Houve eleições. Na véspera e como comentário a um texto de um amigo meu escrevi:
“Um grande abraço e sinceramente um grande editorial o de hoje. Pela parte que me toca ainda pensei fazer alguma coisa, escrever um texto, sobre o dia de amanhã. Não o fiz mas quanto a isso diria a brincar que tinha medo de ser fatalista porque acredito que vamos entrar num turbilhão enorme, tomando como base o Presidente da República e por outro lado Bruxelas, disponível para partir o PS, se necessário. Porque esta possível atitude de Bruxelas? Porque Costa ou é o seu homem, e penso que o seria há dois meses antes, ou não o é. Penso que agora não é o homem de Bruxelas e de modo nenhum. A coligação não vai ter maioria absoluta e a partir daqui só há uma saída, à Tsipras na Grécia, matar a esquerdalhada do PS, matar o Costa e colocar um homem de mão à frente do PS. Argumento? O mesmo que ele aplicou a Seguro, o de não ter uma vitória. E curiosamente não serão os homens do Seguro que o irão assassinar pelas Costas. Ora o PR nunca daria o governo ao PS mesmo que Bloco de Esquerda e PC validem in extremis o Governo PS. Sendo assim, o governo coligação será nomeado e poderá cair com o Orçamento. É aqui que entra a mafia de Bruxelas e dos Estados Unidos.”
Um texto que mantenho. Aliás na noite de ontem assisti à prova de grande parte do que escrevi na véspera.
De resto, os discursos da noite dividem-se em duas partes: a primeira parte em que a hipótese era a de maioria absoluta para a Coligação, o que seria uma verdadeira tragédia para o país, quando em minha casa eu já sabia que não haveria maioria absoluta. Curioso, mas o espectáculo must go on… A segunda parte começava a dar sinais de que a maioria absoluta tinha sido uma ilusão da Católica, ilusão que se terá desfeito no ultimo quarto da sessão eleitoral, por volta das onze penso eu.
Uma constante, Costa deve ser morto, no Largo do Rato o sangue deve correr e chegar até S. Bento. Bravo, nem Shakespeare inventaria um situação destas para Portugal, num tempo de crise como o que atravessamos. Mas deve ser morto, porquê?
É aqui que a questão me interessa. Não faço parte de nenhum clã no PS, não votei no António Costa no PS face a Seguro, sinto-me sem nenhum conflito de interesses. Na minha opinião assistiu-se do ponto de vista técnico, do ponto de vista político, do ponto de vista da manipulação inclusive, tudo dependendo do plano em que cada partido se quer situar na próxima legislatura, a uma grande campanha. Vejamos então:
Coligação e Bruxelas: Jogou-se a fundo na maioria absoluta da Coligação. Somos um país com maior volume de dívida global que a Grécia, não o ignoremos e em que a mínima tempestade arrasa tudo. Não arrasa não, gritar-me-ão. Talvez tenham razão, a mão do BCE protege a coligação, os mercados estarão calmos até aos resultados finais. Depois se verá. Foi assim por todo o lado. A Europa governada, manipulada, pelas caves secretas do BCE em Frankfurt ou serão as de Goldman Sachs nos USA?
Dinheiro parece não ter faltado à coligação. Lembremos um comício em Aveiro, onde se questionaram alguns dos presentes que nem sequer sabiam dizer ao que vinham. Um deles a custo lá disse; vim vir o Passos. Que intimidade! E era uma mulher. Se mais nova e mais bonita até se poderia pensar noutra coisa!!!
Depois, temos a presença de gente da coligação em tudo o que era debate na televisão, sobretudo nos programas destinados aos reformados e domésticas. Gente a dizer e que piada, que só com Alka-Seltzer é que votariam na Coligação mas era nela que votariam. Assim por assim, que ficassem os mesmos. Um dos argumentos era de que nos tinham salvo da crise e que os socialistas nos tinham afundado na crise. Presenças destas deram-se nos vários programas de entertainment na parte da manhã ou na parte da tarde. Gente preparando para veicular a mensagem: é necessário votar na Coligação. Adicionemos que a maioria dos telespectadores são pessoas de baixos rendimentos, pouco atingidos nas suas reformas. Assistiu-se ao mesmo discurso nas páginas ao Director, em jornais. Repugnava, repugnava votar na Coligação mas não havia alternativa: o resto era o caos!
Depois, a mais bela explicação ouvi eu dada por Luis Delgado, na sexta-feira final da tarde. Vinha eu de táxi com a minha neta quando o analista citado me prende a atenção. Falava sobre as eleições e que dizia ele. Um espanto. Costa? Um grande homem, um homem que fez muita coisa como ministro, até o simplex é obra sua. Costa, um grande Presidente da Câmara, do melhor que Lisboa podia encontrar. Mas ganhar as eleições? Isso não, o povo não pode e não o fará, não irá penalizar Passos Coelho, um grande homem, o homem que tirou o país da crise. Portugal não iria fazer como a Inglaterra fez com Churchill. Não, o povo português não é ingrato, sabe reconhecer quem bem o merece e como o merece. E a crónica continuou com o mesmo discurso!
Propaganda da mais pura, nos programas da rádio e da televisão. Lembram-se por exemplo da forma como em nota de rodapé a televisão informava que Costa não viabilizava o orçamento na próxima Assembleia. O texto rápido a passar dava a ideia de um crime de lesa-majestade. Pior ainda, lembram-se do anúncio da RTP a afirmar quando se enganava e não enganava nas suas previsões. Quando é que não se enganava? O spot publicitário só era claro numa das eleições: nas eleições em que anunciava a vitória de Passos Coelho. Confirmou-se. Nas outras eleições não se sabia bem quem é que ganhava ou perdia, onde é que estava o engano. A sugerir, no imaginário de quem via e ouvia que agora também se poderia não enganar quando anunciava a vitória de Passos Coelho!
Num outro ângulo, veja-se a queda estrondosa da fiabilidade das sondagens da Católica. A abstenção, uma vitória da Democracia, mas a abstenção aumentou! Durante grande parte da noite alimentou-se a ideia de maioria absoluta. Ao intervalo eu já sabia que havia sondagens que não davam maioria absoluta. Mas o espectáculo must go on… Cada vez mais me convenço que as sondagens não são feitas para prever, são feitas para convencer. E isto viu-se com o massacre da maioria, e maioria absoluta para a Coligação. E houve gente no PS que caiu nessa e começou logo a atacar o António Costa, antes mesmo das eleições!
Ao engano nas suas previsões, a RTP acerta uma vez, na vitória de Passos Coelho
Lembram-se das agências de rating a subirem o rating da dívida pública portuguesa, um rating que era de lixo, e é de lixo, mas que tinha taxas de luxo, o que ninguém questiona? Lembram-se? Todos os pontos do imaginário político foram utilizados até a intervenção destas agências na vizinhança do 4 de Outubro. Percebe-se pois que Catarina Martins no debate com Passos podia levar um poster com o retrato do Pinóquio deste país, ou melhor, de um deles.
Pela Coligação tudo foi possível manipular, convencer, como quiserem.