troubles/#sthash.xXn19xYk.dpuf

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Para ler a Parte I deste texto de Satyajit Das, publicado ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

NA GRÉCIA, AS DIFICULDADES NÃO TÊM FIM, por SATYAJIT DAS – I

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